Da intervenção biomédica à intervenção artística: outras linhas para o cérebro | Daniela Feriani, Ana Cândida Nunes, Edilberto Silva, Fernando Murilo Bonato, Jailton Veloso & Pedro de Lucena

O que pode um cérebro quando ele sai do lugar patologizante da biomedicina e encontra outros caminhos possíveis? Como traçar linhas de fuga que permitem transbordar os cérebros dos exames para as artes, dos laudos para os poemas? A partir dessas questões, eu, Daniela Feriani, convidei pessoas neurodivergentes a experimentar e vislumbrar outras perspectivas para o cérebro – e tudo o que cabe e o que não cabe nele. Ana, Edilberto, Murilo, Jailton e Pedro aceitaram o desafio.

Daniela Feriani[1]

Ana Cândida Nunes[2]

Edilberto Silva[3]

Fernando Murilo Bonato[4]

Jailton Veloso[5]

Pedro de Lucena[6]

 

Cérebros que brilham para além dos raios-x e campos magnéticos

Daniela Feriani

 

O que nos inspira hoje não são os computadores, é a microbiologia do cérebro: este se apresenta como um rizoma, mais como a grama do que como a árvore (…) Não que pensemos conforme o conhecimento que temos do cérebro, mas todo novo pensamento traça ao vivo no cérebro sulcos desconhecidos, torce-o, dobra-o, fende-o. (…) o cérebro é precisamente esse limite de um movimento contínuo reversível entre um Dentro e um Fora, esta membrana entre os dois. (…) Subjetivação, acontecimento ou cérebro, parece-me que é um pouco a mesma coisa (Deleuze, 1992: 191).

 

As metáforas têm desempenhado, há muito tempo, múltiplos papéis na conceitualização da mente e do cérebro, orientando o desenvolvimento e o aprimoramento de modelos teóricos e questões empíricas. Analogias iniciais (comparando o cérebro a sistemas hidráulicos, centrais telefônicas, fábricas ou bibliotecas) ofereciam atalhos para a compreensão de aspectos da cognição, da memória e da dinâmica cerebral. Como tal, as metáforas desempenham um papel fundamental na orientação de investigações científicas.

Se o cérebro já foi comparado a uma máquina ou a um computador, um grupo de neurocientistas propõe a música como uma metáfora científica para a compreensão de múltiplas dinâmicas cerebrais e funções cognitivas [1]. Ao contrário de metáforas que se concentram em componentes estáticos ou fluxos lineares, a música enfatiza a adaptação contínua, a dependência do contexto e  a inserção cultural, e apresenta um modelo para o engajamento simultâneo com múltiplas camadas de significado. Integrando técnicas analíticas da teoria musical e insights experienciais da performance e da audição, a aposta é aprofundar nossa compreensão da dinâmica da mente e do cérebro e fornecer novos caminhos epistemológicos para a pesquisa interdisciplinar.

A música possui uma estrutura hierárquica, complexidade temporal e capacidade de integrar múltiplos processos que são paralelos a características-chave da arquitetura cerebral e das funções cognitivas. Com base em pesquisas sobre oscilações neurais, plasticidade, codificação preditiva e processamento emocional, os neurocientistas mostram como o paradigma musical pode capturar a rica interligação entre mente e cérebro, desde a dinâmica cerebral em larga escala e as trajetórias de desenvolvimento até a emergência da consciência e a interação de estados afetivos.

Se antes o cérebro era pensado como autônomo em relação ao resto do corpo, tem se mostrado cada vez mais articulado. Para o sociólogo britânico Nikolas Rose (2001), a psiquiatria adotar cada vez mais um modelo biológico ou cerebral para diagnosticar doenças mentais implica numa reformulação da própria noção de biologia – não mais como um destino inexorável e imutável, mas cada vez mais sendo pensada na sua relação com o ambiente. A vida biológica – incluindo, aqui, a influência da genética – entra no campo da escolha e decisão: tornamo-nos cidadãos biológicos e se exige cada vez mais que conhecemos o que acontece em nosso próprio corpo numa linguagem neuroquímica. O ambiente – trauma, abuso, pobreza etc – é levado em conta quando pode ser visto em termos cerebrais, quando as lesões – ou os sintomas – podem ser localizadas.

(leia a reportagem completa aqui)

[1] Daniela Feriani é antropóloga formada pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Atualmente, é bolsista de Jornalismo Científico (Mídia Ciência) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP, com o projeto “A demência como outro mundo possível: ações de divulgação científica” [2024/05623-0]. Email: danielaferiani@yahoo.com.br Instagram: @soproseassombros

[2] Ana Cândida Nunes é formada em Psicologia, mestra e doutoranda em Filosofia, pela Universidade Federal do Piauí. Trabalha na Associação de Amigos dos Autistas do Piauí. É fotógrafa artística/conceitual. Escreve em prosa poética, tendo publicado seu primeiro livro (Ab)Sinto, em 2024. É roteirista e dramaturga. Escreve sobre ativismo autista, desde 2014, em blogs publicados nas redes sociais. Instagram: @ana.candi

[3] Edilberto Alves da Silva é autista, defensor público federal, poeta, mestrando em antropologia. Casado, é pai de dois meninos, um deles também autista. Atua na Defensoria Pública da União, em Teresina (PI), onde reside. Instagram: edilbertoasilva

[4] Fernando Murilo Bonato é autista de fala limitada e pensamento profundo. É graduando em Filosofia na Faculdade Vicentina, em Curitiba. É escritor, com 5 livros publicados:  “Você pode ser o que quiser. Vença o impossível”; “Tudo pode se transformar quando se tem coragem. Força, determinação e vontade até o final de sua jornada”; “Verdades que podem transformar sua verdade”; “A vida pede vontade em transformar … O tempo em pertencimento”; “A força está em suas mãos. Deus é a chave da sua mente.” Instagram: @murilo_ciclistea

[5] Jailton de Sousa Veloso se apresenta artisticamente como JAVA. Nascido em Teresina, criado em Demerval Lobão – Piauí, solteiro, 42 anos. Trabalha como odontólogo, endodontista e Coordenador do Centro de Especialidades Odontológicas – CEO II, ortodontista e clínico geral em Vitale Odontologia, em Monsenhor Gil – PI. Na persona de JAVA, atua como artista multilinguagem nos campos do desenho, música, fotografia, colagem analógica e digital, poesia, conto, etc.. Foi vocalista de uma banda de garage rock. Em 2026, realizou o lançamento dos seguintes trabalhos: POEZINE – fanzine de poemas e ilustrações, e CÂMARA ESCURA – fanzine de fotografia, colagem digital e poesia, disponíveis em PDF gratuito na galeria virtual: www.artedojava.com.br

[6] Pedro de Lucena é autista não oralizado e faz uso de Comunicação Aumentativa Alternativa. É poeta, autor de Parabólicas. Em 2018, foi destaque como promessa da escrita pernambucana em coletânea da Oficina Literária Paulo Caldas. Instagram: @opoetaautista