A Guilda de Artes de Baguio: prática artística, articulação social e reconstrução comunitária em contexto de desastres ambientais nas Filipinas | Paola Mayer Fabres e Luciano Nascimento Figueiredo


Paola Mayer Fabres[1]

Luciano Nascimento Figueiredo[2]

 

Filipinas, arquipélago situado entre o Mar do Sul da China e o Oceano Pacífico, a condição insular e a posição estratégica nas rotas comerciais asiáticas fizeram convergir, ao longo de séculos, sucessivas disputas coloniais, fluxos comerciais e processos complexos de formação identitária. É nesse quadro que emerge, ao final da década de 1980, o chamado Baguio Arts Guild (BAG), coletivo fundado em 1986 na cidade de Baguio, cuja atuação se tornaria referencial na formulação de práticas artísticas colaborativas, territorializadas e de base comunitária, articuladas de modo indissociável às ecologias locais e às dinâmicas socioculturais da região. Em interlocução com repertórios indígenas da Cordilheira Central, no norte montanhoso da ilha de Luzon, e também com recursos, materialidades e saberes vernaculares da localidade, o grupo formulou uma abordagem interdisciplinar ao longo de décadas de atuação que deslocava a arte de um regime objetual para um campo expandido de relações entre práticas culturais, meio ambiente e mobilização comunitária.

Nesse sentido, a inserção de práticas culturais indígenas nos fazeres da arte contemporânea mobilizados pelo circuito local de Baguio — incluindo seus coletivos, exposições e galerias — antecipa debates que, sobretudo a partir do século XXI, ganhariam maior visibilidade em outras geografias, em torno da revisão dos cânones artísticos, da valorização de epistemologias situadas e da aproximação entre arte contemporânea, territorialidade e saberes tradicionais.

Como em muitos países marcados pela experiência colonial, a cena artística filipina das décadas de 1980 e 1990 desenvolveu-se em meio a tensões entre modernização, heranças coloniais e afirmações identitárias no período pós-ditadura. Após a queda do regime de Ferdinand Marcos, o país atravessou um processo de reorganização política e cultural no qual muitos artistas passaram a reivindicar formas de produção enraizadas em contextos locais, em contraste com paradigmas eurocêntricos da arte contemporânea. Foi nesse ambiente que o BAG se consolidou como uma plataforma de experimentação artística e reflexão crítica, orientada menos pela noção moderna de autonomia da arte do que por relações entre território, ecologia e memória cultural.

A cidade de Baguio ocupava, nesse processo, uma posição singular. Localizada na região do norte da ilha de Luzon, no território da Cordilheira, ela se insere em uma área historicamente habitada por diferentes povos indígenas, cujas formas de organização social, espiritualidade e relação com o ambiente permaneceram decisivas para a vida cultural local. Essa dimensão territorial é fundamental para compreender a emergência de uma produção artística conectada à ecologia da região, aos recursos naturais e às cosmologias indígenas, em contraste com centros urbanos filipinos mais fortemente marcados pela influência da colonialidade cultural. No caso do BAG, esse horizonte não se limitou à incorporação temática da cultura local, mas abriu um campo de negociação mais complexo entre práticas indígenas, circuitos expositivos e linguagens da arte contemporânea, no qual a valorização de saberes originários convive também com as ambiguidades próprias de sua tradução para instituições, galerias e categorias artísticas modernas.

 

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[1] Universidade Federal Fluminense (UFF): paolafabres@id.uff.br

[2] Universidade Federal do ABC (UFABC): luciano.f@ufabc.edu.br

A Guilda de Artes de Baguio: prática artística, articulação social e reconstrução comunitária em contexto de desastres ambientais nas Filipinas

 

RESUMO: O artigo analisa a experiência do Baguio Arts Guild (BAG), coletivo fundado em 1986 na cidade de Baguio, nas Filipinas, como caso relevante para a compreensão de práticas artísticas coletivas enraizadas no território, na valorização de repertórios indígenas e na articulação entre arte, meio ambiente e vida comunitária. A partir de uma análise histórico-crítica, bibliográfica e documental, o texto examina a trajetória do coletivo em diálogo com debates sobre práticas colaborativas e virada etnográfica. Partindo da noção de guilda como forma organizativa baseada em cooperação e transmissão compartilhada de saberes, argumenta-se que o BAG tensiona concepções modernas de autoria, obra e autonomia artística ao formular uma prática situada, interdisciplinar e implicada nas dinâmicas socioculturais da Cordilheira de Luzon. O artigo discute, em especial, a inflexão assumida por essa prática diante do terremoto de Luzon, em 1990, e da erupção do Monte Pinatubo, em 1991, quando a atuação do coletivo passou a envolver ações de apoio comunitário, elaboração simbólica do trauma e reconstrução de vínculos sociais e territoriais. Sustenta-se, assim, que a experiência do BAG oferece uma chave crítica para pensar como práticas artísticas enraizadas em formas coletivas de organização podem constituir infraestruturas de mobilização, cuidado e reconstrução comunitária em contextos de crise.

PALAVRAS-CHAVE: Coletivo de artistas. Prática colaborativa. Território. Arte e comunidade. Desastre ambiental.


The Baguio Arts Guild: Artistic Practice, Social Articulation, and Community Reconstruction in the Context of Environmental Disasters in the Philippines

 

ABSTRACT: This article examines the experience of the Baguio Arts Guild (BAG), a collective founded in 1986 in the city of Baguio, Philippines, as a relevant case for understanding collective artistic practices rooted in territory, in the valorization of Indigenous repertoires, and in the articulation between art, the environment, and community life. Based on a historical-critical, bibliographic, and documentary analysis, the text examines the collective’s trajectory in dialogue with debates on collaborative practices and the ethnographic turn. Drawing on the notion of the guild as an organizational form based on cooperation and the shared transmission of knowledge, the article argues that BAG challenges modern conceptions of authorship, artwork, and artistic autonomy by formulating a situated, interdisciplinary practice embedded in the sociocultural dynamics of the Cordillera of Luzon. The article discusses, in particular, the inflection this practice assumed in response to the 1990 Luzon earthquake and the 1991 eruption of Mount Pinatubo, when the collective’s activities came to involve community support initiatives, the symbolic working-through of trauma, and the reconstruction of social and territorial bonds. It thus argues that BAG’s experience offers a critical framework for considering how artistic practices rooted in collective forms of organization can constitute infrastructures of mobilization, care, and community reconstruction in contexts of crisis.

PALABRAS CLAVE: Artists collective. Collaborative practice. Territory. Art and community. Environmental disaster.


FABRES, Paola Mayer; FIGUEIREDO, Luciano Nascimento. A Guilda de Artes de Baguio: prática artística, articulação social e reconstrução comunitária em contexto de desastres ambientais nas Filipinas. ClimaCom – Eventos extremos – parte 1 [online], Campinas, ano 13, n. 30, jul. 2026. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/a-guilda-de-artes-de-baguio/