A inteligência artificial poderia reconhecer e representar desastres? | Fernando Pereira Silva

Título | A inteligência artificial poderia reconhecer e representar desastres?

O futuro está aqui e é assustador. Nossa civilização está, como indicam alguns estudos, a poucos passos de um colapso sistêmico. Não apenas do ponto de vista humano, mas, possivelmente, da aniquilação de milhões de espécies que coabitam este mundo. As ameaças são muitas: de um lado, secas, enchentes, terremotos, deslizamentos, incêndios, ondas de calor, extremos e extremos. Do outro, velhos dilemas humanos não resolvidos, como poluição, desmatamento, desperdício, desigualdade, destruição e destruição. Parece que, finalmente, o juízo final recai sobre nós. Estudos indicam que estamos próximos de atingir o ponto de inflexão de 1,5 graus na temperatura média do planeta. Isso pode significar a dissolução da pouca e desigual prosperidade de vida humana alcançada nos últimos anos, além de um desequilíbrio em cascata no meio ambiente. É razoável compreender, portanto, que aqui, o conceito de desastre é o resultado do conflito entre natureza e cultura. O modelo de desenvolvimento humano histórico culturalmente construído ainda não superou a excitação por um consumo extravagante; pelo contrário, continua estimulando. Lembro-me de sentir “ansiedade climática” quando li, há alguns anos, a notícia de que pesquisadores encontraram microplásticos nos peixes que vivem nas cabeceiras do rio Amazonas. É chocante, mas um pouco óbvio, pois os peixes costumam nadar da jusante à montante. Porém, recentemente, outra notícia da China me assustou ainda mais. Encontraram, pela primeira vez, microplástico no coração de 15 seres humanos. Diante disso, afirmo que, de todas as coisas ruins, o plástico é, de longe, a pior que já entrou no coração de alguém. Enquanto escrevo estas ideias, outro susto: cientistas japoneses acabaram de descobrir microplásticos e borracha nas nuvens do monte Fuji. A expressão “ansiedade climática” não é mais suficiente para descrever o que sinto agora. Medo parece o vocábulo justo. Mas nem tudo é desilusão. Na mesma era em que inferimos patamares inéditos de destruição de nosso amado habitat, um marco extraordinário também foi descoberto. Nossos computadores alcançaram a capacidade de gerar uma inteligência artificial geral (AGI). Por que estou falando disso? É bem simples. Na “época das cavernas”, as civilizações pré-modernas obtinham informações cruciais de forma rudimentar, mediante prenúncios feitos por oráculos, adivinhadores, profetas e mensageiros que detinham o conhecimento sobre eventos incertos ou imprevistos (Lacerda, 2023). Já em nossa época, temos o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas IPCC. Só no Brasil, em 2023, existe cerca de 1,2 smartphones por habitante, cada um transportando uma universidade em seu bolso. Podemos, hoje, operar trilhões de linhas de código de maneira tão simples quanto digitar uma frase, para criar mundos. Finalmente, acredito que a salvação do nosso autoproclamado apocalipse está na ciência e tecnologia. Possuímos uma capacidade exuberante de acesso ao conhecimento. A inteligência artificial ainda é apenas uma criança treinada com trilhões de parâmetros. Desta maneira, compreender e representar símbolos e desenhos figuram entre as primeiras lições que ensinamos a crianças. Isto posto, pergunto: quanto esta criança conhece sobre nosso mundo? Seria capaz de entender e representar desastres? Tentei responder a estas perguntas neste ensaio-experimento. Vocês decidem.

Bibliografia

LACERDA, R. S. (2023). Conceitos Elásticos da ciência dos desastres: contaminados pelo dualismo epistemológico milenar. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.


| FICHA TÉCNICA |

Imagens desenhadas com [Stable Diffusion XL & Dall-E 2]

Autor | Fernando P. Silva Geógrafo, Doutorando no Programa de Pós-graduação em Desastres Naturais UNESP/CEMADEN

E-mail | fernando.p.silva@unesp.br

São José Dos Campos | SP

Ano | 2023

 

 

 

SILVA, Fernando Pereira. A inteligência artificial poderia reconhecer e representar desastres?.ClimaCom – Desastres [online], Campinas, ano 10, nº. 25. nov. 2023. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/a-inteligencia-artificial/


 

SEÇÃO ARTE | DESASTRES | Ano 10, n. 25, 2023

ARQUIVO ARTE |