Daniela Feriani[1]

Flávia tem 47 anos, mora em Belo Horizonte, M.G., com o companheiro Fred e o filho Joaquim. Ama ler, tocar percussão em blocos de carnaval, caminhar em áreas verdes e nadar em cachoeira.
Flávia é escritora, professora de criação literária e pesquisadora. É mestre em Teoria da Literatura e doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, faz pós-doutorado em Teoria Literária na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Publicou, até o momento, 10 livros, sendo os mais recentes Coisas presentes demais e Mineração do outro: fotografia e fabulação numa palestra-performance, ambos em 2025.
Em 2018, Flávia recebeu o prêmio Jean-Jacques Rousseau, da Akademie Schloss Solitude (Alemanha), pelo projeto Uma Mulher (livro e site de escrita expandida). Em 2010, venceu o prêmio Memória do Jornalismo Brasileiro, promovido pela Folha de S.Paulo. Na última década, tem trabalhado com pesquisas e processos no campo da palavra em diálogo com outras linguagens.
Nesta entrevista, Flávia conta em que momento se percebe como escritora, a influência da mãe no gosto pelas palavras, as principais referências literárias, sobretudo de mulheres, e o tema que vem mobilizando sua atenção – o da palestra-performance, “uma linguagem artística bastante híbrida e experimental que faz a ponte entre a arte e o conhecimento. Foi a partir deste trabalho que a fotografia, enquanto linguagem, começou a me interessar.” Nesse trânsito entre arte e literatura, escrita e performance, a autora vê a literatura como “um laboratório de experimentações com as palavras e com os textos e com as imagens.”
Entre os vários livros de Flávia, escolhi Coisas presentes demais para guiar a nossa conversa, por trazer o grande tema de minhas pesquisas em antropologia: o da demência. Com uma escrita sensível, sincera e lacunar, a neta-escritora narra a avó-personagem, mesclando cenas de infância, juventude e velhice da avó, diagnosticada com a doença de Alzheimer. Uma sobreposição de tempos – e materiais, os quais intercalam lembranças, notícias, notas autobiográficas – que nos convida a pensar nos processos de memória, doença, envelhecimento e na própria escrita como um gesto que se desdobra em busca de sentidos e afetos. “Quando comecei a escrever, e o livro mostra esse meu movimento, eu não sabia que chegaria ao lugar de admiração que cheguei. Neste sentido, por mais que achasse que conhecia minha avó, sinto que só consegui conhecê-la de verdade, entender toda a complexidade dela, ao escrever.” Como numa refração, avó e neta vão caminhando para direções opostas: enquanto uma esquece, a outra se lembra. E é nesse desvio que elas se encontram.
ClimaCom – Daniela Feriani – Como aconteceu o processo de se tornar escritora? Quando você passa a se reconhecer como tal? De que forma, enfim, a literatura entra na sua vida e como tem sido essa relação desde então?
Flávia Péret – Foi um processo longo e lento. Apesar de escrever muito desde criança, só passo a me reconhecer como escritora por volta de 2013/2014. Curioso, porque, em 2011, eu publiquei meu primeiro livro, um ensaio-reportagem sobre a imprensa gay no Brasil. Foi publicado por uma editora importante, a Publifolha, mas, mesmo com esta chancela, ainda não me sentia escritora.
A literatura entra na minha vida na infância. Minha mãe, que era professora de português e tinha uma pequena coleção de livros, lia pra mim e para os meus irmãos todas as noites. Lia, especialmente, uma coleção da Disney chamada Uma história por dia, formada por quatro volumes, um para cada estação do ano (verão, outono, inverno, primavera). Depois, minha mãe começou a trazer para casa os livros da coleção vaga-lume e também nos levava, meus irmãos e eu, frequentemente à biblioteca pública da minha cidade, Ouro Preto. Essas idas à biblioteca tinham dois objetivos: pegar livros e fazer pesquisas para os trabalhos escolares. Acho que tudo isso (a presença dos livros, a voz da minha mãe lendo pra mim na cama, a curiosidade que eles despertavam em mim, os espaços onde estavam guardados) faz parte da gênese da minha relação com a literatura. Na adolescência, esta relação se torna mais autônoma e começo, eu mesma, buscar os livros.
(leia a entrevista completa aqui)
[1] Antropóloga formada pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Atualmente, é bolsista de Jornalismo Científico (Mídia Ciência) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP, com o projeto “A demência como outro mundo possível: ações de divulgação científica” [2024/05623-0]. Email: danielaferiani@yahoo.com.br Instagram: @soproseassombros
