Dossiê Diálogos do Antropoceno

| ano 5, n. 12, 2018 |

| EDITORIAL | 

“As contribuições dessa edição estruturam diálogos entre várias abordagens e vertentes do conhecimento, as quais se conectam ao conceito do Antropoceno. Pensamos que isso é uma circunstância alvissareira diante dos desafios colocados pelos fenômenos climáticos e da premência das questões de degradação ambiental no mundo contemporâneo, onde tais diálogos e práticas interdisciplinares são cada vez mais demandados pelos governos, institutos de pesquisa, agências de fomento e pela sociedade. Assim, esta edição contribui com o debate e a criação de um diálogo plural acerca do papel da comunicação e divulgação científica no que concerne a problemática ambiental, expondo a diversidade de análises que compõem, articulando as diversas áreas das ciências (naturais, exatas, humanas), artes, filosofia e conhecimentos populares”.


 

A trajetória evolutiva do planeta Terra, segundo o atual conhecimento científico, conta com pelo menos 4,5 bilhões de anos. Ao longo de sucessivas Eras Geológicas, o planeta passou por transformações significativas em sua biosfera. Discussões recentes, iniciadas pelas ciências do sistema terrestre, tratam da possibilidade do surgimento de uma nova era geológica marcada pela crise ambiental global desencadeada pelas atividades humanas. Surgiu com isso o termo “Antropoceno”, proposto por Paul Crutzen e Eugene Stoermer (Crutzen e Stoermer, 2000) para o que eles entendem ser essa nova época, a qual teria se iniciado com a Revolução Industrial e se intensificado após a Segunda Guerra Mundial. Este processo desencadeou o crescimento populacional, a urbanização, a exploração capitalista dos recursos naturais e o desenvolvimento de tecnologias e artefatos capazes de alterar características naturais de maneira decisiva (combustíveis fósseis, bombas nucleares, intensivos agrícolas e etc.).

A esse artigo seguiram-se outros vários, que buscam definir essa nova era e definir quando teria sido o seu início. Alguns propuseram, por exemplo, que o marcador inicial seriam as grandes navegações e o contato europeu com o continente americano (Lewis e Maslin, 2015), e a discussão vem se intensificando com o passar dos anos. Há cada vez mais geólogos e geógrafos interessados no tema e cresce ainda a discussão nas outras ciências, sendo o termo cada vez mais debatido no contexto da compreensão das mudanças globais (“sociais” e “naturais”). Economistas (Brown e Timmerman, 2015), antropólogos (Latour, 2014; Moore, 2016), filósofos (Danowski e Viveiros De Castro, 2014; Haraway, 2015) e pesquisadores atuando nas pesquisas ambientais (Palsson et al., 2013; Viola e Basso, 2016) rapidamente mobilizaram o termo para pensar, para além de fenômenos atmosféricos ou registros estratigráficos (Zalasiewicz et al., 2017), profundas mudanças políticas implicadas no contexto atual.

Este fenômeno inédito na história humana e na história do planeta suscita, portanto, debates em diversas áreas da ciência e na filosofia, os quais discutem como as relações humanas com o ambiente e as demais espécies podem ser repensadas criticamente. O presente dossiê “Diálogos do Antropoceno” busca, assim, contribuir, ainda que timidamente, com esse debate, trazendo à luz artigos, ensaios e intervenções artísticas que se propõem a dialogar com o tema do Antropoceno. O conceito de Antropoceno traz novos desafios ao pensamento, servindo de mote para promover debates que vão além das disciplinas científicas tradicionais e suas epistemologias. Permite também que formas inovadoras de linguagem e entendimento possam ser imaginadas, a partir de um novo entendimento da interação das ciências com o público. Ampliar a discussão e buscar refletir melhor sobre esse fenômeno e suas múltiplas implicações faz-se necessário para que ações possam ser tomadas a respeito de desafios cada vez mais urgentes, a saber: como preservar e recuperar ecossistemas; como lidar com os (cada vez mais frequentes) desastres naturais; como estimular o uso de energias renováveis; como promover ações de adaptação às mudanças climáticas; como produzir alimentos e insumos de maneira sustentável, dentre tantas outras.

Para enfrentar tais desafios, será preciso cada vez mais discutir de maneira (inter) e transdisciplinar conceitos e termos frequentemente aplicados de maneira gerencial como: “governança”, “recursos”, “serviços ambientais”, “sustentabilidade”, etc.. Também se impõe ao pensamento questionar o significado de dicotomias naturalizadas tais como: “local versus global”, “natureza/cultura” e a própria noção de “humanidade”, bastante vaga e escassa de eficácia política na presente situação de crise planetária.

As contribuições dessa edição estruturam diálogos entre várias abordagens e vertentes do conhecimento, as quais se conectam ao conceito do Antropoceno. Pensamos que isso é uma circunstância alvissareira diante dos desafios colocados pelos fenômenos climáticos e da premência das questões de degradação ambiental no mundo contemporâneo, onde tais diálogos e práticas interdisciplinares são cada vez mais demandados pelos governos, institutos de pesquisa, agências de fomento e por coletivos os mais diversos. Assim, esta edição contribui com o debate e a criação de um diálogo plural acerca do papel da comunicação e divulgação científica no que concerne a problemática ambiental, expondo a diversidade de análises que compõem, articulando as diversas áreas das ciências (naturais, exatas, humanas), artes, filosofia e conhecimentos populares.

O desafio de superar dicotomias (como social/natural, local/global) que nos impedem de imaginar e conceituar o que está em jogo nas disputas em torno do Antropoceno é maior do que parece à primeira vista, desafiando nossa capacidade de estabelecer diálogos verdadeiramente frutíferos entre ciências do “social” e da “natureza” que permitam abarcar e refletir sobre fenômenos que extravasam tais separações (Latour, 1994). O conceito de Antropoceno serve aqui, portanto, de mote para esse processo de pesquisa e experimentação, por ser ele próprio uma expressão da insuficiência teórica das divisões tradicionais entre mundo social e natural, entre ação humana e forças da natureza (Viveiros De Castro, 1996; Descola, 2006).

O dossiê traz a contribuição de pesquisadores e artistas de diversas áreas do saber e os seus trabalhos estão dispostos da seguinte maneira: na seção de Pesquisa, três artigos e três ensaios; cinco artigos na seção Coluna Assinada; e, na seção Artes, cinco produções de artistas e treze contribuições de coletivos no Laboratório-Ateliê. Com isso, esta edição percorre a questão energética, aborda a temática das mudanças climáticas e reafirma elementos que caracterizam as tragédias ambientais por meio de um caso concreto. Realiza ainda um resgate histórico do conceito de Antropoceno e dedica atenção especial à relação entre ciências naturais e humanas, artes e filosofias no momento contemporâneo.

O artigo “Futuros energéticos no Antropoceno: trazendo as dimensões sociais para o debate” discute a questão da energia em termos de futuros energéticos e justiça energética, trazendo à tona os aspectos sociais dessa problemática, em geral negligenciados. Ao analisar os sistemas energéticos enquanto “sociotécnicos” revela aspectos ainda silenciados das discussões sobre planejamento econômico ou desenvolvimento da matriz energética. Com isso, trabalha subtemas que se articulam fundamentalmente com o debate do Antropoceno, aproveitando-se da janela de oportunidade que essa nova perspectiva lhe proporciona para efetivar tal análise.

O trabalho “Mudanças climáticas e governança ambiental: desafio do Antropoceno” traz argumentos para uma discussão sobre a urgência de governança nas relações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. A criação de sistemas de governança deve ser pautada em abordagens multi-atores e multi-níveis, perspectivas conectadas e complementares para enfrentar as mudanças climáticas no contexto do Antropoceno.

O texto “Carvão para seus olhos tocarem: processo de arte com narrativas de deslocamento e fluxo de carvão abaixo da linha equatorial” articula de maneira interessante aspectos da industrialização e a pressão que esta atividade exerce sobre os recursos naturais e sobre os indivíduos, por meio da pesquisa em artes. A partir de depoimentos marcantes, o texto evoca um cenário de degradação, caracterizando o que podemos chamar de Antropoceno a partir da tragédia vivida no cotidiano: na poeira respirada e na morte prematura em paisagens ao mesmo tempo deslumbrantes e degradadas. A catástrofe que acompanha o imaginário de Antropoceno vai muito além da hecatombe climática; mas permeia os meandros dos lugares devastados pela indústria e pela poluição, pelos microporos entupidos de poeira tóxica e pelas pequenas tragédias pessoais que acompanham a “aceleração” econômica tão buscada por países como o Brasil.

O ensaio “Uma breve história do tempo geológico: a questão do Antropoceno” faz um histórico do termo Antropoceno, ligando essa categoria com questões políticas. O resgate epistemológico feito nessa contribuição suscita questionamentos ainda não resolvidos pelas ciências, tais como: poder-se-ia pensar a humanidade enquanto um agente geológico?; deveria a humanidade como um todo ou alguns segmentos serem responsabilizados por suas ações no que se refere às mudanças globais? São perguntas que evocam a própria possibilidade de pensar algo como um “Antropoceno”, enquanto categoria cientificamente robusta, ao mesmo tempo politicamente engajada.

O texto “As agendas de pesquisas ambientais no Antropoceno: as contribuições vitais das pesquisas sócio-políticas” aborda a ausência das ciências humanas ou do fator humano nas agendas de pesquisa sobre mudanças climáticas. Dessa maneira, contribui com o debate sobre a importância da integração dos saberes e dos esforços de pesquisas entre as ciências humanas e as ciências naturais, elemento central na reconstrução da relação homem e natureza no contexto do Antropoceno. Ademais, contribui com a discussão de superação da dicotomia tão presente na academia e nos “escritórios” de formulação de políticas públicas para C&T.

Na mesma direção, o ensaio “Anthropocene in a hermit-crab shell” realiza uma leitura das contribuições de Donna Haraway, Paul Crutzen e Bruno Latour para pensar o momento atual, marcado por mudanças epistemológicas e existenciais na relação entre ciências. O ensaio faz uma crítica ao Antropoceno como forma de romper barreiras entre ciências humanas e naturais, indicando que há de fato uma hierarquia nas relações entre os saberes que não se altera com a emergência dessa discussão. O ensaio nos faz pensar que a empolgação corrente com os potenciais desse debate podem e devem ser tomados de maneira crítica e reflexiva: ao mesmo tempo em que o termo Antropoceno ajuda a abrir novos questionamentos, ele pode ajudar também a silenciar outros.

Por fim a performance “Mar – Uma dança com o vento” propõe estabelecer diálogos entre o espaço, pessoas, o vento e materiais a partir de uma ocupação do espaço interativa. Evocando tanto a natureza (mar, vento) quanto a política e a arte (o manto, o indígena, o contato colonial), a performance faz refletir sobre interações inusitadas e formas de diálogo/interface. O material prateado, solto no vento ou nas interações com os intérpretes-criadores realizadas em espaços diversos, evoca tanto uma artificialidade gritante em interação com o clima, quanto a fragilidade de diálogos e conexões, ou mesmo a fragilidade do nosso planeta frente a perturbações cada vez mais contundentes. Dialogar com o mar em Santos a partir da dança, cidade já afetada por alterações climáticas, coloca em questão e em reflexão formas de adensar o pensamento sobre o Antropoceno a partir de outras narrativas e outras formas de pensamento para além da ciência, da política ou da governança.

Seguindo a proposta da ClimaCom de intensificar e promover encontros entre heterogêneos acolhemos a proposta de curadoria da editora da revista, Susana Dias, para a seção de Artes deste dossiê, que convidou as artistas Lilian Maus, Edith Derdyk, Juliana Hoffmann e Silvina Babich e trouxe produções de cinco coletivos diferentes no Laboratório-Ateliê. Também agregou na seção Coluna Assinada o artigo “Por uma trans inter nacional intensiva”, do filósofo Luiz Orlandi, e quatro artigos do historiador Luiz Marques, que exploram diversos aspectos do tema “Decrescimento” ( I, II, III, IV). O modo como Susana pensa e articula tais trabalhos à proposta deste dossiê chega na apresentação “Cenários sensíveis”, logo abaixo.

Buscamos, dessa forma, contribuir para o debate atual reunindo textos inéditos e produções artísticas, oriundos de diversas áreas, para fomentar um melhor diálogo. Essas leituras nos levam a inquirir a respeito dos valores culturais que carregamos e difundimos em relação a nossa interação com o meio ambiente, e deixam clara a urgência de repensar os arcabouços teóricos e conceituais que norteiam nosso auto entendimento sobre o planeta e as intervenções que construímos (sejam elas de “desenvolvimento”, de “mitigação” ou de “adaptação” às mudanças globais). Os textos alertam para a necessidade de não naturalizar a emergência do termo como algo imanente, mas exploram algumas das diversas potencialidades que uma imaginação de uma nova era geológica coloca ao pensamento e à ação política. Desejamos assim que ele inspire o leitor a avançar ainda mais nessa empreitada, que ao nosso ver está ainda em seu início.

 

Editores – Marko Monteiro (DPCT-Unicamp), Altair Oliveira Filho (IFSP-SMP), Jean Miguel (Unifesp)

 

Bibliografia:

BROWN, P. G.; TIMMERMAN, P. Ecological economics for the anthropocene: An emerging paradigm.  New York: Columbia University Press, 2015.  ISBN 0231540426.

CRUTZEN, P. J.; STOERMER, E. F. The “Anthropocene.” Global Change Newsletter 41, 17–18. International Geosphere–Biosphere Programme (IGBP),  2000.   

DANOWSKI, D.; VIVEIROS DE CASTRO, E. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins.  Florianópolis: Cultura e Barbárie Editora, 2014.  ISBN 8563003216.

DESCOLA, P. Beyond Nature and Culture. Proceedings of the British Academy, n. 139, p. 137-155,  2006.

HARAWAY, D. Anthropocene, capitalocene, plantationocene, chthulucene: Making kin. Environmental Humanities, v. 6, n. 1, p. 159-165,  2015. ISSN 2201-1919.

LATOUR, B. Jamais Fomos Modernos.  Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

______. Anthropology at the time of the Anthropocene—A personal view of what is to be studied. Distinguished lecture delivered at the American Anthropological Association annual meeting, Washington, 2014.

LEWIS, S. L.; MASLIN, M. A. Defining the anthropocene. Nature, v. 519, n. 7542, p. 171,  2015. ISSN 1476-4687.

MOORE, A. Anthropocene anthropology: reconceptualizing contemporary global change. Journal of the Royal Anthropological Institute, v. 22, n. 1, p. 27-46,  2016. ISSN 1467-9655.

PALSSON, G.  et al. Reconceptualizing the ‘Anthropos’ in the Anthropocene: Integrating the social sciences and humanities in global environmental change research. Environmental Science & Policy, v. 28, p. 3-13,  2013. ISSN 1462-9011.  

VIOLA, E.; BASSO, L. O sistema internacional no antropoceno. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 31, n. 92, p. 1-18,  2016. ISSN 0102-6909.

VIVEIROS DE CASTRO, E. Os Pronomes Cosmológicos e o Perspectivismo Ameríndio. Mana, v. 2, n. 2, p. 115-144,  1996.

ZALASIEWICZ, J.; WATERS, C.; HEAD, M. J. Anthropocene: its stratigraphic basis. Nature, v. 541, n. 7637, p. 289-289,  2017. ISSN 0028-0836.

 

“Cenários Sensíveis”

“Diálogos do Antropoceno” chegou como uma proposta que reclama não uma atenção aos tempos que já estão aí, a uma crise que já está dada, a uma época já nomeada. Por isso não se tratam de diálogos habituais sobre ou no Antropoceno, mas antes diálogos do Antropoceno, mas um do que acolhe mil pertencimentos anômalos e precários, sempre por fazer, sempre inacabados. Daí que o convite tenha sido feito a artistas, coletivos, pesquisadores e filósofos para povoar as seções Artes, Laboratório-Ateliê e Coluna Assinada deste dossiê que não tornaram o Antropoceno um slogan para seus trabalhos, e que cujo em comum (entre eles e os demais artigos e ensaios) exigirá de mim e dos possíveis leitores um exercício de criar relações imprevistas e abertas. Exercício que aqui compartilho para que sigam sendo esboçadas.

O “Inventário de Fauna e Flora” Lilian Maus apresenta uma série de pinturas em postais e poemas de uma expedição por terra que a artista fez em Osório-RS, ou “Terra dos Bons Ventos”, como ficou conhecida após a implantação de um complexo para exploração da “energia limpa” dos ventos. Os quatro anos de expedição – que fez também por água e ar – ganhou consistência num inventário resulta de uma atenção cuidadosa aos trajetos, ao que acontece nos encontros, ao que é vital em meio aos percursos, dando expressão a dimensões múltiplas do impacto ambiental produzido pelo parque eólico. Abrindo novas percepções e relações entre-reinos e entre-espécies que habitam o bioma, desde jararacas, mosquitos, borboletas, pau-de-ferro, palmito juçara, mas também humanos, ventos e montanhas. Percursos que não terminam com as caminhadas e fotografias, mas que seguem pela pintura e escrita, onde Lilian explora os “inter-esses” (Isabele Stengers) que as técnicas dos naturalistas podem gerar e inventa conexões inéditas entre artes, ciências e movimentos sociais. Dando a ver que, assim como não há espécie privilegiada a ser protegida e pintada, não há, de antemão, a melhor técnica, nem a prática ou o conhecimento salvadores, mas há uma necessidade de avaliação permanente do que pode se tornar eficaz em cada caso.

Os desenhos e fotografias de Silvina Babich seguem os fluxos do Rio Uruguai em “De puerto en puerto”. Seguir o rio para a artista não é apenas seguir os desenhos já cartografados das águas do rio ou os fluxos desenhados pelas grandes embarcações comerciais. Seguir o rio é fazê-lo nascer novamente de modo nunca visto, por isso seu interesse está nos ínfimos fluxos em que pessoas, vozes e pequenas embarcações fazem rio. Seus desenhos tornam perceptíveis os contínuos entre humanos e os rios, os modos como se multiplicam e proliferam em derivas inesperadas e fluxos desordenados.

Juliana Hoffmann, em “Surviving Forest”, abre respiros de luz nas florestas de papel. Florestas sufocadas e devastadas pelas apostas que dominam os modos de pensar habituais, onde tudo frequentemente se faz recurso e oportunidade. Onde insistem as oposições entre o mundo e o papel e torna-se cada vez mais difícil experimentar a poesia viva da terra. No trabalho delicado de Juliana, os poros deixam passar a vontade de capturar a forma das árvores, galhos e folhas e convidam a experimentar suas existências para além do macro ou microscopicamente visível. Acessamos uma força espiritual das florestas, aprendemos a escutar os sinais sem a neurose da interpretação. Sentimos que as conexões estão por todos lados, em tramas vivas que se proliferam, e precisam proliferar, sem programa definido previamente.

Por último, no vídeo “Edith Derdyk – Fantasmagorie, 2017”, entramos em relação com as instalações feitas de finos fios de algodão no bosque do jardim de esculturas La Petit Escalére, no sudoeste da França, a convite da curadora Dominique Haim. No vídeo, vemos as delicadas tramas desenhadas graficamente por Edith entre as árvores e sentimos como sua fala instala prolongamentos vitais com seus procedimentos e modos de pensar. O espaço, o ambiente, o bosque, não é um mais um mero pano de fundo inerte, mas antes é puro campo de possibilidades de relações escultóricas, pictóricas e musicais, e de transmutação constante de umas nas outras. O espaço é todo vivo, pleno de jogos incessantes de forças e movimentos, e o trabalho da artista passa por pedir licença para tornar tátil e audível esse “gigantesco tear do mundo” (William James), que não cessa de se reinventar entre luzes, cores, sons e corpos. Não há mais o artista como um criador e suas criaturas, o sujeito e o objeto, há antes um meio vital em que os gestos criadores passam a ter uma vida própria e os corpos, inclusive da artista, tornam-se dignos de acolhê-los.

Já na seção Laboratório-Ateliê a revista traz a exposição itinerante “Patagonia, tierra de volcanes. Una mirada desde el arte”, organizada por um grupo do Centro de Estudios en Ciencia, Tecnología, Cultura y Desarrollo (CITECDE) da Universidad Nacional de Río Negro – Bariloche, coordenado pela professora Sandra Murriello, junto com duas associações de artistas locais. O livro da exposição, com obras de convidados e selecionados a partir de uma chamada, traz possibilidades de pensar na potência da arte de ativar uma espécie de memória de futuro diante de experiências extremas, como a erupção dos vulcões da região em 2008 e 2011. As próprias cinzas, lavas, areias vulcânica e terras cozidas tornaram-se matéria-prima para desenhos, esculturas, pinturas e cerâmicas. Outra investida dos artistas foi o de dar expressão ao vulcão e aos impactos das erupções (visuais, sonoros, táteis…) por distintos materiais, tais como a fotografia, tela, tinta óleo, papel, vidro e por técnicas as mais diversas, desde pastel, bordado, xilogravura, impressão, retroiluminação, entre outras técnicas e combinações entre elas. As obras reunidas no catálogo não dão a sentir uma vontade de recuperação de uma experiência passada, nem o acesso a uma abordagem sensacionalista. Não há medo, horror, nostalgia, nem ressentimento. Antes uma espécie de chamado para continuarmos transmutando a matéria vivida em material de futuro.

Do grupo OLHO da Faculdade de Educação da Unicamp, trazemos o trabalho “Para além da sala escura: vídeo-intervenção” da doutoranda Marina Mayumi. Entre o texto, as fotografias e um vídeo sente-se que erupciona um desejo anônimo de que uma catástrofe sensorial atinja o cinema quando esse se faz em outras ambientações e por outros meios. Quando tudo se torna estúdio, inclusive o corpo, o filme e a palavra. Quando se experimenta combinações inusitadas, fora do esperado e se abre a um ponto de vista móvel, mutante e disjuntivo. Um ponto de vista que não é dos homens, nem das coisas, mas das vizinhanças mais inesperadas e descontroladas, como as que acontecem após uma inundação.

Também do grupo OLHO recebemos fotografias que conversam com o fogo e se aliam com o vento. Num breve texto escutamos a alegria polinizadora de um encontro: “Parece que foi ontem”. Título de exposição feita na Casa do Lago – Unicamp e que nasce da disciplina “Temática Indígena na Escola”, oferecida por Daniel Munduruku (Professor Visitante da Faculdade de Educação) e a professora Alik Wunder (Professora da Faculdade Educação, Unicamp), que reuniu alunos, professores, artistas e integrantes do Coletivo Fabulografias, entre eles a artista visual Marli Wunder. O texto literário de Munduruku acende movimentos do fotográfico que dialogam com a pintura, a escultura e o cinema experimental, e pedem por uma proliferação infinita de sensações elementais e sem nome.

A relação entre cinema experimental e os tempos catastróficos, de Gaia, do Antropoceno, chega com mais uma mostra de filmes de curadoria de Sebastian Wiedemann – em “Muestra NoctilucaScreen: Cosmopoliticas de la Imagen” – resultantes de uma colaboração entre a revista Hambre | espacio cine experimental e a revista ClimaCom e que desta vez aconteceu em Cuenca, Equador, durante a “Cámara Lúcida III – Tercer Festival Internacional de Cine de No-ficción, Experimental y Poéticas Expandidas”. Um cinema que se faz conexão sensível e selvagem com o cosmos e que recusa qualquer tentativa de totalização, interpretação e referência. Que se deixa arrebentar pelas forças do mar, que quer captar um campo ondulatório invisível das atmosferas, que se lança incessantemente na escuta dos ritmos íntimos dos bosques, em outras palavras, um cinema que se afeta pelas forças inumanas que pedem insistentemente passagem e eclosão. Nos filmes selecionados por Sebastian, nesta e em outras mostras, não há lugar para reposição de funcionamentos antropocêntricos, não há o “artista livre criador” que diante dos materiais impõe formas ou narrativas, porque o que está em jogo é uma experimentação em que o próprio cineasta se dispõe como material entre materiais. Em que o cineasta se faz onda entre as ondas e se deixa sonhar pelas imagens.

Como em todos os outros dossiês da revista, desde que ela surgiu em 2014, tenho coordenado ações junto com o grupo multiTÃO e o Ateliê Orssarara que visam povoá-la de visualidades e sonoridades que suspendam as apostas recognitivas e espetaculares da divulgação científica e que interrompam os fluxos tristes que alimentam dicotomias entre teoria e prática. Tal busca tem a ver com fazer da revista ClimaCom um laboratório-ateliê vivo e arriscado de experimentações coletivas, que ganham corpo pelas mais diversas práticas da universidade: desde projetos, aulas, oficinas, eventos etc.. Neste dossiê trazemos algumas experimentações feitas na disciplina “Arte, ciência e tecnologia”, que ministro no Mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), do qual participaram alunos do curso, artistas e alunas do ensino médio público de Campinas, em que propus experimentar as florestas como parceiras de pensamento e escrita. As alianças com os não-humanos – ênfase muito importante nos estudos de ciência e tecnologia, estudos multiespécies, nas chamadas linhas de pensamento pós-humanistas – podem acordar uma divulgação científica e cultural que prefere não falar sobre as florestas, mas antes propor-se como encontro com as potências-florestas. Deixar proliferar florestas por textos, fotografias, pinturas, esculturas, criações sonoras etc., em novas e originais emoções, em novos modos de existir e afetar. O que foi feito na relação com práticas singulares de distintos ofícios e pessoas: com o cineasta experimental e pesquisador Sebastian Wiedemann na oficina “Re-escritas, escritas expandidas e escritas cinematográficas”; com o escultor Eduardo Salzane na oficina “Autômatos poéticos em madeira”; com o compositor e pesquisador Rodrigo Reis Rodrigues na oficina “Devir-pássaro”; com o cientista David Lapola na palestra “Programa AmazonFACE: mudanças climáticas, meio ambiente e sociedade na Amazônia”; e com o babalorixá nigeriano Faseyi Awogbemi Dada e sua esposa e pesquisadora Glória Freitas Dada no “Ritual Ano Novo Yoruba”. Trata-se de um enfoque mesopolítico (Isabelle Stengers) em que o foco não são as abstrações e idealizações, mas as técnicas, procedimentos e materiais, pois interessam as artes, ciências e tecnologias – com minúsculas e no plural – envolvidas em um fazer.

A disciplina foi movida por passagens incessantes entre o ler-falar-escrever-desenhar-pintar etc. durante a criação coletiva de composições sensíveis para a ClimaCom, algumas feitas em sala e outras junto a públicos diversos em oficinas, como em “Re-existências sensíveis”, “Co-criando com o chão da floresta” e “Pequeno guia de observação de pássaros e baleias”. Outras produções dessa disciplina estarão no Laboratório-ateliê do próximo dossiê da ClimaCom, de “Interdisciplinaridade”, em dezembro de 2018. Sentimos que os materiais estão vivos e que pedem proliferações a cada encontro. Por isso a apresentação de projetos anteriores em eventos – como “Fractosferas”, “(A)mares e ri(s)os infinitos” e “Imediações aberrantes” – envolvem sempre a instauração de um novo processo, o nascimento de novas imagens, que podem ser vistas nas fotografias da oficina “Fractosferas” realizada na Casa do Lago e no vídeo “Bioluminescências” editado por Maurício Pitta, por ocasião do minicurso “Fazendo corpo com ecologias de práticas experimentais”, que ministrei junto com Sebastian Wiedemann a convite do SPECIES – Núcleo de Antropologia Especulativa, na Universidade Federal do Paraná (UFP).

Celebrar encontros cósmicos entre bandos de práticas singulares e heterogêneas, advindas das artes, ciências, filosofias, mas não só, tem sido o modo como a ClimaCom busca intensificar a potência criativa da vida, busca dignificar a escuta a esse chamado da aventura do pensamento que se faz na relação com a problemática ambiental. Por isso, abrir a seção Coluna Assinada ao artigo “Por uma trans inter nacional intensiva” do filósofo Luiz Orlandi, do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH-Unicamp), nos deixa muito honrados. O artigo é um pedido, não um manifesto. Pede passagem para os afetos alegres, para as alianças potentes, para as avaliações atentas aos dinamismos da realidade, para a abertura de novas dimensões dos direitos dos viventes, sejam humanos ou florestas. Pede um socorro intensivo, pois que as lutas contra os fascismos estão, e precisarão estar, em todos os lugares. Lutas contra as práticas escravizadoras e colonizadoras, contra as elites retardadoras, contra a mídia massiva e golpista. Pede licença para lançar cintilações: “Os humanos, complexos e imprevisíveis habitantes do planeta Terra, nunca deixaram de carregar em suas entranhas, em seus encontros com a matéria e outros viventes, uma pergunta colada aos movimentos de seus corpos e emoções. Há uma simples pergunta, certamente atuante já nos instintos dos outros viventes desse mesmo e tortuoso território: que fazer e como fazer para explorar e recriar condições de vida? Seja vírus, molécula, inseto, arbusto, animal ou gente, é em cada um deles que se impõe um vasto e intrincado questionamento vital. Esse questionamento reitera-se variadamente nos nomadismos ou paradeiros desses viventes todos, obrigando cada qual a revirar-se na ambiência do seu meio e a desvendar os mais disparatados sinais de uma caótica de percepções” (Orlandi, 2018). E em seu modo de pedir, sentimos o chamado à radicalidade de nos tornarmos dignos de pensar os problemas próprios dos nossos tempos.

Trazemos também, na coluna assinada, quatro textos de Luiz Marques professor livre-docente do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH-Unicamp), que argumentam em torno de diferentes aspectos de uma controversa proposta: “Decrescimento”. Os quatro textos passam por “Uma perspectiva de esquerda sobre as crises socioambientais”, “Mudanças Climáticas”, “Colapso da biodiversidade” e os “Limites da água” e fazem parte de uma série de artigos do historiador sobre as crises socioambientais publicados recentemente no Jornal da Unicamp e gentilmente cedidos para republicação na ClimaCom. Tais textos pedem que não nos deixemos abater pelo cansaço das palavras de ordem do Antropoceno e que sigamos proliferando em reescritas modos de pensar que ampliem nossa potência de existir.

 

Susana Dias (editora da ClimaCom e, neste dossiê, curadora das seções Arte e Laboratório-Ateliê e Coluna Assinada).


 

SUMÁRIO – Dossiê Diálogos do Antropoceno

| ano 5, n. 12, 2018 |

 

SEÇÃO PESQUISA

Artigos

“Futuros energéticos no Antropoceno: trazendo as dimensões sociais para o debate”

Ana Paula Camelo

“Mudanças climáticas e governança ambiental: desafio do Antropoceno”

Mariana Delgado Barbieri; Leila da Costa Ferreira

“Carvão para seus olhos tocarem: processo de arte com narrativas de deslocamento e fluxo de carvão abaixo da linha equatorial”

Ruy Cézar Campos Figueiredo

 

Ensaios

“Uma breve história do tempo geológico: a questão do Antropoceno”

Jefferson Picanço e Maria José Mesquita

“Revelado pelo Google: transformação em direção à sustentabilidade requer repensar a ciência”

Myanna Lahsen

“Anthropocene in a hermit-crab shell”

Vitor Chiodi

 

SEÇÃO ARTE

“Mar – Uma dança com o vento”

Marina Souza Lobo Guzzo

“Inventário de Fauna e Flora”

Lilian Maus

“Surviving Forest”

Juliana Neves Hoffmann

“De puerto en puerto” sobre el Río Uruguay

Silvina Babich

“Edith Derdyk – Fantasmagorie, 2017”

Le Petit Escalére

 

SEÇÃO LABORATÓRIO-ATELIÊ

“Fractosferas”

“Ritual Ano Novo Yoruba”

“Devir-pássaro”

“Parece que foi ontem”

“Autômatos poéticos em madeira”

“Co-criando com o chão da floresta”

“Pequeno guia de observação de pássaros e baleias”

“Re-existências sensíveis”

“Para além da sala escura: vídeo-intervenção”

“Bioluminescências”

“Re-escritas, escritas expandidas e escritas cinematográficas”  

“Patagonia, tierra de volcanes. Una mirada desde el arte”

“Muestra NoctilucaScreen: Cosmopoliticas de la Imagen”

 

SEÇÃO JORNALISMO

Coluna Assinada

“Por uma trans inter nacional intensiva”

Luiz B. L. Orlandi

“Decrescimento (I). Uma perspectiva de esquerda sobre as crises socioambientais”

Luiz Marques

“Decrescimento (II). Mudanças climáticas”

Luiz Marques

“Decrescimento (III). Colapso da biodiversidade”

Luiz Marques

“Decrescimento (IV). Os limites da água”

Luiz Marques

 

SATÉLITE

Evento | “Transições para uma sociedade sustentável: ciência, ativismo e políticas públicas”

Palestra | “Programa AmazonFACE: mudanças climáticas, meio ambiente e sociedade na Amazônia” http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?

 

CHAMADA ABERTA

Dossiê “Interdisciplinaridade”

Editora: Bianca Vienni Baptista (Universidad de la República Uruguay – Leuphana University of Lüneburg)

 

 

DOSSIÊS ANTERIORES

Em breve disponibilizaremos o PDF do dossiê ANO 5, N 11 | “Ecologias Radicais”

Já disponível o PDF do Dossiê ANO 4, N 10 | “Cosmopolíticas da imagem” |

Editores: Sebastian Wiedemann e Susana Dias (Universidade Estadual de Campinas) |

 

Diálogos do Antropoceno

Editores  | Marko Monteiro (DPCT-Unicamp), Altair Oliveira Filho (IFSP-SMP), Jean Miguel (Unifesp)

Editora e curadora das seções Artes, Laboratório-Ateliê e Coluna Assinada | Susana Dias

Editoração | Susana Dias e Tatiana Oliveira

Capa | Marina Guzzo, Juliana Hoffmann, Lilian Maus, Silvina Babich e Edith Derdyk (imagens grandes) | Maria Luiza Canela de Almeida (imagens pequenas)

Grupos | multiTÃO (CNPq) e Ateliê Orssarara

Rede de Pesquisa | Divulgação Científica e Mudanças Climáticas

Instituições | DPCT-Unicamp, Labjor-Unicamp, FE-Unicamp

Projetos | Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC) – (Chamada MCTI/CNPq/Capes/FAPs nº 16/2014/Processo Fapesp: 2014/50848-9); “Por uma nova ecologia das emissões e disseminações: como a comunicação pode modular a mais intensa potência de existir do humano diante das mudanças climáticas?” (CNPq); “Imediações aberrantes: processos de pesquisa-criação entre artes, ciências e filosofia para experimentação da comunicação como ecologia de afetos” (Pibic-Faepex); Revista ClimaCom: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/