Dossiê Ecologias Radicais

| ano 5, n. 11, 2018 |

| EDITORIAL | 

A VII edição do Seminário Conexões Deleuze, da qual este dossiê é um desdobramento, esteve marcada por uma propensão ao risco, à experimentação e à aventura. Uma procura por tempos extra-ordinários que nos violentassem e nos abrissem a radicalidades onde pudéssemos mergulhar no processo infindável que é o mundo como pura relacionalidade diferencial. Isto é, um apelo à composição de Novas Terras e impensadas Cosmopolíticas. Um chamado primordial e impessoal pela vida, por fazer dela não uma codificação representacional entre sujeitos e objetos que afirmem uma bifurcação da natureza como diria Whitehead, mas sim o fluxo que passa e vaza pelos mais diversos meios na imanência de uma experiência pura, onde nossa precária posição – humana – nunca está fora e, pelo contrário, vacilante, varia, se esgota, se desmorona, se transforma, se faz matéria aberta de, e para o mundo, se faz material de mundos porvir. Este foi o intuito que tivemos ao propor as Imediações Aberrantes, todo um delírio movente de razões trashumantes, um experimento em estar junto, em abrir os corpos para o cosmos, em nos tornarmos guardiões do acontecimento, em fazer do qualquer-um, um operador anônimo que intensifica e abre feixes de vida. O mundo como uma cosmogênese constante, como uma ecologia radical onde o humano não é mais do que um catalisador de fluxos energéticos impessoais. Ecologias que se fazem radicais pois saturam todos os poros, pois fazem dos corpos puros estados de possessão, puros canais para escritas de mundo.


 

Estas escritas povoaram e saturaram cada poro da experiência nas Imediações Aberrantes, mas a escrita nunca acaba, é infinita, é nosso modo de não perder o infinito. Motivo suficiente para fazer deste dossiê, mais um cenário por onde estas escritas podem continuar, por onde podem reencarnar mundos. Já não entre linhas, toques, danças, caminhadas, falas e tantos outros modos que se manifestaram durante o evento, e sim sobre o papel. Mais uma dobra na ecologia que o Seminário Conexões e as Imediações Aberrantes começaram a abrir. Uma dobra que transfigura as ecologias em rebrilhos que escoam e pulsam entre as palavras. Um chamado, grito silencioso do mundo, por insistir nos processos de heterogênese que também acham um chão fértil no papel e nas palavras. Complexos de sentidos proliferantes que se emaranham e se radicalizam mutuamente no gesto de editar e compor este dossiê. Ecologias radicais, toda uma compostagem entre palavras que clamam por voltar húmus à terra. Essa terra, sempre nova, que grita “brote”, que grita “vida”.

Os artigos, ensaios, produções artísticas e do lab-ateliê aqui reunidos proliferam-se Imediações Aberrantes por outros meios, experimentando o que pode a comunicação e a educação no seu encontro com intercessores vindos dos mais inusitados reinos. Multirelacionalidades se afetando, modulando a matéria, criando ambiências de apreensões mútuas de potências. Textos, obras, peças com os quais apre(e)ndemos alianças para que o mundo possa continuar.    

Os artigos aqui reunidos nutrem esta ecologia nos convidando a escutas outras, escutas de alianças demoníacas que pervertem os conjuntos já dados. Escutas ecosóficas de dimensões moleculares, onde entre perversões o diabo pode ser o interlocutor de minoridades – indígenas. Um devir-nativo no diablo por entre gritos do Metal. Ecologias aliadas a práticas musicais onde se faz nítido que o mundo já é meio – de comunicação – em si mesmo e, como tal, não é algo dado mas puro potencial para o sentir. Como alguns dos textos nos mostram, é só nos deixarmos submergir numa escuta total do mundo para que lembremos que sua realidade mais profunda é o acontecimento. A cada texto vamos sentindo todo um modular intensivo e diferencial do mundo, toda uma potência de sentir que excede o humano. Uma potência de sentir que possui os corpos, que vazantes fissuram o asfalto e tudo aquilo que quer endurecer as condições de vida. Corpos que performáticos abrem rupturas transdutivas na vontade de novas continuidades nos mais diversos espaços, no arco que, por exemplo, se estende entre a cidade e uma nova terra afetiva. A cada dobra proposta pelas escritas, se abrem espaços que só podem ser fruto de uma experimentação corporal, da instauração de novas sensibilidades, de novos modos de afetar e deixar-se afetar. Nos artigos aqui reunidos também se abre uma escuta, um proliferar de relações entre arte e ciência, de cujo hibridismo uma flora amazônica impensada pode germinar, assim como experimentações de encontros de co-criação com materiais vindos da arte podem emergir. Toda uma antropofagia devoradora de pontos de vista morais e humanos demais que nos lembram que a nossa vida nunca, jamais, é maior que a vida, essa impessoal, essa que exige as pequenas mortes afirmativas do homem, essa que nos arrasta a ritmos outros do pensamento no sensível.      

Por sua vez os ensaios aqui reunidos de modo singular se abismam na procura daquilo que Deleuze chamará estilo. Ensaios como gestos de radical e explicita experimentação. Um ensaiar vir a ser outra coisa que não se deixa contornar tão facilmente. Nestas escritas ganham corpo problemáticas que se escoam por entre artes e ambientes, onde se faz sentir que nossa existência é sempre uma co-existência intensiva e fabulatória de ambiências desentradas sem forma nem fundo. Todo um não julgar que faz proliferar saberes diversos entre domínios díspares. Toda uma imbricação entre política, estética e ética como arguição de direito da vida. Ensaios que na sua vontade de suspender julgamentos se fazem epistolares abrindo potências impensadas. Artes e ambientes se escoam, mas também afetividades radicais, como possibilidades de educação e encontro com as ciências, são engendradas. Falamos de ensaios que abrem novas tonalidades para o pensamento, que avançam em gestos menores, sempre micropolíticos que, por sua vez, fazem da escrita uma escrita-massa-argila-papel-machê lobiferante de ecologias outras. Ensaios que de um modo ou outro fazem ressoar uma geofilosofia e uma ecosofia. Ensaios que de modo imperante nos dizem que nunca é uma questão de ser ou não ser, mas sim de ser e não ser, isto é de nos aliarmos com o entre, de nos afirmarmos como movimento impessoal de forças topológicas que sempre são resto, excesso, descarte, transbordamento que abre a possibilidade de, quem sabe, habitar heterotopias.       

Esta potência do entre instaura nas produções artísticas que neste dossiê reunimos, modos sutis de resistir. O poético e fotográfico se emaranham e nos convidam a sentir que o mundo não é uma questão de beleza mas de re-existência que exige que corpos humanos e não-humanos sejam desembestados. Só assim uma nova vida pode ser parida e animismos esquecidos podem ser ativados. Produções artísticas que ganham expressão como gestos de insurreição de Gaia e onde vidências para além de lógicas antropocêntricas são abertas em direção a cosmovisões inauditas. Um abrir a janela, um pular  pela janela que nos joga em rios de percepções caudalosas de outros mundos.

Finalmente o lab-ateliê deste dossiê se consagra como arquivo e desarquivo, como duplo diferenciante dos processos que engravidaram as Imediações Aberrantes, todo um ressoar material, manual, perfomático, muito menos do que aconteceu e muito mais das forças ali desabrochadas que podem continuar fazendo acontecer algo. O quê? Não sabemos. Tão só esperamos que os materiais aqui reunidos sejam espécies de testemunhas de futuro, reservas de sinapses colectivas impessoais e inorgânicas de qualquer-uns, germinalidades de pensamentos em ato que insistem em que a possibilidade de ecologias radicais sempre passa pelo cultivo de ecologias de práticas as mais diversas.  

Não julgar, experimentar, fazer existir, sem esquecer que sempre se experimenta e existe com outros. Fazer então co-existir, quem sabe, esta seja a fórmula cosmopolítica que este dossiê quer compartilhar com os leitores.

Boa leitura e esperamos que ao vocês fazerem corpo com este dossiê as ecologias aqui semeadas possam fazer pegar de novo vidas e mundo por cantos que nem podemos imaginar.     

 

Grupo multiTÃO

Susana Oliveira Dias, Sebastian Wiedemann, Renato Salgado de Melo Oliveira,

Tatiana Plens Oliveira e Vivian Marina Redi Pontin

Editores


 

SUMÁRIO – Dossiê Ecologias Radicais

| ano 5, n. 11, 2018 |

 

 

 

SEÇÃO PESQUISA

Cartografias em tempos de morte: do microambiente tumoral aos ecossistemas intensivos da filosofia de Alfred North Whitehead

Alessandro Gonçalves Campolina

Estética Sonora e gesto micropolítico

Ana Ramos

As ecologias políticas e infernais do Red and Anarchist Black Metal

Rodrigo Barchi

Manguezais de carnes e moscas para Adriana Varejão

Antonio Almeida da Silva

Uma flora amazônica: conexões eco(flor)arte nas aquarelas de Margaret Mee

Helane Súzia Silva dos Santos

ASFALTO em intervenções urbanas: imagens em performance e o fabular de um povo por vir
Juliana Soares Bom-Tempo

O corpo na produção de novas terras afetivas: por uma política e criação de novas ambiências

Fernando Yonezawa e Angela Vieira

 

Ensaios

 

Performances e cidade: por uma “temporalidade do precário” em processos artísticos “solidatários

Raphael Gonçalves de Faria e Juliana Soares Bom-Tempo

Devir-descarte: habitar transbordamentos

Tamiris Vaz

Ambient-ARTE

Anna Carolina Barcelos Vasconcelos e Priscila Correia Fernandes

Da ecologia à afetividade radical: por uma educação ambiental orientada aos afetos

Luiz Gabriel Catoira de Vasconcelos

Geofilosofia, anarquismo e o povo novo: uma sugestão

Alexsandro Sgobin

“Ser e não ser. Eis a questão?”: nas dobras de línguas traídas, um pensar educação matemática

Diego de Matos Gondim e Danilo Olímpio Gomes

De lobos e dragões: tributo a Gilles Deleuze e Félix Guattari

Marcelo Ribeiro dos Santos

Carta de um biólogo-artista para um artista-biólogo qualquer

Carlos Augusto Silva e Silva e Dhemerson Warly Santos Costa

 

SEÇÃO ARTE

Artes

Ativando animismos

Alda Maria Abreu

Pela janela, um rio

Davi de Codes

Desconvite à beleza

Steferson Zanoni Roseiro

O corpo desembestado de adivinhaadiva

Matheus Silva

SEÇÃO LABORATÓRIO-ATELIÊ

 

Pensamento rasteiro

Eduardo Pellejero e Vivian Pontin

Rizoma: corpos-textos-sentido

Rafaele Paiva e Silvio Gallo

Anatomias de pesquisas, linhas de crimes

Gabriel de Garcia e Renato Oliveira

A vida por um fio

Susana Dias, Tatiana Oliveira, Maria Rita Zamproni e Bordadeiras do Grupo Entrefios e Memórias, coordenado por Marli Wunder e Neusa Aguiar

Vulnerabilidade corajosa – como fazer da fragilidade uma força de vida

Carolina Cantarino, Carlos Martins, Sara Melo e Sandra Murriello

Imediations of an aberrant language

Érica Speglich, Marko Monteiro, Bruno Moraes e Michele Gonçalves

Conexões entre manguezais e (des)territórios (des)conhecidos

Davina Marques, Alda Romaguera e Carlos Silva

Escritas labirínticas

Leandro Guimarães, Gustavo Torrezan e Glauco Silva

Nova terra: construção comum em terreno movediço

Wenceslao Oliveira Jr., Isaltina Gomes, Ana Carolina Costa e Lavínia Rangel

Camadas (im)pulso

Marcus Novaes, Maria dos Remédios e Jairo Perin Silveira

Imediações aberrantes

Susana Dias e Sebastian Wiedemann (coordenação geral)

Photocosmogenesis

Susana Dias (concepção e curadoria da exposição) e Tatiana Oliveira (fotos da exposição)

Vídeo | Immediation Unlimited + Toward a Politics of Immediation

Brian Massumi e Erin Manning

Vídeo | Surface Textures: the Ground and the Page

Tim Ingold

Vídeo | Mesa redonda | Da guerra dos mundos a uma nova ecologia dos afetos entre-mundos 

Deborah Danowski, Ailton Krenak e Almires Martins

Vídeo | Mesa redonda | A catástrofe de pensar. Do des-fundar de afetos inumanos e da vidência de uma nova terra

Marco Antonio Valentim e Luiz B. L. Orlandi

Vídeo | Ecologias das práticas artísticas: emaranhando naturezas e ciências

Marcelo Moscheta

Vídeo | ‘Weather is Water with a (Financial) Attitude’

Erik Bordeleau

Vídeo | Troca e participação na era do fim

Stelio Marras

 

 

LIVRO

Des-loucar-se (Editora BCCL;Unicamp, 2018)

Juliana Cristina Pereira, David de Codes, Eduardo Silveira, Elisa Helena Tonon, Gizelle Kaminski Corso, Leandro Belinaso Guimarães (Orgs.)

 

 

SATÉLITE

VII Seminário Conexões: Deleuze e Cosmopolíticas e Ecologias Radicais e Nova Terra e…

 

 

 

CHAMADA ABERTA

Dossiê “Interdisciplinaridade”

Editora: Bianca Vienni Baptista (Universidad de la República Uruguay/ Leuphana University of Lüneburg)

 

CHAMADA ENCERRADA

Dossiê “Diálogos do Antropoceno”

Editores: Marko Monteiro (DPCT/UNICAMP); Jean Miguel (UNIFESP); Altair Oliveira Filho (IFSP)

 

 

DOSSIÊS ANTERIORES

Já disponível o PDF do Dossiê ANO 4, N 10 | “Cosmopolíticas da imagem” |

Editores: Sebastian Wiedemann e Susana Dias (Universidade Estadual de Campinas) |