Entre o espanto e a ruína: poesia e respons-habilidade em O gosto amargo dos metais | Raquel Taffari Gomide
Raquel Taffari Gomide[1]
“A poesia nasce do espanto.”
(Gullar, 2012)
Poesia e respons-habilidade em O gosto amargo dos metais
Vivemos sob um novo regime climático que reconfigura não apenas o ambiente físico, mas também a maneira como percebemos e habitamos o mundo. Em diferentes regiões do planeta, eventos extremos multiplicam-se e reconfiguram nossa experiência na Terra. No Brasil, o rompimento da barragem em Mariana (2015), em Minas Gerais, tornou-se mais um marco trágico dessa nova condição. A repetição dessas catástrofes revela não apenas um mundo em ruínas, mas também uma crise de sensibilidade: uma dificuldade crescente de perceber e responder eticamente à devastação que nos cerca.
(Leia o ensaio completo em PDF)
Recebido em: 15/04/2026
Aceito em: 15/06/2026
[1]Raquel Taffari – Mestranda em Divulgação Científica e Cultural pelo Programa de Pós-graduação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (PPG/Labjor/UNICAMP). Email: taffari.raquel@gmail.com
Entre o espanto e a ruína: poesia e respons-habilidade em O gosto amargo dos metais
RESUMO: Este ensaio investiga a potência da linguagem poética diante de eventos extremos, tomando como objeto central a obra O gosto amargo dos metais (2022), de Prisca Agustoni, escrita sob o impacto do crime ambiental de Mariana (2015) em Minas Gerais, Brasil. Partindo da premissa de que a recorrência de desastres no Antropoceno gera uma “crise de sensibilidades” e a banalização da dor, argumenta-se que a literatura, ao provocar o “espanto poético”, atua como um dispositivo de respons-habilidade. Em diálogo com as reflexões de Donna Haraway e Anna Tsing, o trabalho analisa como Agustoni converte o emudecimento inicial do trauma em uma linguagem “áspera e enxuta” que desacelera a percepção e opera um descentramento antropológico, restituindo a voz a entes sacrificados como o Rio Watu. A análise de poemas selecionados demonstra como a obra desafia a indiferença informativa, funcionando como um “respirador” ético. Conclui-se que a poesia, embora não repare tecnicamente o desastre, reativa a capacidade de nos afetarmos pelas ruínas do presente, permitindo-nos “ficar com o problema” e imaginar novos modos de habitar a terra.
PALAVRAS-CHAVE: Poesia contemporânea. Antropoceno. Prisca Agustoni. Respons-habilidade. Eventos extremos.
Between awe and ruin: poetry and response-ability in O gosto amargo dos metais
ABSTRACT: This essay investigates the power of poetic language in the face of extreme events, focusing on the work O gosto amargo dos metais (2022) by Prisca Agustoni, which emerged from the impact of the environmental crime in Mariana (2015) in Minas Gerais, Brazil. Based on the premise that the recurrence of disasters in the Anthropocene triggers a “crisis of sensibilities” and the normalization of suffering, it is argued that literature, by inducing “poetic awe,” serves as a device for response-ability. Drawing upon the insights of Donna Haraway and Anna Tsing, the study examines how Agustoni transforms the initial muteness of trauma into a Revista ClimaCom, Manifesto das águas | pesquisa – ensaios | ano 12, no 28, 2025 “harsh and concise” language that slows down perception and enacts an anthropological decentering, giving voice to sacrificed entities like the Watu River. The analysis of selected poems reveals how the work resists informative indifference, acting as an ethical “breather”. The essay
concludes that while poetry does not offer technical remediation for catastrophe, it reactivates the capacity to be affected by the ruins of the present, enabling us to “stay with the trouble” and envision new modes of inhabiting the earth.
KEYWORDS: Contemporary poetry. Anthropocene. Prisca Agustoni. Response-ability. Extreme events.
GOMIDE, Raquel Taffari. Entre o espanto e a ruína: poesia e respons-habilidade em O gosto amargo dos metais. ClimaCom – Eventos extremos – parte 1 [online], Campinas, ano 13, n. 30., jul. 2026. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/entre-o-espanto-e-a-ruina/
