Mordida | Mariana Rocha

Título | Mordida

Retorno a um hábito da infância: recolho conchas na areia da praia. Quando criança, juntava um saco inteiro e as levava para casa. Minha mãe, com a justificativa de que não era bom guardar coisas do mar dentro de casa, sempre as jogava fora, a despeito do meu desejo de guardá-las como relíquias, juntar grandes potes e sacos cheios dos mistérios tão grandiosos que não caberiam dentro de casa.

Pego quantas cabem na minha mão fechada. Procuro as marcas menos profundas, risquinhos que seriam imperceptíveis ao primeiro olhar, quero as linhas secretas, os veios menos visíveis, pois eles me dirão coisas que outras pessoas não quiseram saber. As conchas, por inteiro, falam de algo que mais ninguém sabe, pois pertenceram a corpos desmanchados na água, definitivamente mortos, talvez desconhecidos, deixando suas memórias em códigos indecifráveis que agora toco e aproximo dos olhos.

No processo que ocorre entre a morte e o desaparecimento de um corpo, os dentes e os ossos são as últimas partes a se esvaírem. As conchas possuem, assim como os ossos dos animais vertebrados, uma grande quantidade de cálcio, a função protetiva e a notável lentidão no processo de perder água até tornarem-se pó. Enquanto a carne se desmancha na água, a concha se quebra em milhares de pedaços, esfarela e mistura-se a outros muitos sedimentos no mundo.

Suas extremidades possuem elevações e reentrâncias que me marcam como uma mordida na carne. São, em sua maioria, bivalves [1]: duplas de conchas que encaixam perfeitamente uma na outra. Todas as que recolhi, exceto uma, perderam seus pares na imensidão do oceano, do mar, da praia ou da faixa de areia, mas conservam seus pequenos dentículos na esperança de encaixá-los e então lacrarem-se como abrigos dos corpos moles que, no entanto, já se foram. Lembro-me de cavar muitos buracos, brincando de encontrar coisas: as conchas, bichos, pedras. Mais de uma vez encontrei um batom vermelho ainda inteiro e fiquei fascinada (como algo do meu universo poderia caber nos mistérios do mar?), quis guardar comigo. Mas, se não cabiam conchas na minha casa, também não caberiam batons vermelhos nascidos das areias e das águas que eu não deveria nem tocar, pois me fariam mal – a voz da minha mãe alertava. Permanecia o desejo latente da descoberta, do toque, de passar na boca.

Trago as conchas para casa e marco com grafite vermelho as linhas que me interessam, tão frágeis quanto vasos ou capilares de um corpo. Os desenhos marcados estão quase todos dentro delas, onde a escrita pôde se fixar, não fora. Dentro estão guardados os segredos. Sinto vontade de pressioná-las contra a carne, contra a pele, em mais um jogo infantil rememorado. Sobreponho uma nova a cada marca de uma anterior, apertando-a até aumentar no local o fluxo do sangue, até a pele se avermelhar e doer, até o desenho arredondado marcar a minha pele e depois sumir.

[1] Definição segundo a Enciclopédia Britânica, disponível em <https://escola.britannica.com.br/artigo/bivalve/480798>. Acessado em 23/03/2020.

 


Ficha técnica
Artista | Mariana Rocha

Técnica: Fotografia digital

País | Brasil

Ano |2019-2020

 

 

 

 

ROCHA, Mariana. Mordida. ClimaCom – Devir Criança [Online], Campinas, ano 7,  n. 18,  Set.  2020. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/mordida/

 

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SEÇÃO ARTE |DEVIR CRIANÇA  | Ano 7, n. 18, 2020

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