Metamorfoses | Karina Miki Narita

Título | Metamorfoses

Criações fotográficas a partir do contato com ancestralidades na pandemia. Foi em agosto de 2020, quando recebi inusitadas visitas de beija-flores na janela do meu quarto, em meio a quarentena. Eu comecei a fotografá-los e a perguntar para amigos(as) como se dizia beija-flor na língua deles(as). Chinês, coreano, espanhol, indonésio, inglês, iorubá, japonês. E também nas línguas indígenas brasileiras. Aruak, balatiponé, baniwa, baré, dzibukuá, guajajara, guarani-mbyá, kadiwéu, nheengatú, terena, tikuna, tukano, xavante, wapichana. O beija-flor é uma ave típica das Américas, com cerca de 350 espécies catalogadas (SONNE, 2022), então imaginei que, certamente, seria um vocabulário presente nos idiomas dos povos indígenas. Foi comovente notar a pluralidade linguística dentro e fora de nosso território. Ao mesmo tempo, eu era atravessada pela narrativa ancestral da Amabie em um convidativo movimento para criação imagética. Na pandemia do coronavírus, muitas pessoas desenharam a Amabie, uma aparição da cultura japonesa, e postaram nas redes sociais. Esta história me chamou atenção e me permitiu relacionar aspectos da minha própria ancestralidade e interesses de pesquisa. Amabie é uma criatura que impulsiona a criação de imagens ancestrais e vive através do seu compartilhamento por meio do mito: dizem que ao desenhá-la, temos a graça de se proteger de grandes pandemias. Para isso, é necessário que cada pessoa crie a sua Amabie, a partir de antigas descrições desse ser: cabelos longos, bico, escamas pelo corpo e três pernas ou nadadeiras. O fenômeno viralizou no início de 2020, contabilizando-se cerca de 30.000 posts por dia de desenhos da #amabie e ou #AmabieChallenge somente em março de 2020 (YAMAMOTO, 2020). Os encontros com os beija-flores e com a Amabie movimentaram devires e dispararam estudos sobre pensamentos indígenas em relação à vida e as misturas entre seres e mundos. O filósofo Emanuele Coccia (COCCIA, 2020), assim como Ailton Krenak (KRENAK, 2019), discute a necessidade contemporânea de reconexão com a materialidade da vida e a influência de outras formas de vida sobre nossos corpos humanos. A sociedade moderna vem devastando oceanos e florestas como se o planeta – Gaia, Mãe-Terra – fosse algo separado aos humanos, servindo-lhes como uma fonte inesgotável de recursos a ser consumidos e depredados. Nesta grave situação a que chegamos, mais do que nunca, a sabedoria dos povos indígenas se mostra necessária para o combate à exploração da vida humana e não-humana que vem acontecendo em ritmo catastrófico. Os saberes tradicionais reforçam o cuidado com a vida, relembram que fazemos parte de um organismo vivo e que a nossa sobrevivência depende de outras vidas, pois estamos entrelaçados, nunca isolados(as) neste mundo. Somos o encontro de muitas vidas, somos átomos e moléculas e também matéria de sonho e espírito. A vida que habita um corpo é também atravessada pela vida de vários outros seres e é efêmera e leve, assim como uma pena. Estas criações fotográficas fazem parte da dissertação de Mestrado em Educação, A Pena e a Palavra: imagens em literaturas indígenas, realizada por mim, no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Unicamp, orientada por Profa. Alik Wunder.

 


| FICHA TÉCNICA |

Título da obra | Metamorfoses
Fotografia | Miki Narita
País de produção | Brasil
Ano de produção | 2020 a 2022

 


Karina Miki Narita

Instituição| Faculdade de Educação da Unicamp
Email | k138633@dac.unicamp.br
Contato |(19)988028951

                                                                                                                 

NARITA, Karina Miki. Metamorfoses. ClimaCom – Desastres. [online], Campinas, ano 11, n. 26. jun. 2024. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/metamorfoses/


 

SEÇÃO ARTE | DESASTRES | Ano 11, n. 26, 2024

ARQUIVO ARTE | TODAS EDIÇÕES ANTERIORES