Valdir Pierote Silva | A África não cabe em uma forma: uma crítica de Karo Akpokiere à Europa colonial


 Valdir Pierote Silva[1]

 

Introdução

O artista nigeriano Karo Akpokiere, nascido em Lagos, em 1982, tem se destacado pela criação de visualidades que problematizam formas de relação entre os continentes africano e europeu. Com forte influência do design gráfico e com evidente intenção de se endereçar a grupos com os mais diversos repertórios, o artista apropria-se de signos cotidianos da religião, da política, da publicidade e do grafite, além de recorrer a fragmentos da sua história ou a narrativas contadas por outras pessoas para sublinhar discursos e práticas coloniais insidiosos. Com isso, ele revela a grave incapacidade ocidental para conviver com a África sem utilizar uma grade de inferiorização e sem conseguir se desprender de autorreferências restritas.

Tomando como material de estudo uma carta ficcional da Europa para África, que faz parte da obra Zwischen Lagos und Berlin e foi produzida por Akpokiere em 2015, buscamos com este artigo discutir elementos da invenção colonial de uma “ideia de África” (MUDIMBE, 2013) homogênea, comunal e estática, insistentemente forjada como duplo-oposto do Ocidente.

 

Uma carta à África

Karo Akpokiere construiu a obra que nomeou de Zwischen Lagos und Berlin com 25 pares de desenhos, emoldurados em pequenas dimensões e pintados com guache, acrílica, caneta e tinta. Talvez o artista tenha escolhido esse título valendo-se da sua atual condição de residência, dividida entre sua cidade natal, Lagos, e Berlim, na Alemanha. Por meio de tal produção, ele produziu uma espécie de livro de artista cujas páginas foram enquadradas e expostas em sequência e cuja materialidade é uma mixagem de formatos como cartas, perguntas, cartões postais e história em quadrinhos.

Figura 01Figura 1 – Zwischen Lagos und Berlin na 56ª Bienal de Veneza.  Fonte: Karo Akpokiere – Site do artista

 

Zwischen Lagos und Berlin foi inicialmente exposta na 56ª Bienal de Veneza, em 2015, e, no Brasil, participou do 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, em novembro de 2017, no SESC Pompeia (São Paulo – SP). Nessa última ocasião, a obra foi organizada de modo similar à retratada na figura 1: uma parede branca com os quadros ordenados em linha reta, alinhados na altura dos olhos. Um tipo de arranjo que contrastava com o emaranhado de frases, números, desenhos, símbolos e textos em inglês e alemão presente nos pequenos quadros. 

Entre os 50 quadros de Zwischen Lagos und Berlin, havia uma epístola endereçada à África, tendo a Europa como remetente, cuja imagem e texto serão os pontos articuladores deste artigo. Na figura 2, é possível observá-la e, abaixo, segue sua versão textual em português: 

Querida África, 

Sei que você não é um país. O mais importante, no momento, é que você me ensine o que significa ser aberta, menos egoísta e possuir mentalidade comunitária. 

Minha absorção em mim mesma, minha mente fechada e fascinação pelo individualismo deixaram-me deprimida. Eu posso te organizar uma visita, mas preciso que assine compromisso de que vai embora logo após me fornecer o que necessito. Eu infelizmente preciso do meu espaço e tempo. Aguardo sua visita com ansiedade. 

Assinado: Europa

Figura 02Figura 2 – Zwischen Lagos und Berlin, Dear Africa. Fonte: Karo Akpokiere – Site do artista.

 

A escolha da forma para o documento da imagem não é banal, pois o artista recorre a uma carta com caráter de comunicados e mensagens que não requerem respostas. Como se a África fosse reservado apenas o lugar de receptor passivo da enunciação, sem possibilidade de réplica ou de interlocução. Um regime de comunicabilidade no qual um fala e o outro escuta, para obedecer. 

Além da dimensão formal do texto, há também o conteúdo, cuja substância tensiona várias dimensões transversalmente. Em primeiro plano, evidencia-se uma tentativa de ficcionar formas de vida identificáveis e absolutas para cada continente: uma Europa individualista e uma África comunal: “o mais importante, no momento, é que você me ensine o que significa ser aberta, menos egoísta e possuir mentalidade comunitária”. Percebe-se uma vinculação da África a um comunalismo indistinto, tornado impossível pensar em individualidades africanas, em pessoas, coletivos e ações que possam ser reconhecidos em suas singularidades. 

Tal compreensão restrita e homogeneizadora das diversas Áfricas  ainda é muito comum nas discussões e tentativas de catalogação da arte africana, campo onde recorrentemente objetos clássicos, com grande sofisticação formal, são enquadrados em classificações vagas ligadas a grupos étnicos, a um país ou mesmo ao continente: estatuetas Yorubas, arte Maconde, objetos Dogon, máscaras do Gabão, estamparia africana… Raramente a autoria de um artista específico, ou de ateliê particular, é acionada, uma vez que o interesse vincula-se sobretudo a lugares do estritamente comunal, signo elementar do que é considerado tribalismo. 

Para Bevilacqua, existe uma persistência do “olhar etnográfico” em relação à arte africana e isso produz uma

[…] ênfase no uso e na funcionalidade do objeto de arte africana contribui exatamente para encobrir a autoria do artista e alimentar cada vez mais a crescente indústria da chamada “arte de aeroporto”, cujos produtores, por conta de uma intensa demanda de turistas, se preocupam menos com o estilo e padrões estéticos e muito mais em forjar um uso ou uma antiguidade dos objetos […]. Além disso, essa insistência na funcionalidade do objeto acaba por reforçar a ideia de sociedades africanas primitivas e estáticas, ideia está já há séculos cristalizada na mentalidade dos ocidentais (BEVILACQUA, 2012, p.73). 

Essas formas de definição da África parecem se constituir como operação instrumental para impedir sua agência no contemporâneo, coeva ao tempo e ao espaço de todo o mundo. 

Trata-se de uma série de fabulações criadas ao longo do desenvolvimento da modernidade que, segundo Mbembe (2014), é um período no qual o continente tornou-se sinônimo de “negro”, num processo de territorialização da biologia e racialização da geografia. 

África propriamente dita – à qual acrescentaria o Negro – só existe a partir do texto que a constrói como ficção do outro. […] Por outras palavras, África só existe a partir de uma biblioteca colonial por todo o lado imiscuída e insinuada, até no discurso que pretende refutá-la, a ponto de, em matéria de identidade, tradição ou autenticidade, ser impossível, ou pelo menos difícil, distinguir o original da sua cópia e, até, do seu simulacro (MBEMBE, 2014, p. 166).

Configura-se, desse modo, um mecanismo necessário para o estabelecimento da alteridade europeia que, em grande parte, se ancorou na projeção da África como seu grande outro, um duplo-oposto. Nas palavras de Jean-Loup Amselle (2005, p.72), “o Ocidente, ao africanizar seus próprios impulsos, estabeleceu um espelho para a África, um espelho no qual os africanos agora são forçados a se inscrever”[2]

Vale lembrar que, no início, a carta criada por Akpokiere aciona um irônico “sei que você não é um país”, que parece reconhecer a existência de um maquinaria de homogeneização contra o continente africano, recorrentemente retratado como um grande bloco monolítico vinculado às guerras, à miséria e a exotismos cristalizados no tempo (KALY, 2001; MUNANGA, 2007). O que a Europa parece “esquecer”, por outro lado, é que a sua própria constituição advém daí, da transformação do seu localismo em universal por meio da exotificação e contraste entre diferenças culturais. 

De modo subjacente, ainda se revela na carta o forjamento de certa feminilidade estereotipada e dissimulada, por parte da Europa, quase em termos vitorianos. Por meio dessa performance discursiva, o continente europeu parece ensejar o apagamento do caráter violento, nos moldes de uma masculinidade opressora, característica do processo de colonização. Como lembra a escritora moçambicana Pauline Chiziane, “o colonialismo é masculino. O macho agressor invade. Penetra no mais profundo da intimidade, de armas em riste, agride e mata, como um violador de mulher em uma estrada deserta” (CHIZIANE, 2018, p. 15). Com efeito, recorrendo a uma delicadeza falsa, a caricata Europa de Akpokiere parece colocar em jogo uma política do apagamento, num esforço para diluir a agressividade da colonização em um discurso ameno e protocolar. 

Entre muitas coisas, a carta da Europa para África criada por Akpokiere para integrar Zwischen Lagos und Berlin tensiona a ideia de que, para poder imaginar o futuro, é necessário romper com essas caricaturas instrumentais tão fortemente arraigadas no pensamento colonial e em sua vasta biblioteca (MUDIMBE, 2013). Nessa direção, parece urgente produzir uma reepistemologização do mundo, não mais baseada na hierarquia de saberes e culturas, expressa na tentativa de dominação de uma perspectiva local sobre as demais, mas, sim, na coabitação e afirmação de diferenças.

 

A multiplicidade africana não cabe em uma forma

Para Felwine Sarr (2018, p.33), “a ocidentalização da África desenvolve-se a partir da colonização: idiomas oficiais, sistema educacional, administração, organização econômica e instituições foram adquirindo formas ocidentais […]”[3]. Contudo, com as diversas lutas anticolonialistas e com um certo esgotamento da modernidade europeia, essa ocidentalização tem sofrido importantes desconstruções, especialmente no campo das artes. 

As artes do contemporâneo africano vêm se inscrevendo como um forte, efervescente e multifacetado universo estético, que se potencializa na multiplicidade das inúmeras Áfricas, as quais, por sua vez, não cabem em moldes, formatos predeterminados ou espelhos forjados por outrem. Contudo, o desafio que se adensa é a necessidade de criar formas que rompam com dependências, pois 

[…] não basta apelar ao Ocidente para que mude os seus velhos hábitos, ou tente provar ao Ocidente o significado daquilo que a África realizou. O que precisamos, pelo contrário, é um corpo de novas ideias filosóficas capazes não só de denunciar e de pôr em causa a desumanidade da visão eurocêntrica, como também de apresentar uma nova visão da modernidade, de maneira a que se torne num instrumento de libertação da humanidade, não só em África como universalmente  (ARAEEN, 2003, s/p, grifo nosso).

Nesse sentido, enquanto o Ocidente detiver o monopólio da definição do que seja arte, as criações de artistas atuais do continente, mesmo com grande vivacidade interna, enfrentarão dificuldades em se impor no sistema hegemônico de valorização simbólica. É preciso, pois, ultrapassar a historiografia da arte institucionalizada, de bases coloniais, uma vez que se configura como narrativa que enquadra as expressões africanas em contornos estreitos, insuficientes e exógenos, além de minimizar lógicas suprematistas ainda vigentes. 

A carta criada por Karo Akpokiere em Zwischen Lagos und Berlin mobiliza a necessidade de retomar o controle das condições e possibilidades de criar vida em interrelação, mas sem dependências, e lutar pela abertura de novos horizontes, para que o mundo por vir não seja uma reedição piorada do presente. Os artistas africanos precisam, pois, ter o direito de constituir seus próprios parâmetros e, a partir deles, compor com outros tantos, na difícil tarefa que é pensar as questões contemporâneas e imaginar futuros que não tenham sido capturados e transformados em formas de vida preestabelecidas. 

 

Referências

AMSELLE, J. L. L’art de la friche: essai sur l’art africain contemporain. Paris: Flammarion, 2005.

ARAEEN, R. Modernidade, modernismo e o lugar da África na história da arte da nossa época. Artafrica, 2003. Disponível em: <http://artafrica.letras.ulisboa.pt/uploads/docs/2016/04/18/5714e55386704.pdf>. Acesso em: 28 out. 2018. 

BEVILACQUA, J. R. S. Na Presença dos Espíritos: Arte africana em perspectiva. In: ARAUJO, E. (Org.). Os Mágicos Olhos das Américas São Paulo: Museu Afro Brasil, 2012. p.66-73.

CHIZIANE, P. Sobre caderno de memórias coloniais. In: FIGUEIREDO, I. Cadernos de memórias coloniais. São Paulo: Todavia, 2018. p.13-19. 

KALY, A.P. O Ser Preto africano no «paraíso terrestre» brasileiro. Um sociólogo senegalês no Brasil. Lusotopie, n. 8, p. 105-121, 2001. 

KARO AKPOKIERE. [site]. Disponível em: <https://www.karoakpokiere.com/Venice-Biennale-Zwischen-Lagos-und-Berlin>. Acesso em 28 de outubro de 2019. 

MBEMBE, A. Crítica da Razão Negra. Lisboa: Antígona, 2014. 

MUDIMBE, V. Y. A ideia de África. Mangualde; Luanda: Edições Pedago; Edições Mulemba, 2013. 

MUNANGA, K. O Que é Africanidade. Revista Biblioteca Entrelivros. São Paulo, n. 6, ed. esp., p. 8-13, 2007. 

SARR, F. Afrotopia. Madrid: Catarata, Casa África, 2018. 

 

Recebido em: 25/11/2019

Aceito em: 05/12/2019

 

[1]Mestre em Estética e História da Arte pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo (São Paulo-SP). E-mail: v.pierote@yahoo.com.br
[2]No original, leia-se: “L’Occident, en africanisant ses propres pulsions, a tendu un miroir à l’Afrique, miroir dans lequel les Africains sont aujourd’hui contraints de s’ inscrire”.
[3]No original, leia-se: “La occidentalización de África está em marcha a partir de la colonización: lenguas oficiales, sistema educativo, administración, organización económica y instituciones han adquirido formas occidentales […]”.

A África não cabe em uma forma: uma crítica de Karo Akpokiere à Europa colonial

 

RESUMO: O artigo discute elementos presentes em uma carta ficcional, remetida à África pela Europa, criada pelo artista Karo Akpokiere, no contexto da sua obra Zwischen Lagos und Berlin. Esse trabalho destaca a insistência de um pensamento colonial europeu em fixar o continente africano em um formato com contornos comunais, estáticos no tempo, e incapazes de sustentar singularidades ou de operar no contemporâneo. A partir disso, busca-se romper com parâmetros ocidentais autocentrados, além de afirmar o direito africano de criar seus próprios referenciais.

PALAVRAS-CHAVE: África. Arte. Arte Contemporânea Africana.


Africa cannot be fitted into a form: Karo Akpokiere’s critique of colonial Europe

 

ABSTRACT: The article discusses elements present in a fictional letter sent to Africa by Europe, created by the artist Karo Akpokiere, in the context of his work Zwischen Lagos und Berlin. This work highlights the insistence of a European colonial thought to fix the African continent in a format with communal contours, static in time, and unable to sustain singularities or operate in the contemporary. From this, we seek to break with self-centered western parameters, as well as affirm the African right to create its own frameworks.

KEYWORDS: Africa. Art. Contemporary African Art.


SILVA, Valdir Pierote. A Africa não cabe em uma forma: uma crítica de Karo Akpokiere a Europa Colonial. ClimaCom – Povos Ouvir : A Coragem da Vergonha [Online], Campinas, ano 6,  n. 16,  Dez.  2019. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/valdir-pierote-silva-a-africa-nao-cabe-em-uma-forma-uma-critica-de-karo-akpokiere-a-europa-colonial