Habitar a incerteza: arte e método em tempos de crise | Maíra Velho
Maíra Velho[1]
Em A Mão Esquerda da Escuridão (2015), Ursula K. Le Guin, entre tantas contribuições, traz uma que me envolveu profundamente no momento em que a lia: uma reflexão sobre o status das perguntas. No planeta Gethen, na tradição da ordem mística Handdara, as respostas não constituem o ápice do saber; cultiva-se a incerteza como prática. Ainda que por vezes associados à vidência, seus membros agem de um modo bastante diferente das concepções usuais, se recusam a prever o futuro no sentido determinista, em vez disso focam na ignorância e na contemplação do desconhecido.
Em um diálogo entre Genly Ai e Faxe, o Tecelão, este explica que a prática da vidência exercida pelos handdaratas não tem como finalidade oferecer respostas, mas sim revelar a inutilidade de se saber a resposta à pergunta errada. Há nessa concepção uma inversão decisiva da lógica ocidental do conhecimento, frequentemente orientada pela solução, pela resolução e pela clareza. A tradição Handdara desloca o centro do saber, o conhecimento deixa de se organizar em torno da resposta, para se concentrar na capacidade de manter em aberto perguntas cuja formulação ainda está em processo.
Foi a partir desse encontro literário que uma inquietação se instalou em minha própria prática de pesquisa. No momento em que lia o romance de Le Guin, cursava a disciplina de metodologia de pesquisa no Doutorado em Artes Visuais. Curiosamente, a primeira atividade proposta consistia em responder às questões de pesquisa de nossos colegas com novas perguntas, ou seja, perguntar às perguntas.
(Leia o ensaio completo em PDF)
[1] Doutoranda em Poéticas Visuais do PPGAV-IA/UFRGS. Email: mairacvelho@gmail.com
Habitar a incerteza: arte e método em tempos de crise
RESUMO: Este ensaio investiga a pergunta como gesto ético, estético e político ao aproximar literatura e metodologia, articulando elementos da ficção especulativa com a prática acadêmica. Inspirado no romance A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin, o texto examina o papel das perguntas na produção do conhecimento. Em um contexto marcado pela pressa em produzir respostas e soluções, busca-se compreender a dúvida como método e como forma de engajamento com o mundo. Em diálogo com autoras como Donna Haraway, Isabelle Stengers e Anna Lowenhaupt Tsing, discute-se a arte como prática especulativa capaz de habitar a incerteza e imaginar modos de vida nas ruínas. Nesse sentido, sustentar perguntas apresenta-se como um modo de pesquisar, criar e viver em tempos de crise.
PALAVRAS-CHAVE: Pergunta. Incerteza. Poéticas Visuais. Arte. Crise.
Habitar la incertidumbre: arte y método en tiempos de crisis
RESUMEN: Este ensayo investiga la pregunta como gesto ético, estético y político al aproximar literatura y metodología, articulando elementos de la ficción especulativa con la práctica académica. Inspirado en la novela La mano izquierda de la oscuridad, de Ursula K. Le Guin, el texto examina el papel de las preguntas en la producción del conocimiento. En un contexto marcado por la prisa por producir respuestas y soluciones, se busca comprender la duda como método y como forma de compromiso con el mundo. En diálogo con autoras como Donna Haraway, Isabelle Stengers y Anna Lowenhaupt Tsing, se discute el arte como práctica especulativa capaz de habitar la incertidumbre e imaginar modos de vida en las ruinas. En este sentido, sostener preguntas se presenta como un modo de investigar, crear y vivir en tiempos de crisis.
PALABRAS CLAVE: Pregunta. Incertidumbre. Poéticas Visuales. Arte. Crisis.
VELHO, Maíra. Habitar a incerteza: arte e método em tempos de crise. ClimaCom – Eventos extremos – parte 1 [online], Campinas, ano 13, n. 30., jul. 2026. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/habitar-a-incerteza/
