Virginia Buitrón: laços vitais | Eduardo Pellejero

Este texto é uma pequena viagem pela trama simbiótica e metamórfica, entre humanos e não humanos, entre tudo que existe, tecida por Virginia Buitrón em suas obras.

Eduardo Pellejero[i]

 

Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.

Manoel de Barros

Virginia Buitrón: laços vitais

 

No centro de cada uma das duas folhas há uma abundante e obscura mancha de tinta[1]. À primeira vista são idênticas, mas uma (a da esquerda) está viva. Podes vê- la mover-se debaixo dos teus olhos assombrados: cresce sensivelmente, primeiro de maneira tímida, para explodir em seguida, multiplicando-se em linhas de fuga, desenhando um pássaro, um mapa, sonhos e pesadelos de um reino do qual desconhecemos quase tudo. A vida também se manifesta sobre a segunda folha de papel, a que se encontra do lado direito. Será excessivo ver na mão que carrega o pincel uma espécie de ephemera – uma borboleta de piracema ou siriruia? Chamaram a atenção de Aristóteles, que também nos legou a noção de mimese que ainda hoje pesa sobre a arte. A mão, que carrega o pincel, que carrega a tinta, tenta reproduzir os traços das larvas, sem imagens de um objeto ou um fim a atingir, apreendendo a verdade sem conceito das suas existências metamórficas. E joga. Há uma alegria  quase infantil[2] e, ao mesmo tempo, uma seriedade enorme, nesse gesto “leve, alado e sagrado”[3]. Então as larvas mudam as regras sem aviso, e invadem a folha da direita, tornando impossível consumar a imitação de maneira perfeita, sem resto.

A Hermetia illucens não se converte numa libélula, mas numa mosca. Em que se converte Virginia Buitrón? Antes que nada e em primeiro lugar, em parte de uma “trama simbiótica entre animais humanos e não humanos, micro-organismo e outros agentes (vento, chuva, sol, lua)”[4]. Do seu prolongado trato com as larvas, chegou a conhecer as moscas melhor que Aristóteles – quem, apesar de tudo, jamais afirmou que tivessem quatro patas! – e empreendeu um exercício da arte que não é indiferente ao seu destino, ao destino das moscas, nem, em geral, ao do futuro da vida sobre a terra. Ao mesmo tempo, comprometeu-se num movimento de involução que a devolveu à cena da sua infância num jardim e a uma espécie de pré-história da arte (ou a uma história da arte dessacralizada, desmistificada, naturalizada[5]). Ao seu modo, deu corpo à intenção de Manoel de Barros: “desaprender oito horas por dia ensina os princípios”[6]; e dando corpo a essa intuição redescobriu o desenho antes do desenho[7].

(Leia a coluna assinada completa em pdf)

 

[i] Filósofo e professor de estética do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

[1] Biomímesis (2017-2018)

[2] “Sinto que estou fazendo o que fazia quando era uma criança: estar no jardim com os insetos, com a

natureza. Espaço de liberdade, de jogo, de busca.” (Buitrón apud Pellejero, 2023).

[3] Platão, 1985, p. 257 (534b).

[4] Buitrón apud Pellejero, 2023.

[5] “Desacralizar um pouco. Ser artista… Não sei, alguns são carpinteiros, outros são merceiros, outros são advogados… e em algum momento eu disse: bem, sou artista. Eu vou me dedicar a isso.” (Buitrón apud Pellejero, 2023)

[6] Manoel de Barros, “Uma didática da invenção”.

[7] “Eu repetia: não gosto de desenhar. Aliás, não queria me inscrever em Belas Artes porque tinha desenho. (…) E em toda a carreira de Belas Artes o que mais me custou foi o desenho” (Buitrón apud Pellejero, 2023)