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Coletar encontros

Coletivo Humanidades Ambientais (Org.)

 

 

 


 

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SOBRE O LIVRO

Fernando Camargo e Emanuely Miranda

(…) achamos por bem começar a contar uma outra história, com a qual as pessoas talvez possam seguir quando a antiga chegar ao fim” (Le Guin, 2025, p. 18).

Quem conta esta experiência? São as nossas mãos? Os textos e as imagens que produzimos? Os livros empilhados sobre a mesa? As comidas compartilhadas nos intervalos? Ou as pequenas coisas esquecidas na praça? Seriam, talvez, os vestígios, as miudezas e as persistências que insistem em nos contar sobre algo? Como narrar histórias em tempos de fim de mundos? O que ainda pode ser coletado? Que futuros se anunciam? Quem ainda pode contar algo? Quem segue contando histórias entre as monoculturas, os incêndios, a contaminação das águas, do solo e do ar?

Assumindo o Antropoceno como o tempo presente, Dipesh Chakrabarty (2013, p. 11) defende a tese de que, atualmente, os “humanos existem como força geológica”. Reconhecemos a importância de questionar a humanidade diante das mudanças climáticas, da produção de monoculturas, da contaminação de rios, do encerramento de diversidades, e assim por diante.

Mas quem é o “nós” que compõe a humanidade?

Nos interessamos por problematizar esta questão junto a Ailton Krenak (2020) e assumir que a humanidade que provoca catástrofes pode ser, na verdade, um clube composto por um grupo segmentado de humanos que universalizou sua maneira de habitar a Terra. Pode ser que esse clube se relacione com as narrativas de heróis, para as quais Ursula Le Guin (2025) nos alerta: humanos que golpeiam, cutucam, batem, conquistam e avançam em linha reta. Em contrapartida, a autora nos convoca a cultivar histórias outras, a praticar o gesto da coleta e a experimentar outro tipo de humanidade. Coletar, aqui, é desacelerar o olhar, abaixar-se diante das miudez, permanecer com os v_stíg_os, acompanhar as persistências e reconhecer que outros mundos também são tecidos por pequenos encontros.

Durante a disciplina JC 112/Turma A | Humanidades Ambientais, ministrada pela professora Susana Dias, no programa de pós-graduação em Divulgação Científica e Cultural – que pertence ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) -, experimentamos acionar as Humanidades Ambientais.

A disciplina foi um exercício de presença e composição. Montamos mesas. Sobre elas se espalharam comidas, imagens, livros, cadernos, desenhos, palavras, sementes, folhas, pedras e fotografias. Compartilhamos a leitura de textos, o olhar demorado para imagens, a feitura de desenhos, linhas, traços e outras grafias. Compartilhamos a própria sala de aula e seus encontros, os deslocamentos até o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), onde fomos recebidos pelo pesquisador Jurandir Zullo Júnior, e a experiência no ateliê Serafina da artista Valéria Scornaienchi. Entre conversas, papéis, imagens, tintas, projeções, mapas e gestos, as Humanidades Ambientais foram sendo tecidas como uma prática de atenção e de composição com diferentes saberes, seres e modos de fazer.

A partir das autorias citadas — mas também nos relacionando com outros filósofos e filósofas como Antônio Bispo dos Santos e Marisol de La Cadena — tentamos investir em práticas e pensamentos que lidavam com o fim de mundos; que produzissem relações; que se atentassem à heterogeneidade de seres, saberes e forças; que desviassem da dicotomia entre natureza e cultura; que apresentassem presentes; que proliferassem futuros.

Ao longo das aulas, sem perder as Humanidades Ambientais de vista, tudo isso foi se desdobrando em composições artísticas e filosóficas que se multiplicavam em cores e formas sobre a materialidade de um extenso papel pardo. O papel tornou-se paisagem, arquivo, mesa de encontro e superfície de experimentação.

Neste livro, buscamos conectar essas criações a escritas produzidas a partir de um exercício proposto em uma das tardes de terça-feira: após a leitura de Le Guin (2025), com sacolas em mãos, nos direcionamos à praça que fica em frente ao prédio da sala de aula com a intenção de coletar, de trazer miudezas e potências para dentro, de germinar olhares, de contar histórias que honrem uma multiplicidade de vidas, futuros, possibilidades e, quem sabe, de humanidades.

Voltamos carregando folhas secas, pedras, sementes, objetos não orgânicos, como chupetas e bitucas de cigarro; palavras, imagens, rastros, memórias e encontros. São justamente as miudezas que nos ensinam a cultivar histórias menos heróicas e mais comprometidas com a multiplicidade de vidas.

Este livro nasce dessas coletas, ou seja, de um conjunto de fragmentos, vestígios, escritas e experimentações que procuram honrar outras maneiras de narrar e de experimentar o mundo. São essas pequenas coisas — esquecidas ou perdidas na praça, guardadas nas margens, recolhidas entre ruínas — que continuam contando e produzindo histórias.

Bibliografia:

CHAKRABARTY, Dipesh. O clima da história: quatro teses. Belém: Sopro, 2013.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

LE GUIN, Úrsula K. A teoria da bolsa de ficção. Rio de Janeiro: Cobogó, 2025.

 


Organização, textos e desenhos | Coletivo Humanidades Ambientais – Alcides Moreno, Andrea Bernardelli, Bianca Cavichioli, Emanuely Miranda, Fabio Duarte, Fernando Camargo, Fernando H. Silva, Jessica Fontoura Oliveira, Jonathan Feline de Castro, Laura Lino Mendes da Cruz, Mariana Figueiredo Menezes, Marina Lee Colbachini, Maírys Quartaroli Viana, Nara Schenkel, Quel Taffari, Rayane Barbosa Kaingang, Susana Oliveira Dias e Wallace Fauth.

Revisão | Jessica Fontoura Oliveira e Wallace Fauth

Tratamento de imagens | Andrea Bernardelli

Diagramação | Fernando H. Silva, Marina Lee Colbachini e Susana Oliveira Dias

Capa | Laura Lino Mendes da Cruz

 


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