A terra lembra: memória, território e re-existência depois da Barragem de Fundão | Maria Júlia Gomes Silva Cintra e Flora d’el Rei Lopes Passos
Maria Júlia Gomes Silva Cintra[1]
Flora d’el Rei Lopes Passos[2]
Tente imaginar um lugar antes de tudo acontecer. Um lugar onde o tempo se mede em estações, em ciclos de chuva e seca, em festas religiosas que retornam todos os anos como se fossem uma promessa renovada de continuidade. Imagine uma comunidade pequena, cercada por montanhas, onde as pessoas conhecem o nome das nascentes, onde os caminhos de terra carregam marcas de gerações de passos, e onde o rio é água correndo entre pedras, é parte da vida cotidiana, é lugar de pesca, de conversa, de trabalho, de infância.
Agora imagine esse mesmo lugar depois que a lama chega.
Quando falamos hoje de eventos extremos, frequentemente pensamos em furacões, enchentes ou ondas de calor. Mas há outros extremos produzidos por decisões humanas, por modelos econômicos e por formas específicas de ocupar o território. São extremos fabricados. No Brasil, um desses acontecimentos marcou profundamente sua história: o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015.
A barragem de Fundão armazenava rejeitos da extração de minério de ferro e seu colapso liberou milhões de metros cúbicos de lama tóxica, devastando o rio Gualaxo do Norte e, posteriormente, toda a bacia do rio Doce. O rejeito percorreu centenas de quilômetros até alcançar o oceano Atlântico, atravessando municípios e carregando consigo casas, igrejas, plantações, animais e histórias inteiras. Dezenove pessoas morreram naquele dia.
Nos dias que se seguiram ao rompimento, a cobertura midiática oscilou entre o enquadramento do evento como “acidente” ou “tragédia natural”, com ampla exposição inicial do desastre, que foi gradualmente substituída por uma diminuição do interesse dos meios de comunicação, à medida que o acontecimento deixava de ocupar posição de destaque na agenda pública. Paralelamente, as empresas responsáveis investiam significativamente na produção de uma narrativa de reparação e boa-fé, que disputava, nos meios de comunicação, espaço com os relatos das próprias comunidades atingidas.
Nesse contexto, o jornal A Sirene, criado pelos próprios atingidos como resposta a esse silêncio progressivo, tornou-se um dos documentos mais eloquentes dessa disputa. Seu próprio nome é uma declaração de método: onde as sirenes de alerta falharam no dia do rompimento, a publicação se propõe a soar continuamente, recusando o esquecimento como destino.
Compreender essa disputa de narrativas é, portanto, condição para qualquer projeto sério de justiça ambiental, uma vez que o apagamento deliberado, é parte constitutiva do desastre-crime ao controlar a memória do que foi destruído e permitir que o esquecimento seja produzido.
Mas as perdas não podem ser contadas apenas em números. A lama também destruiu modos de vida das comunidades de Bento Rodrigues, Camargos, Paracatu de Baixo e tantas outras que margeavam o Gualaxo do Norte, lugares onde o território, ali, era uma extensão da vida.
(Leia o ensaio completo em PDF)
[1] Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Ouro Preto. Email: maria.cintra@aluno.ufop.edu.br
[2] Professora Adjunta do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Email: flora.passos@ufop.edu.br
A terra lembra: memória, território e re-existência depois da Barragem de Fundão
RESUMO: Este ensaio discute as relações entre extrativismo, memória e território a partir do rompimento da Barragem de Fundão, ocorrido em Mariana (MG) em 2015. A partir de reflexões teóricas sobre o extrativismo na América Latina e de contribuições de autores que discutem o Antropoceno, o texto articula essas perspectivas com experiências e observações no território atingido, especialmente no vale do rio Gualaxo do Norte. O ensaio destaca a importância da memória territorial e da escuta das comunidades atingidas para compreender os impactos do desastre para além da destruição material.
PALAVRAS-CHAVE: Território; memória; Antropoceno; neoextrativismo.
The land remembers: memory, territory, and re-existence after Fundão Dam.
ABSTRACT: This essay discusses the relationships between extractivism, memory, and territory through the case of the Fundão dam collapse in Mariana, Minas Gerais, Brazil, in 2015. Drawing on theoretical perspectives on extractivism in Latin America and on contributions from authors addressing the Anthropocene, the essay connects these frameworks with experiences and observations from the affected territory, particularly in the Gualaxo do Norte river valley. It highlights the importance of territorial memory and of listening to affected communities in order to understand the impacts of the disaster beyond material destruction.
PALABRAS CLAVE: Territory; memory; Anthropocene; neoextractivism.
CINTRA, Maria Júlia Gomes Silva; PASSOS, Flora d’el Rei Lopes. A terra lembra: memória, território e re-existência depois da Barragem de Fundão. ClimaCom – Eventos extremos – parte 1 [online], Campinas, ano 13, n. 30., jul. 2026. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/a-terra-lembra/
