Precipitar o tempo | Lilian Maus
Título | Precipitar o tempo
(…) vive a esgotar, gota a gota,
o que o homem, de reserva,
possa ter na íntima poça.
“O Relógio”, João Cabral de Melo Neto
A carta de Porto Alegre aponta que, entre os anos de 2000 e 2024, tivemos no Brasil 122 desastres de natureza hidrometeorológica, afetando cinco milhões de pessoas e causando mais de mil mortes e perda de 1,8% do PIB. Durante as inundações de 2024, tivemos, no Rio Grande do Sul, mais de 500 mil desalojados e 175 vítimas fatais. Atravessamos a destruição das infraestruturas urbana e rural, dos sistemas de proteção em áreas de risco e vulnerabilidade, além da interrupção dos serviços básicos, vivenciando a escassez de água, de energia elétrica e de meios de transporte e de rodovias.
Os efeitos das mudanças climáticas e da crise ambiental seguem reverberando em nós. Traumas físicos e psíquicos atingiram populações que sobrevivem às adversidades, assoladas por desigualdades socioeconômicas e tensões políticas. Um ano após o desastre, seguimos na incerteza ao precipitar o futuro. Diante de um novo regime climático, estamos experimentando uma atmosfera de extremos: de um lado mergulhamos em um excesso de precipitações, inundações, deslizamentos de terra e ciclones e, de outro, presenciamos secas e incêndios florestais, que vêm nos impactando.
A filósofa Donna Haraway costuma pensar o mundo como um “tropo”, ou seja, um nó em movimento, uma espécie de “tropeço”, de “trouble” (problema). Esse emaranhado vivo está em constante transformação. Por isso não há solução milagrosa e definitiva para problemas complexos. Para enfrentar tal crise é preciso cultivar alianças de corresponsabilidade entre os saberes tradicionais e científicos. Afinal, como (sobre)viver eticamente neste mundo mortal e finito a partir de relacionamentos heterogêneos e conexões parciais?
A arte não nos dá respostas. Mas, com seus lampejos do tempo, pode antecipar desastres e provocar cataclismo, gerando mudanças de paradigma. Ao estremecer visões de mundo, a arte nos faz refletir sobre a finitude, assim como a clepsidra – relógio ancestral alegorizado pela poesia de Cabral. Com esta exposição, precipitamos imagens com uma cartografia sensível materializada em fotografias, objetos, desenhos, sons, pinturas e ilustrações digitais que transmutam as águas turvas que ainda pulsam em nós.
Lilian Maus – Professora Doutora do Instituto de Artes da UFRGS
| Ficha Técnica |
A exposição coletiva “Precipitar o Tempo” (curadoria: Lilian Maus) foi um projeto selecionado pelo edital Proext 2025 (UFSCPA), que nesta edição abordou o tema Mudanças Climáticas: ODS – 13/ONU. A mostra ocorreu de 08/09 até 10/10/2026, no Espaço de Artes da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre/RS.
Artistas Participantes | Dantara Ordovás, Katherine Avila, Luiza Schütz, Ana Carnelossi, Bibistriz, Katarine Rech, Mariana Lemmertz, Ayla Dresch, Amanda Misturini e Ana Shtl
Fotos | Mariana Lemmertz

MAUS, Lilian. Precipitar o tempo. ClimaCom – Eventos extremos – parte 1. [online], Campinas, ano 13, n. 30. jul. 2026. Available from: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/precipitar-o-tempo/
SEÇÃO ARTE | EVENTOS EXTREMOS | Ano 13, n. 30, 2026
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