Mudanças climáticas e perspectividade: por uma redefinição ontológica do extremo | Menissa Nayara Nascimento Silva e Tiago Amaral Sales


Menissa Nayara Nascimento Silva[1]
Tiago Amaral Sales[2]

Introdução

Vivemos em tempos complexos que nos trazem uma tarefa nada simples de entendê-los e encontrar caminhos para habitá-los. As catástrofes, os desastres ambientais e os nomeados “eventos extremos” fazem parte do que vem sendo nomeado nas últimas décadas pela comunidade científica de mudanças climáticas. Tais questões atravessam a vida planetária de inúmeras maneiras, convocando também um trabalho inter/transdisciplinar para buscar entender e propor respostas à altura do tempo presente. 

Acerca do clima, o antropólogo francês Bruno Latour (2020) nos ajuda a pensar neste presente incerto. Ele propõe que entendamos um sentido geral “[…] das relações dos humanos com suas condições materiais de existência” e, a partir disso, defende que as exacerbações capitalistas neoliberais criaram “A ausência de um mundo comum a compartilhar [que] está nos enlouquecendo” (Latour, 2020, p. 10). Este é um tempo de angústias pois “[…] cada um de nós começa a sentir o solo ruindo sob os pés” e, assim, nos resta migrar “[…] a territórios a serem redescobertos e reocupados”. 

Pensando nessas questões, Latour (2020, p. 19) afirma que vivemos um tempo das mutações climáticas, no qual “Migrações, explosão de desigualdades e Novo Regime Climático: trata-se da mesma ameaça”. Como proposta para habitar esse tempo-espaço precário, o autor propõe que, duplamente, busquemos “vincular-se a um solo” e “mundializar-se” (Latour, 2020, p. 21). Ao aterrar-nos a um solo particular, percebemo-nos habitantes de um mundo intensamente vivo, um universo imensamente fértil. Eis, então, algumas nuances para seguirmos. Ainda assim, continua complexa a tarefa de nomear e pensar nas palavras que poderão orientar a necessária redescoberta e reocupação desse território por nós ocupado.

Com a antropóloga Anna Tsing (2019), compreendemos que a busca por respostas se inicia com a proposição das perguntas certas. Segundo Tsing, ainda que não possamos perder de vista que “[…] nosso tempo é o ‘Antropoceno’, a era da perturbação humana. […] uma era de extinção em massa”, é preciso perceber que “[…] o Antropoceno também é uma era de emergências” e, diante disso, perguntar: “O que emergiu?” (Tsing, 2019, p. 23). Portanto, um entendimento apropriado dos eventos extremos, fenômenos do tempo presente, deve considerar não só as perdas e extinções congênitas a eles, mas também o que emerge deles. 

 

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[1] Professora de Filosofia na Educação Básica. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Licenciada e Bacharel em Filosofia pelo Instituto de Filosofia da Universidade Federal de Uberlândia (IFILO/UFU). Email: menisnascimento@gmail.com. 

[2] Professor Assistente nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas, vinculados ao Instituto de Ciências Exatas e Naturais do Pontal (ICENP), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Campus Pontal. Professor Permanente no Programa de Pós-Graduação em Educação Básica (PPGPEDU) e no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Pós-doutorado em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Doutor e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia (PPGED/UFU). Licenciado em Pedagogia pela Universidade Estácio de Santa Catarina (UNESA). Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas pelo Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia (INBIO/UFU). Email: tiagoamaralsales@gmail.com

Mudanças climáticas e perspectividade: por uma redefinição ontológica do extremo

 

RESUMO: O artigo investiga o significado dos chamados “eventos extremos” no contexto das mudanças climáticas a partir de uma abordagem filosófica centrada na crítica da racionalidade tecnocientífica e no perspectivismo. Parte-se da hipótese de que a filosofia, para apreender fenômenos próprios do tempo presente, deve operar por deslocamento crítico em relação aos pressupostos que estruturam sua época. Nesse sentido, mobiliza-se o método genealógico, em diálogo com Friedrich Nietzsche, para analisar o predomínio da cultura ocidental-europeia, fundado na racionalidade lógico-científica de matriz grega e radicalizado pela tecnociência.
Argumenta-se que esse regime de racionalidade coincide com uma crise das formas de organização da vida que ele próprio instituiu, na medida em que consolida a compreensão da natureza como recurso disponível à exploração. As mudanças climáticas e os chamados eventos extremos são, assim, pensados como expressão dessa crise mais ampla, que atravessa dimensões históricas, culturais e ontológicas. Diante desse diagnóstico, propõe-se o perspectivismo como exercício conceitual que exige o deslocamento do eu e o reconhecimento da alteridade como condição da interpretação. Tal perspectiva permite compreender a implicação mútua entre diferentes modos de existência, bem como entre fenômenos naturais e humanos. Conclui-se que os eventos extremos não se reduzem a ocorrências físicas, mas indicam tensões estruturais que redefinem as condições da vida na Terra.

PALAVRAS-CHAVE: Eventos extremos. Mutações Climáticas. Perspectivismo. Contemporaneidade.

 


Climate change and perspective: towards an ontological redefinition of the extreme

 

ABSTRACT: ABSTRACT: This article investigates the meaning of so-called “extreme events” in the context of climate change from a philosophical approach centered on the critique of technoscientific rationality and perspectivism. It starts from the hypothesis that philosophy, in order to understand phenomena specific to the present time, must operate through a critical shift in relation to the assumptions that structure its era. In this sense, the genealogical method is mobilized, in dialogue with Friedrich Nietzsche, to analyze the predominance of Western-European culture, founded on logical-scientific rationality of Greek origin and radicalized by technoscience. It is argued that this regime of rationality coincides with a crisis in the forms of organization of life that it itself instituted, insofar as it consolidates the understanding of nature as a resource available for exploitation. Climate change and so-called extreme events are thus interpreted as an expression of this broader crisis, which traverses historical, cultural, and ontological dimensions. Given this diagnosis, perspectivism is proposed as a conceptual exercise that demands a shift in focus from the self and the recognition of otherness as a condition for interpretation. This perspective allows for an understanding of the mutual implication between different modes of existence, as well as between natural and human phenomena. It is concluded that extreme events are not simply physical occurrences, but indicate structural tensions that redefine the conditions of life on Earth.

 

KEYWORDS: Extreme events. Climate Change. Perspectivism. Contemporaneity.


SILVA, Menissa Nayara Nascimento; SALES, Tiago Amaral. Mudanças climáticas e perspectividade: por uma redefinição ontológica do extremo. ClimaCom – Eventos extremos – parte 1 [online], Campinas, ano 13, n. 30 jun. 2026. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/perspectividade/