“Prestar atenção aos rios exige ampliar os modos pelos quais observamos e nos relacionamos com o mundo” – entrevista com o antropólogo Fernando Monteiro Camargo | Emanuely Miranda

Na relação com as águas, antropólogo Fernando Monteiro Camargo nos conta sobre sua pesquisa de doutorado e nos atualiza sobre os atuais desdobramentos dela.

Por | Emanuely Miranda

Editora | Susana Dias

 

Encontros e afetos. Essas são palavras cujas dimensões muito importam para o modo de produzir ciência que o antropólogo Fernando Monteiro Camargo reivindica e busca praticar. Um exemplo disso é sua tese de doutorado “Vida, escrita e transbordamentos: biografias e etnografia do rio Piracicaba/SP”, que foi defendida no âmbito do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com orientação da professora Daniela Tonelli Mânica.

Na ocasião, o pesquisador se desafiou a cultivar uma biografia do rio Piracicaba que desviasse dos moldes tradicionais que reproduzem binarismos entre quem escreve e quem é escrito ou, quem sabe, entre natureza e cultura. Para tanto, investiu em um atlas-biográfico que se relaciona com a materialidade e a agência do meio aquoso, que engaja imagens e outras formas artísticas de expressão, que tanto conta quanto prolifera histórias e vínculos, que imagina mundos e futuros.

Seus próprios afetos pelo rio Piracicaba foram importantes para esse cultivo. Fernando Monteiro Camargo se relaciona com as águas desde a infância e sua disponibilidade em permanecer sensível e inclinado a elas tem a ver com a potência e a ética de sua pesquisa. Nesta entrevista para a revista Climacom, ele fala sobre a tese em questão e sobre as reverberações dela. Ou melhor, sobre seus transbordamentos.

Atualmente, Fernando Monteiro Camargo faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Observatório Nacional de Segurança Hídrica e Gestão Adaptativa (INCT – ONSEAdapta), por meio do qual pratica a proposição da Mesa de Trabalho com as Águas junto à pesquisadora Susana Dias. Ele a entende como um dispositivo que cria “condições para que diferentes saberes, experiências e sensibilidades entrem em relação”.

Tudo isso ocorre como parte da Unidade Científica de Comunicação, Arte e Cultura. Uma de suas apostas tem a ver com a importância do envolvimento entre práticas artísticas e práticas científicas em um tempo de catástrofes. O trabalho de Fernando Monteiro Camargo vai exatamente nesse sentido.

Revista Climacom: Em sua tese de doutorado, você realiza o movimento de se colocar na pesquisa e assumir as histórias e os afetos que te conectam ao rio Piracicaba. Desde memórias de infância até episódios que envolvem uma materialidade da sua pele junto às águas, é possível perceber uma produção de conhecimento que não se desvencilha do corpo. Pelo contrário, parece fazer questão de engajá-lo. Para você, como pesquisador, qual a importância de uma ciência que leve tudo isso em conta?

Fernando Monteiro Camargo: Para mim, a questão de me colocar na pesquisa e trazer essa dimensão para a centralidade da produção de conhecimento é fundamental. Talvez algumas das maiores influências para essa inquietação tenham sido a leitura do Manifesto Ciborgue (1985), de Donna Haraway, os trabalhos de Tim Ingold e, também, em certa medida, as reflexões de Victor Turner sobre a dimensão da experiência. Todos eles, cada um à sua maneira, me ajudaram a perceber que pesquisar não é observar o mundo de um ponto externo e neutro, mas habitar relações, implicar-se nelas e reconhecer que todo conhecimento é experienciado e situado.

Ao mesmo tempo, eu diria que essa é uma busca permanente. E gosto de chamá-la de busca porque não acredito que exista uma forma única ou fechada de se colocar na pesquisa. Existem muitas maneiras possíveis de fazer isso, e todas elas são, inevitavelmente, incompletas. Mas entendo que a incompletude não é um problema a ser superado; ela é, na verdade, uma condição da própria pesquisa. Reconhecer os limites do que podemos conhecer e narrar talvez seja uma das formas mais honestas de produzir ciência.

No caso da minha pesquisa com o rio Piracicaba, percebi que as minhas memórias, experiências e afetos não eram algo que pudesse simplesmente ser deixado de lado. Eles são parte das relações que me conectam ao rio e, portanto, também do próprio processo de conhecimento/pesquisa. Desde lembranças da infância até experiências corporais muito concretas junto às águas, tudo isso ajudou a compor as perguntas que eu fazia e os caminhos que a pesquisa seguiu. São as minhas experiências de vida que fazem a minha pesquisa acontecer.

Mas, quando falo em experiência, não me refiro a acontecimentos empiricamente observáveis, mesmo porque, a experiência não é observável. Interessa-me a experiência como aquilo que ganha forma narrativa, como algo que passa a existir de maneira compartilhável quando é contado, lembrado e colocado em circulação, é isso que que tento fazer na minha pesquisa. Nesse sentido, uma experiência não permanece restrita à pessoa que a viveu; ela tem a capacidade de provocar novas experiências em quem narra e em quem a escuta ou a lê.

Talvez seja justamente por isso que me interessa trazer essas dimensões para a pesquisa. Quando narro uma memória, um encontro com o rio ou uma situação vivida durante o trabalho de campo, não estou apenas descrevendo um acontecimento. Estou defendendo politicamente o que deve ser narrado e criando condições para que outras pessoas se conectem àquela história a partir de suas próprias trajetórias e lembranças. Dessa forma, a experiência não aparece como evidência ou prova de um acontecimento passado. Seu valor não está em confirmar um fato, mas em abrir possibilidades de relação. A experiência funciona como um convite para que algo novo aconteça também ao outro, produzindo novas conexões, memórias e formas de atenção.

A pesquisa pode, então, criar situações de encontro, reconhecimento e afetação. As histórias que contamos têm a capacidade de deslocar percepções, despertar lembranças e produzir novos modos de atenção ao mundo. É nesse sentido que as experiências de vida não aparecem na pesquisa como ilustrações ou exemplos secundários, mas como parte constitutiva do próprio processo de conhecimento.

Dessa forma, entendo a ciência como um movimento de afetação, ou seja, como a capacidade que temos de afetar e sermos afetados pelos outros. Também a compreendo como um espaço de disputa ética e política. Essa percepção surgiu muito fortemente quando comecei a falar sobre rios em diferentes espaços. Quase sempre, ao contar algo sobre o rio Piracicaba, alguém respondia com uma história própria, uma lembrança ou algum encontro marcante com um rio. Havia sempre algo que mobilizava as pessoas. Isso me fez perceber que o conhecimento não circula apenas por argumentos ou dados; ele também circula por afetos. Acredito que é justamente nessa capacidade de mobilizar experiências, produzir encontros e criar novas sensibilidades que reside uma das potências éticas e políticas da ciência.

(Leia a entrevista completa em PDF).