A linguagem da contingência



Dossiê “A linguagem da contingência”

| ano 6, n. 15, 2019 |

| EDITORIAL | 

 

“Se o pensamento quer de alguma forma responder de maneira produtiva aos problemas que nos levanta a experiência, se não quer reduzir-se apenas à abstração desmobilizante que os seus críticos denunciam nele, então não pode encarar a multiplicidade incandescente do real como uma série de códigos a serem decifrados; pelo contrário, deve considerar tudo o que o afeta e violenta, tudo o que o alcança e comove, na sua estranha fecundidade, isto é, como matrizes de ideias, como expressões cujo sentido jamais acabaremos de desenvolver, porque nos abrem a um mundo do qual não temos a chave (Merleau-Ponty, 1974, p. 101)”. A consideração crítica da contingência, que é o signo da existência (não apenas da nossa), abre e fecha horizontes, mas é, ao mesmo tempo, solidária do sentido profundo que o real tem para nós. O real é objeto, efetivamente – sempre –, de uma descoberta e de uma construção, que nossos gestos não instauram, mas não deixam de inaugurar (porque tratando-se do real, além da constatação do fato da existência, está sempre em jogo a articulação do seu sentido). Contingência quer dizer: é, mas podia não ser (e, em última instância, deixará de ser). Mas contingência também quer dizer: será assim para nós (enquanto caminhemos juntos, pensemos juntos, lutemos). Num como noutro sentido, a contingência exige da linguagem e das imagens, da arte e do saber, um recomeço contínuo, ou uma sequência de recomeços, na medida em que o elusivo objeto ao qual se endereçam não está dado, não se encontra estabelecido e depende sempre e para sempre de novas “tentativas de expressão” (Merleau-Ponty, 1991, p. 71). Isso também quer dizer que o comum não está dado, mas tem que ser criado (num processo conforme a fins, mas sem fim determinado). Nem o poder nem o saber gostam muito da contingência; as suas linguagens tendem a barrar aquilo que sustenta (e mina) toda a ordem simbólica, pretendendo “saber de antemão como está constituída a realidade e quais são as formas adequadas da sua representação” (Saer, 2004, p. 11). A linguagem poética, pelo contrário, transgride por princípio as relações instituídas entre as palavras e as coisas, revela uma solidariedade profunda com o imponderável devir do que é sem representação, isto é, com tudo aquilo que constantemente coloca em causa a arquitetura da razão e constantemente faz florescer “a árvore do imaginário” (Saer, 2006, p. 196)“. Eduardo Pellejero, editor do dossiê.

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