A Patagônia em chamas: da metáfora ao material, do extremo ao normal | Dr. Pablo Daniel Ramos e Lic. Soledad Massó
Dr. Pablo Daniel Ramos[1]
Lic. Soledad Massó[2]
Desde os primórdios da humanidade, as comunidades se desenvolveram em torno do fogo, impulsionando processos que transformaram essas sociedades e suas relações com o não humano. Nesse sentido, o manejo do fogo tem sido determinante na evolução biológica e social da espécie, tanto por sua domesticação na cozinha quanto como ferramenta para moldar o território e desenvolver a agricultura. Mas sua importância vital abrange muito mais do que suas características físicas. De fato, a partir da experiência física primitiva — o calor que dá vida e alimenta, a chama que destrói tudo em seu caminho, a luz que ilumina e revela —, o ser humano construiu uma poderosa estrutura simbólica que a história não deixou de habitar. O fogo guia e condena, ilumina e devasta; isso é o que fez e continua fazendo com o devir da civilização. Ele ardeu nos rituais, inspirou imagens poéticas e encarnou forças cósmicas.
Quando falamos do fogo, falamos de um acontecimento anacrônico, no sentido deleuziano que permite conectar temporalidades heterogêneas (Deleuze, 2015). Ou seja, um fenômeno que rompe a linha do tempo e permite a coexistência de épocas diversas. Nesse sentido, o símbolo do fogo transporta os seres humanos não apenas para a memória da espécie, mas para a dimensão atemporal do mito, da metafísica e da religião. Sobre essa variedade de referências em que o fogo é uma relíquia atemporal, vamos investigar nesta seção pelo menos três sentidos metafóricos nos quais o elemento ígneo vai além de suas características físicas.
Para a tradição jônica ou milésia, cujo maior expoente foi Heráclito de Éfeso (cerca de 500 a.C.), o fogo representou uma referência fundamental para suas reflexões metafísicas. Nesse sentido, para o “obscuro” de Éfeso, o fogo é arché, isto é, princípio e origem deste e de todos os mundos, que é sempre o mesmo para todos. Fogo que sempre foi, que é agora e que será fogo sempre vivo, que aumenta e diminui na medida certa (Fragmento 30)[3]. O elemento ígneo torna-se, para Heráclito, o tema de referência de sua metafísica ao vinculá-lo também ao Logos ou razão. Desta forma, “com o logos, o universo é abrangido na alma do homem”. Logos que é ao mesmo tempo palavra, na medida em que é expressão do pensamento, argumento e razão que ordena o cosmos.
Substrato último, sim, mas um substrato que arde, tal é o fogo para o filósofo jônico. Do fogo tudo provém e a ele tudo retorna, e cuja existência misteriosa se dá no sutil equilíbrio dos opostos: “todas as coisas se transformam em fogo, e o fogo em todas as coisas, assim como as mercadorias em ouro e o ouro em mercadorias” (Fragmento 90).
No entanto, embora para Heráclito esse fogo que tudo transforma e que aumenta e diminui segundo medida represente uma ordem cósmica justa, hoje, no Capitaloceno (Moore, 2015), quando as medidas são controladas pelo mercado e pelo extrativismo, o fogo já não se ajusta a nenhuma medida, mas transborda, fica fora de controle, arrasa com a terra.
O mesmo fogo que ordena o cosmos, pela mesma lógica de seu ardor, disciplina também as almas. Heráclito já havia insinuado isso no Fragmento 64 de seu poema “o raio governa tudo”, onde parece que o fogo não apenas ordena, mas também julga. Mas será a tradição judaico-cristã que levará esse julgamento até o inferno.
(Leia o ensaio completo em PDF)
[1] Dr. En Estudios Sociales de América Latina (UNC). Posdoc en Ecología Política, Poéticas Ambientales y Luchas Sociales (UNC). Licenciado en Comunicación Social (UNC). Periodista, Podcaster, Director y Conductor en Radio (Radio Universidad, Radio Revés, Radio Curva) pablo.ramos@unc.edu.ar
[2] Lic. En Filosofía (UNC) y doctoranda en filosofía (UNC) solitudemasso@gmail.com
A Patagônia em chamas: da metáfora ao material, do extremo ao normal
RESUMO: Os megaincêndios patagônicos que devastam ano após ano o sul da Argentina e do Chile não constituem eventos excepcionais: são a expressão visível de uma ordem estrutural que destrói. Este ensaio propõe uma genealogia crítica do fogo como símbolo ocidental — desde a metafísica heraclitiana até a razão iluminista, passando pela condenação judaico-cristã — para mostrar como essa tradição metafórica possibilitou uma relação utilitarista e extrativista com os territórios. Situando os incêndios no contexto do Capitaloceno e do Piroceno, o trabalho desmonta a lógica tecnocrática que naturaliza o desastre e criminaliza aqueles que cuidam do território: as comunidades mapuches e outros povos originários do sul. Diante do conceito de Terricídio — crime sistemático contra a vida, os ecossistemas e os saberes ancestrais —, o ensaio propõe uma geocriatividade que recupere outras formas de se relacionar com o fogo: recíprocas, coletivas, não extrativistas. Ouvir as ontologias indígenas não é um gesto multicultural, mas uma transformação política concreta, capaz de questionar os direitos territoriais, as políticas ambientais e a própria linguagem com que nomeamos a crise.
PALAVRAS-CHAVE: Fogo. Piroceno. Terricídio. Patagônia. Mapuches
Arde la Patagonia: de la metáfora a lo material, de lo extremo a lo normal
RESUMEN: Los megaincendios patagónicos que arrasan año tras año el sur de Argentina y Chile no constituyen eventos excepcionales: son la expresión visible de un orden estructural que destruye. Este ensayo propone una genealogía crítica del fuego como símbolo occidental -desde la metafísica heraclítea hasta la razón ilustrada, pasando por la condena judeocristiana- para mostrar cómo esa tradición metafórica habilitó una relación utilitarista y extractivista con los territorios. Situando los incendios en el marco del Capitaloceno y el Piroceno, el trabajo desmonta la lógica tecnocrática que naturaliza el desastre y criminaliza a quienes cuidan el territorio: las comunidades mapuche y otros pueblos originarios del sur. Frente al concepto de Terricidio -crimen sistemático contra la vida, los ecosistemas y los saberes ancestrales- el ensayo propone una geocreatividad que recupere otras formas de relacionarse con el fuego: recíprocas, colectivas, no extractivistas. Escuchar las ontologías indígenas no es un gesto multicultural sino una transformación política concreta, capaz de interpelar los derechos territoriales, las políticas ambientales y el lenguaje mismo con el que nombramos la crisis.
PALABRAS CLAVE: Fuego. Piroceno. Terricidio. Patagonia. Mapuches.
RAMOS, Pablo Daniel; MASSÓ, Soledad. A Patagônia em chamas: da metáfora ao material, do extremo ao normal. ClimaCom – Eventos extremos – parte 1 [online], Campinas, ano 13, n. 30., jul. 2026. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/a-patagonia-em-chamas/
