Uma crônica fantástica | Mariana Vilela Leitão


Mariana Vilela Leitão[1]

 

Ela, a mãe, parou perplexa diante do choro imanente de seu infante. O que ela não estava vendo, que se mostrara tão claro aos olhinhos de seu filho? Agachou-se, e na mesma altura os olhos se encontraram, os dela ainda surpresos e, os dele, inundados. Convidou-o a pegar um a um os objetos que outrora havia disposto em rica composição: pau, pedras e planta. O dorso da mão esquerda limpou o catarro que lhe escorria do nariz e com os dedinhos da outra mão começou a reorganizar novamente os elementos, só que agora diferente. Diferente?

A criança como instrumento (im)preciso de um sempre devir, que torna manifestante a vida em pulso de movimento, contrária à reprodutibilidade e em direção ao acaso. O acaso submetido às forças do caos criativo. 

– Mãe, você não vê nada aqui? 

– Nada mesmo… a não ser pau, pedras e planta, porque tudo o que é, eu vejo, meu filho.
Sim, ela via na concretude do cotidiano a lógica da existência para a subsistência. Madrugava todos os dias, mesmo aos fins de semana, trabalhava num supermercado 24h, saía de casa ainda noite, deixava a mesa posta, o café passado. O dia inteiro ela transitava pelas gôndolas da loja e via os produtos em falta para fazer novos pedidos, conferir o estoque e remanejar itens que eram devolvidos, uns estragados e outros com defeito. No fim do expediente saia apressada, pegava condução lotada, chegava em casa com a cabeça na janta, ainda para preparar, e tantas outras demandas da casa. A casa era seu refúgio, abrigo de suas pálidas lembranças. Morava naquela casa desde seus tenros cinco anos. Já havia corrido muito por aquela sala, quartos e corredores. A mesa que agora era depositária do inventário do filho já fora morada de sonhos e imaginações, gostava de se deitar em baixo dela com seu travesseiro e, quando coberta, abria seu território mágico para recriação de novos mundo (Leia o ensaio completo em PDF).

 

Recebido em: 30/07/2020

Aceito em: 30/08/2020

 

[1] Artista multimídia: tem o corpo, a linha e a escultura social como foco de pesquisa. Graduada em Letras Português\Espanhol. E-mail: nnanavl@gmail.com. 

 

Uma crônica fantástica

 

RESUMO: Dada a inevitabilidade de alguns encontros (d)esestruturantes com as crianças, as mesmas convocam uma desintegração de nós mesmos, abrindo-nos ao novo. Essa crônica, em forma de ensaio, busca trazer uma lufada da rica vivência e aporte teórico durante a experiência vivida na disciplina Arte, Ciência e Tecnologia, desenvolvida no LABJOR/UNICAMP. Buscamos caminhar ora como escuridão, ora como vaga-lume, atuar ora como veneno, ora como remédio. Certamente o segredo está na dosagem. O que a mãe não vê? À medida em que ela é conduzida pelo seu devir-criança, abre-se uma nova possibilidade de visão. Somos a mãe, a criança? Ou somos ambos? 

PALAVRAS-CHAVE: Devir-criança. Remédio. Dosagem.

 

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A fantastic chronicle

 

ABSTRACT: Given the inevitability of some (d)estructuring meetings with children, they call for a disintegration of ourselves, opening us to the new. This chronicle, in the form of an essay, seeks to bring a breath of rich experience and theoretical contribution during the experience lived in the discipline Art, Science and Technology, developed at LABJOR/UNICAMP. We seek to walk sometimes as darkness, sometimes as firefly, sometimes as poison, sometimes as medicine. Certainly the secret is in the dosage. What doesn’t the mother see? As she is led by her child-derivative, a new possibility of vision opens up. Are we the mother, the child? Or are we both?  

KEYWORDS: Devir-child. Medicine. Dosage.


LEITÃO, Mariana Vilela. Uma crônica fantástica. ClimaCom – Devir Criança [Online], Campinas, ano 7,  n. 18,  Set.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/uma-cronica-fantastica-mariana-vilela-leitao