Dossiê Cosmopolíticas da Imagem

| ano 4, n. 10, 2017 |

| EDITORIAL | 

“Para a  revista ClimaCom e o grupo multiTÃO este dossiê implicou um esforço maior, pois nosso campo problemático desde sempre tem estado atravessado pelas potências expressivas da imagem, pelos planos de composição que estas abrem. Uma abertura onde é difícil dizer quando começa uma escrita por e com imagens e quando processos imagéticos se escrevem e inscrevem entre meios diversos. Ao mesmo tempo a imagem na sua equivocidade e polissemia se dá a perceber não só como materialidade visual e sonora, mas também como conceito, como potência abstrata de pensamento. É nesse sentido que, mais do que nunca, as seções de pesquisa e arte da revista estão tão próximas. Toda uma política da escrita também é convocada na hora de estarmos à altura de uma Cosmopolítica da Imagem. Filósofos, antropólogos, cineastas, compositores, arquitectos, todos inventando escritas entre imagens. Imagens que violentam nossos sentidos e faculdades. Imagens-canais, imagens-fluxos, imagens-portais que se fazem atratores do cosmos. Toda uma ecologia, uma imagem do pensamento que se diz muitas, que se abandona a si mesma, que se faz resto, que de tanto ser fendida se diz nascença, rebrilho de vida desmedida. A imagem, e portanto uma prática das e com as imagens, é sempre um chamado à fuga. Uma cosmopolítica é um ato fugitivo. Talvez o que há de mais miserável em nossa humanidade é nossa vontade de propriedade e, com esta, de poder. Achamos que somos donos e senhores. Achamos que somos donos do mundo e que com a imagem o podemos conter, o podemos medir. Propriedade como o outro nome da representação. E é por isso que resistimos a esta versão empobrecida do que pode a imagem, versão da comunicação e do capital  e insistimos em sua potência de sempre ser de menos. Sempre algo escapa, sempre algo foge, sempre o mundo nos escapa”.


 

Nossa contemporaneidade tem escolhido a imagem como seu regime de verdade, no entanto, num gesto intempestivo, preferimos acreditar que vivemos em uma era pós-verdade (Lapoujade). Uma era em que a imagem tem que se tornar eminentemente especulativa para poder resistir à barbárie que se avizinha (Stengers). Longe de ser correlato ou constatação do mundo, ela tem que se tornar possibilidade de mundos por vir. Ela tem que se tornar nossa aliada na criação de novos e impensados modos de estar junto. Como realidade em si mesma, temos que libertá-la de nossa triste vontade antropocêntrica e deixar que sua potência cosmopolítica aflore. Ela nada deve representar, e sim ser o portal que traz à presença, apreensões de mundos em constante formação. A noção de cosmopolítica, cara para Stengers e Latour, no encontro com a imagem, a nosso ver, apela a que as visualidades e sonoridades se empoderem de uma potência cosmogenética. Por força de hábito falamos de “imagem”, mas a imagem é o que sempre está por vir. Operamos visualidades, sonoridades e o encontro ou desencontro entre estas, para que a imagem não seja o já dado, mas o que se faz e desfaz, o que se dobre e desdobra incessantemente. A luta por não deixar que ela se estagne, para que ela sempre seja uma nova imagem do pensamento (Deleuze). Almejamos a que este dossiê reuna os mais diversos modos como uma cosmopolítica da imagem pode funcionar. Se todo gesto político é aquele onde uma relação de tensão de forças entre corpos está em jogo (Spinoza), esse jogo tem que acontecer incluído o cosmos interior. Stengers dirá que numa cosmopolítica se trata sempre de uma mise en égalité e não de uma mise en equivalence. Isto é, não há uma medida comum, mas um comum medir do diferir, do devir, pois não há um nós a priori. O nós, assim como a imagem do pensamento, é o que tem que ser experimentando infinitamente. Assim, o estar junto convoca um ato de criação constante, que intuímos, pode ser muito fértil no campo sensível das sonoridades e visualidades. O que podem as sonoridades e visualidades quando se tornam gesto anti-narcisista de nós mesmos (Viveiros de Castro) e pelo contrário são puro encontro com os mundos? Acreditamos que desse encontro podem emergir os mais impensados modos de existência (Souriau) e ecologias de práticas (Stengers) e de experiência (Manning, Massumi) que nos ajudem a resistir aos tempos de catástrofe onde a comunicação das mudanças climáticas costuma fazer da imagem sua refém.

Para a  revista ClimaCom e o grupo multiTÃO este dossiê implicou um esforço maior, pois nosso campo problemático desde sempre tem estado atravessado pelas potências expressivas da imagem, pelos planos de composição que estas abrem. Uma abertura onde é difícil dizer quando começa uma escrita por e com imagens e quando processos imagéticos se escrevem e inscrevem entre meios diversos. Ao mesmo tempo a imagem na sua equivocidade e polissemia se dá a perceber não só como materialidade visual e sonora, mas também como conceito, como potência abstrata de pensamento. É nesse sentido que, mais do que nunca, as seções de pesquisa e arte da revista estão tão próximas. Toda uma política da escrita também é convocada na hora de estarmos à altura de uma Cosmopolítica da Imagem. Filósofos, antropólogos, cineastas, compositores, arquitectos, todos inventando escritas entre imagens. Imagens que violentam nossos sentidos e faculdades. Imagens-canais, imagens-fluxos, imagens-portais que se fazem atratores do cosmos. Toda uma ecologia, uma imagem do pensamento que se diz muitas, que se abandona a si mesma, que se faz resto, que de tanto ser fendida se diz nascença, rebrilho de vida desmedida.  

A imagem, e portanto uma prática das e com as imagens, é sempre um chamado à fuga. Uma cosmopolítica é um ato fugitivo. Talvez o que há de mais miserável em nossa humanidade é nossa vontade de propriedade e, com esta, de poder. Achamos que somos donos e senhores. Achamos que somos donos do mundo e que com a imagem o podemos conter, o podemos medir. Propriedade como o outro nome da representação. E é por isso que resistimos a esta versão empobrecida do que pode a imagem, versão da comunicação e do capital  e insistimos em sua potência de sempre ser de menos. Sempre algo escapa, sempre algo foge, sempre o mundo nos escapa. Uma cosmopolítica é muito menos um gesto de incluir por conter, e sim um gesto de incluir por deixar escapar e fugir sem fim. Um incluir por derivação, por vazão, um incluir que potencializa as errâncias. A imagem é pura itinerância, passagem, andarilho de luz e som, andarilho do pensamento.

Seu andarilhar, se diz espectralidade, se diz impropriedade. A imagem não dá nem deve dar conta, ela nada contém, ela comparece, ela corresponde, ela escuta os ritmos do mundo e os faz escoar como pura energia de-formante em intensificação. A cada texto, a cada produção artística, a cada gesto deste dossiê procuramos macerar e martelar com força esta ideia de imagem, esta intenção cosmopolítica. Se só podemos estar num entre-viver com o mundo, com as imagem, entre-estar com elas é ser pura fenda, fissura e rachadura. Um sem clausura, onde cada vez menos reconhecemos, onde somos pura perda, pura queda, pura cachoeira de renasças.

A imagem escuta,

Violenta e fratura.

A imagem rouba e nada acumula.

O cosmos se impõe,

O cosmos tudo o estoura.

O mundo exige continuar, o humano tem que se desmoronar, tem que assumir que essa é sua única política possível, a de devir mais uma imagem entre as imagens, mais um espectro entre as sombras, mais um silencio entre os sussurros do cosmos.

Cosmopolítica da imagem como elogio da fuga e da impropriedade, como canto da precariedade.

Sebastian Wiedemann & Susana Dias

Editores

 


 

SUMÁRIO – Dossiê Cosmopolíticas da Imagem

| ano 4, n. 10, 2017 |

SEÇÃO PESQUISA

 Artigos

“La formula cósmica del arte, Deleuze”

Pierre Montebello

Traducción de Carolina Villada Castro

“Sonhando com dragões: Sobre a imaginação da vida real”

Tim Ingold

Tradução de Sebastian Wiedemann

“El inicio de la iniciación y el movimiento de las partes”

Evelyn Schuler y Alfredo Zea

“Reverberaciones del muerto.Variaciones poéticas”

Carolina Villada Castro

“Entre imagens, corpos e terra: transformações do MAHKU –Movimento dos Artistas Huni Kuin”  

Amilton Pelegrino de Mattos

“Cartografía social: Imagen, espacios, memoria e identidad Pa`Ipai”

Julieta López Zamora y Lilian Paola Ovalle Marroquín

 

ENSAIOS

“Tratado do ter a ver: notas a partir de motivos visuais waiwai”

Evelyn Schuler y Alfredo Zea

“Non-Human Rights”

Paulo Tavares

“The Sea is History: Plantation Capitalism”

Louis Henderson

“Des-objetos” de Bené Fonteles – entrevista”

Alik Wunder e Alda Romaguera

“Eco cantos da terra, um meio minúsculo”

Rodrigo Reis

“Aprendizagens de ver diante de um mundo todo vivo…”

Tatiana Plens de Oliveira

“Yoga como cosmopolítica na criação de imagens-potência”

Pedro Azalim e Waldir Ramos Neto

 

RESENHA

“INTO THE INFERNO by Werner Herzog”

Renato Salgado

 

SEÇÃO ARTE

Artes

Tim Ingold | KFI – Knowing From the Inside project

Erin Manning  | La couleur du temps

Marcelo Moscheta | Displacing Territories

Claudia Andujar | Yanomami

Alda Maria Abreu |  “Visões da Terra” e “Androgyne – Sagração do Fogo”

João Miguel Lima | Despojos urbanos

Silvia Noronha | The Future of Stones

Manuel Delanda | Manuel Delanda Films

 

NOCTILUCASCREEN

NoctilucaScreen Project: Cosmopolíticas da imagem ou o fogo todo vivo entre as águas, o vento e a terra

Curadoria de Sebastian Wiedemann

As forças do mar

Filmes de Jean Painlevé, Alfred Ehrhardt e Andres Garcia Franco

As atmosferas que ventam

Filmes de Mikel Guillen & Scott Barley, Wolfgang Lehmann e Pierre Villemin

Os movimentos da terra

Filmes de Tiziana Panizza, Francisco Huichaqueo, Colectivo Los Ingravidos e o Karrabing Film Collective

 

SEÇÃO LABORATÓRIO-ATELIÊ

Africanidades entre pinturas e sons

Marcus Pereira Novaes e Jairo Perin Silveira

A Serpente de Yurupari

Dioscórides Perez e Coletivo Orssarara

Hokule’a: mar de estrelas

Tainá Mascarenhas de Luccas e Ricarda Canozo

Notas de um encontro: “Aliar-se às nuvens para que o céu não caia”

Grupo multiTÃO e Coletivo Orssarara

LOBA K’AN: passos para uma dança

Alda Romaguera e Raquel Gouvêa

mani(n)festações

Fernanda Pestana, Henrique Dutra, Natasha Macedo, Michele Gonçalves, Oscar Marin, Patrícia Lora, Renato Oliveira, e Susana Dias

De Cosmopoliticas de la Imagen a Pueblos Oir

Grupo multiTÃO e Coletivo Orssarara

A Natureza Humana de Robert Todd -Mostra de Curtas NoctilucaScreen

Sebastian Wiedemann

 

SEÇÃO JORNALISMO

Coluna Assinada

“(a)mares e ri(s)os infinitos”: la catástrofe de estar juntos delante de la finitude

Susana Dias & Sebastian Wiedemann 

 

CHAMADAS ABERTAS/ CURRENT CALL

| ano 5, n. 11, abr. 2018 | Dossiê “Ecologias radicais” – número especial com artigos e produções artísticas dos participantes do VII Seminário Conexões: Deleuze e Cosmopolíticas e Ecologias Radicais e Nova Terra e… Editores: Grupo multiTÃO – Renato Oliveira, Vivian Marina, Tatiana Plens, Glauco Silva, Susana Dias, Sebastian Wiedemann (Labjor-Unicamp)

| ano 5, n. 12, ago. 2018 |Dossiê “Diálogos do Antropoceno/ “The Anthropocene Dialogues” – número proposto pelos editores Marko Monteiro (DPCT/UNICAMP), Jean Miguel (UNIFESP) e Altair Oliveira Filho (IFSP)

 

DOSSIÊS ANTERIORES

Já disponível o PDF do Dossiê | Percepção | ano 5, n. 9, 2017 |