Matéria, extração e poder numa perspectiva negra radical: os antropocenos negros de Yusoff | Irene Adryane Marciano Silva


 

Irene Adryane Marciano Silva[1]

 

YUSSOF, Kathryn. Um bilhão de antropocenos negros ou nenhum. 1ª Ed, Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2025. 

 

Eu lembro de ficar no alto da rua da minha casa quando eu tinha treze anos, pensando: eu vou embora daqui e não vou voltar nunca mais, eu não vou mais morar aqui. Os livros da minha cabeça já tinham sido lidos, eu já estava esquecendo rostos e nomes, tudo o que estava acontecendo já tinha acontecido. A rua era um fantasma. Eu nunca mais voltei para aquela rua. A casa com a cerca de hibiscos e as borboletas sobrevoando as zínias. A partir daí, eu só imaginei.  

(Dionne Brand, 2022: 110)

Preâmbulo: uma cena de “In Pursuit of Bling” 

Por que vidas negras não importam? Esta é uma pergunta que Denise Ferreira da Silva faz ao refletir e discutir em suas obras, principalmente em A dívida impagável (2019), sobre como a violência racial é geralmente recebida e justificada. Escolho assim começar a discussão da obra da Yusoff, Um bilhão de antropocenos negros ou nenhum, através de seu pensamento em diálogo com uma ideia de “indiferença ética” que nos dá pistas sobre a sua análise do conceito de Antropoceno por uma Geologia Branca (Yusoff, 2025, p. 24). Havendo uma parceria evidente entre as autoras na análise de Yusoff, principalmente ao especular sobre uma estética negra para o fim do mundo, esta pergunta-não-feita se manifesta não só pela sua obviedade, mas também por nunca ser feita. Para Ferreira, o alcance e importância trazidos pelo Movimento Black Lives Matter demonstra como a resposta negativa presumida desta pergunta estrutura o pensamento moderno, sua ética e sua noção da matéria e extração.


No ano de 2014, Ferreira (2019, p. 120) visitou a exposição “In pursuit of bling”, da artista Nigeriana Otobong Nkanga. Seu trabalho utiliza resíduos minerais como a mica e o cobre para questionar e reimaginar as geografias coloniais e do capitalismo racial na Namíbia, tratando a mina como paradigma da extração racializada. “In pursuit of bling” nos apresenta uma instalação multimídia densa que investiga o ciclo dos recursos naturais desde a extração até o seu consumo como produtos brilhantes. Sua obra é construída através de diferentes elementos, como minerais sampleados, tapeçarias, vídeos, fotografias, textos e outros objetos para demonstrar a complexidade deste tipo de exploração socioambiental.


A sua obra denuncia a conexão entre exploração colonial, capitalismo extrativista e fascínio por produtos reluzentes. Assim, Nkanga reflete sobre como o prazer visual da superfície oculta os impactos ambientais e sociais nas regiões mineradas e de como estas são coconstituídas. Em uma das partes da exposição é possível assistir ao vídeo de Nkanga desfilando com uma coroa de malaquita em Berlim e interagindo com outros objetos brilhantes na crítica da sedução do “bling” [2]. Dessa forma, ela propõe analogias poderosas entre corpo e paisagem sugerindo que somos feitos do mesmo material que extraímos e que a Terra retém a memória nos processos que a moldam, o que Lewis Hood (2023, p. 46) trata através do conceito de repertório residual. Assim, as formas de resíduos e detritos para a superfície do trabalho de Nkanga é uma maneira de questionar e reimaginar a relação entre geopolítica e estética em locais de extração moldados pelo colonialismo e pelo capitalismo racial.


A leitura de Denise Ferreira sobre a exposição demonstra a intrínseca relação entre lugares de abundância e lugares de escassez (2019, p. 125), tornando-os visíveis. A sedução pelo brilho acaba por evidenciar lugares como o buraco na Green Hill, uma área rica em minerais em Tsumeb, Namíbia, conhecido por seus depósitos de cobre e seus impactos no meio ambiente e nas comunidades ao redor. Ao demonstrar a importância histórica e artística das obras de Nkanga por sua abordagem geoestética, esta cena em A dívida impagável revela a violência colonial da matéria para pensar a distinção entre “espaços de brilho” e “lugares de obscuridade”. ​A intenção da artista, portanto, seria iluminar o que é frequentemente mantido no escuro, confrontando os rastros deixados pela sede por luxo e convencendo-nos de que “cuidar é uma forma de resistência”. É através da investigação desta “indiferença ética” que trabalha a Yusoff. Enquanto pesquisadoras, filósofas e artistas, essas mulheres articulam uma escrita feminista e radical, relacionando o pensamento moderno e sua análise por uma geografia negra. A partir desta postura ética e filosófica que seguiremos as pistas da Yusoff sobre o conceito de Antropoceno.

 

(Leia a resenha completa em PDF).

 

Recebido em:  15/02/2026

Aceito em: 15/07/2026

 

[1] Cientista social e Mestra em Antropologia (UFPE). Atualmente doutoranda no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social na Unicamp. Bolsista de Doutorado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e integrante do Projeto Temático MÉTIS (Artes e Semânticas da Criação e da Memória), vinculado à USP/FAPESP.l. E-mail: ireneadryane12@gmail.com.

 

YUSOFF, Kathryn. Um bilhão de antropocenos negros ou nenhum. 1ª Ed, Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2025.