Dossiê Percepção

| ano 4, n. 9, 2017 |

| EDITORIAL | 

um dispositivo que produza a repetição

pode produzir novas formas de

percepção? (Marília Garcia)

Mudanças climáticas inspiram mudanças de percepção, transformações nos modos de se perceber. Elas impelem a percepção além da repetição, das continuidades, dos esquematismos a que estaríamos acostumados, abrindo novas possibilidades de vida e forçando desdobramentos, linhas de fuga. Neste dossiê de ClimaCom, a percepção vai se tornando muitas, no encontro com diferentes práticas e conhecimentos: fotografia contemporânea, práticas artísticas, curatoriais e educacionais, performances, física, contracultura, procedimentos jornalísticos e da divulgação científica, saberes indígenas… Relações inesperadas tecidas nas fabulosas contribuições que recebemos para este dossiê em artigos, ensaios, imagens, desenhos… Desses distintos materiais, emerge a valorização das práticas e ações que se desdobram em caminhadas, percursos, rituais, processos, mapas performativos, cartografias climáticas, pesquisas, diários de corpo, narrativas flutuantes, paisagens ficcionais, (in)ventos…

A exploração de caminhos possíveis não vislumbra esgotar os temas abordados, mas lançar perspectivas que os complexifique e os tornem plurais, recusando as delimitações naturalizadas das taxonomias tradicionais. No mesmo movimento se conjugam maneiras de ressignificar a percepção pública da ciência e das mudanças climáticas, uma aposta em uma divulgação científica expandida, afeita às relações que se insinuam entre climas, afetos, sensações…

Modos de fazer como modos de perceber e conhecer, para os quais não há garantias, competências ou autoridades dadas de antemão, o que permite uma abertura ao não-saber, à imprevisibilidade e à incerteza em gestos e movimentos com os quais as condições e princípios vão sendo criados e coincidem com o ato da sua instauração, da sua prática, quando “…consideramos a realidade, o pensamento, o conhecimento (e também a ação) enquanto eles estão se produzindo”, como propõe Lapoujade com William James (LAPOUJADE, 2017, p. 11).

No empirismo que inspira muitos dos trabalhos desse dossiê, a percepção aparece intrinsecamente atrelada à experiência: nem sempre aquela associada aos cinco sentidos demasiado humanos – que tendem a encerrá-la no já existente -, mas a experiência real do pensamento, que o remete àquilo que o altera, arrancando-o da inércia dos poderes e saberes constituídos que querem fazer com que o pensamento não vá além do possível – além do que se pode habitualmente perceber: o possível prefigurado pelo Antropoceno em suas classificações dos seres e coisas propostos pelo capitalismo, eurocentrismo e antropocentrismo que operam recortes do mundo (dos mundos) nos dualismos epistemológicos sujeito e objeto, cognitivo e afetivo, vivo e inanimado, material e espiritual.

Diante dessas distribuições, as ressonâncias, composições, articulações, encontros, contágios, coexistências são convocadas para inventar novos modos de se estar juntos, de fazer-com… Múltiplas possibilidades de relações que suscitam um movimento contínuo de diferenciação próprio do acontecimento – em vez da busca por uma finalidade ou resultado. Movimento que incita a ampliação da percepção quando pergunta: como capturar o imperceptível? Aquilo que nos escapa?

Procedimentos, práticas e ações movidas pelas forças da efemeridade e da provisoriedade das relações, para que elas não se estabilizem em exemplos, alternativas, soluções, respostas, consensos… Exemplos, alternativas, soluções, respostas e consensos que também compõem os fluxos dos poderes e saberes do Antropoceno que, em meio à captura das forças vitais, querem solidificar um “dever ser” para a vida, modos – métodos? – pelos quais a vida deveria ser pensada ou vivida – percebida – e que querem reduzir a política a uma questão de moralidade, de certo ou errado.

Em meio à bárbarie por vir – que nos afeta com uma indiferença generalizada – quando a palavra de ordem torna-se “nada faz diferença” -, é preciso ir rápido, como propõe Guattari (2012), e não nos demorarmos aí onde corremos o risco de ser engolidos pela linha de morte dessa política niilista. A composição de gestos e movimentos de leveza torna-se, então, politicamente relevante. Gestos e movimentos que precisam ser instaurados, não sendo espontâneos ou fáceis. Em meio aos lugares mais inesperados – como nesse dossiê de ClimaCom – nascem, então, novos modos de perceber como movimentos afirmativos da vida.

Bibliografia

GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34, 2012.

LAPOUJADE, D. William James, A construção da experiência. São Paulo: n-1 Edições, 2017.

Gabriel Cid de Garcia e Carolina Cantarino Rodrigues

Editores

 


 

SUMÁRIO – Dossiê Percepção

| ano 4, n. 9, 2017 |

 

SEÇÃO PESQUISA

Artigos

O percurso ou o caminhar como dispositivo poético, perceptivo e mnemônico

Paula Almozara e Luisa Paraguai

In(ventos): pistas de uma cartografia climática para uma geografia de afetos

Diana Kolker Carneiro da Cunha

Percepção e política na divulgação científica: em busca de um público-alvo

Renato Salgado de Melo Oliveira

O desastre e a percepção da percepção social do risco: Mariana, pororoca de lama!  

Sérgio Portella

 

Ensaios

Páginas de um diário de corpo do pensamento: atmosfera de espanto no devir da escrita

Maruzia Dultra

 

Percepção e realidade

Márcio Barreto

Mapas performativos: experienciando climas, paisagens e culturas

Walmeri Ribeiro

 

Resenha

Fazendo nós: fazer-com no Antropoceno

Vitor Chiodi

 

SEÇÃO ARTE

Artes

C:\tecnozoica

Alessandra Penha, Giancarlo Pellizzari, Pamela Piovezan, Renato Oliveira e Tatiana Oliveira – Curso de Especialização em Jornalismo Científico Labjor-Unicamp

DesComEtc@ – desconecta, a rádio (série transgênicos)

Grupo multiTÃO

Laboratório dos despropósitos – Projeto Intervalar

Leandro Aparecido de Jesus e Antonio Almeida da Silva

 

SEÇÃO LABORATÓRIO-ATELIÊ

(editores da seção Susana Dias e Sebastian Wiedemann)

Narrativas intempestivas: quantos gritos cabem no silêncio? 

PIBID – Biologia – UFSC

Afetos líticos

Grupo multiTÃO e Orssarara Ateliê

Floresta de luz: um laboratório de botânica especulativa

Grupo multiTÃO e Orssarara Ateliê

 

SEÇÃO JORNALISMO

Coluna Assinada

Divulgação científica: que fazer?

Peter Broks
Trad. Gabriel Cid de Garcia

A força do ritual – autonomia e saber científico no Território Arhuaco

Juliana Schober Gonçalves Lima

 

Satélite

Lançamento do Livro “Planejamento da Produção de Cana-de-Açúcar no Contexto das Mudanças Climáticas Globais”

 

Outras edições

Dossiê Cartas e cataclismas – pdf já disponível

 

Próximos dossiês

Dossiê “Cosmopolíticas da Imagem” – chamada aberta

Editores Susana Dias e Sebastian Wiedemann – Labjor e FE/ Unicamp

Dossiê “Ecologias radicais” – número especial com artigos e produções artísticas do VII Seminário Conexões: Deleuze e Cosmopolíticas e Ecologias Radicais e Nova Terra e…

Editores: Grupo multiTÃO – Renato Oliveira, Vivian Marina, Tatiana Plens, Glauco Silva, Susana Dias, Sebastian Wiedemann (Labjor-Unicamp)