Um “assassino silencioso”: governando o calor extremo por meio de políticas de saúde e de cidade | Camila Miranda Ventura e Rogerio Lopes Azize
Camila Miranda Ventura[1]
Rogerio Lopes Azize[2]
De onde partimos
O presente artigo é fruto de uma pesquisa de caráter documental e de levantamento bibliográfico, fruto da tese de doutorado em andamento da primeira autora, orientada pelo segundo [3]. A tese investiga a rede sociotécnica que se mobiliza em torno da criação do protocolo do calor da cidade do Rio de Janeiro. A partir dos dados coletados, foi elaborado um acervo que abrange os anos de 2003 a 2025, com dados levantados no período de 2024 a 2025, contendo reportagens, imagens, entrevistas, noticiários, guias técnicos e artigos científicos. Estes documentos auxiliaram na reconstrução de duas cenas de desastres caracterizadas por eventos extremos de calor. O objetivo do levantamento foi compreender como o calor passou a se constituir como grave problema de saúde em um contexto de crise climática e socioambiental.
Nesse contexto, de que maneira esta concepção de risco mobilizou discursos e ações de agentes públicos buscando a proteção da população, diante de cenários futuros que preveem aumento na duração, frequência e intensidade dos eventos extremos de calor? A partir dessa premissa, observamos quais representações de risco foram mobilizadas para o calor extremo no acervo levantado e utilizamos a Teoria Ator-Rede (TAR) como perspectiva analítica (Latour, 2012; 2019) [4].
Deste modo, reconstruímos dois cenários de desastres em torno do calor extremo e identificamos como a ideia de risco foi sendo associada e colocada em ação. Este fato mobilizou uma série de respostas tecnopolíticas com o senso de “enfrentamento” a este agente atmosférico.
Por meio da TAR, Latour (2019) introduz a noção de tradução ou de rede como uma maneira de reatar as divisões de conhecimento entre política e ciência e entre natureza e cultura. O autor orienta que ao descrever objetos técnicos é preciso ir além da coisa em si e analisar o seu envolvimento com coletivos e sujeitos. Trata-se de uma forma de investigar como as situações de desastres relacionadas ao calor extremo nos ajudaram a compreender a sociedade. Embora a TAR não se limite a isto, e sim em observar como tudo se articula no funcionamento das redes sociotécnicas.
(Leia o artigo completo em PDF)
[1] Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, com ênfase em Ciências Sociais e Humanas em Saúde, no Instituto de Medicina Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ). Mestra em Saúde Coletiva (IESC-UFRJ). E-mail: camilaventurafms@gmail.com
[2] Professor Associado no Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ). Doutor em Antropologia Social (Museu Nacional/UFRJ). E-mail: rogerioazize@hotmail.com
[3] Por se tratar de artigo que lida com material documental público e aberto, o presente trabalho não pediria submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme disposto na Resolução 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. No entanto, como a pesquisa mais ampla lida com seres humanos, informamos que houve aprovação pelo Comitê de Ética, registrado no parecer número 7.762.519.
[4] A TAR foi proposta por Bruno Latour, Michel Callon e John Law em diversos trabalhos, nem todos publicados em conjunto. As obras de Latour mais significativas utilizadas neste trabalho são Reagregando o social (2012) e Jamais fomos Modernos (2019).
Um “assassino silencioso”: governando o calor extremo por meio de políticas de saúde e de cidade
RESUMO: “Um assassino silencioso”: por meio desta metáfora especialistas da saúde e da meteorologia chamam a atenção para os riscos dos eventos extremos de calor. As representações de crise e risco geradas pelo aquecimento global não são meros produtos dos fenômenos climáticos extremos, mas sintomas da época do Antropoceno. Neste contexto, o calor emerge politicamente como um agente climático de impacto, enquadrado na lógica do risco, do controle e vigilância. Este agente atmosférico necessita ser “enfrentado” por políticas de adaptação climática que influenciam ações de saúde pública, de governo e de cidade. O artigo apresenta uma análise documental de dois episódios trágicos de temperatura extrema de calor que ocasionaram muitas mortes. O primeiro, na Europa, no ano de 2003 e o segundo, na cidade do Rio de Janeiro, em 2023. O objetivo foi reconstruir o drama vivenciado e observar como o calor foi e vem sendo convertido em um grave problema de saúde pública. Pretendemos defender que o calor extremo, suas consequências e sua gestão pública, no contexto de mudanças climáticas, se constituem como objeto legítimo no campo das Ciências Sociais e Humanas visando ampliar o debate sobre este tema.
PALAVRAS-CHAVE: Emergência climática. Calor Extremo. Vigilância em saúde. Biopolítica. Antropoceno.
A “silent killer”: managing extreme heat through health and city policies
ABSTRACT: “A silent killer”: health and meteorology experts use this metaphor to draw attention to the risks of extreme heat events. The representations of crisis and risk generated by global warming are not mere products of extreme weather phenomena, but symptoms of the Anthropocene era. In this context, heat emerges politically as a climate agent of impact framed within the logic of risk, control, and surveillance. This atmospheric agent needs to be “addressed” through climate adaptation policies that influence public health, government and city actions. This article presents a documentary analysis of two tragic episodes of extreme heat that caused many deaths. The first occurred in Europe in 2003 and the second in the city of Rio de Janeiro in 2023. The objective was to reconstruct the drama experienced and observe how heat has been and continues to be converted into a serious public health problem. We intend to argue that extreme heat, its consequences, and its public management, in the context of climate change, constitute a legitimate subject of study in the field of social sciences and humanities with the aim of broadening the debate.
KEYWORDS: Climate emergency. Extreme Heat. Health surveillance. Biopolitics. Anthropocene.
VENTURA, Camila Miranda; AZIZE, Rogerio Lopes. Um “assassino silencioso”: governando o calor extremo por meio de políticas de saúde e de cidade. ClimaCom – Eventos climáticos – parte 1 [online], Campinas, ano 13, n. 30, jul. 2026. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/um-assassino-silencioso/
