ANO 05 - N12 - "Dialogos do Antropoceno" ISSN 2359-4705

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Bioluminêscencias

TÍTULO: Bioluminescências


 

“Pois poderia ser que a imagem fosse do reino animal… é sem dúvida muito certo: remete ao profundo mecanismo da memória de espécie, e a memória de espécie é algo comum entre todas as espécies, incluída a espécie humana”, Deligny (2007).

RESUMO: Bergson nos lembra que somos imagens entre imagens e Deligny nos reitera que fazemos parte do mesmo reino que elas. Só podemos, então, conceber o cinema como uma etologia poética, uma arte e uma ciência dos afetos, dos encontros entre os corpos mais heterogêneos. Fazer cinema, como práxis simpoiética (Haraway, 2016) que, imanente à própria vida, não tem nem fim nem começo, mas é puro meio que a faz proliferar. Isto é: cinema como processo generativo, onde o filme como objeto acabado já não tem lugar. Só se passa e, como a vida, não pode se passar só pelo celulóide, pela tela, mas por qualquer superfície de contato onde as sonoridades e visualidades possam se tramar, por onde suas intensidades que vão para além do audível e do visível possam se compor e recompor, dobrar e desdobrar como matéria-prima da vida. A escrita e a folha de papel como superfície de passagem já são um modo de fazer cinema, como processo generativo de vida, de modos de existência inorgânicos que conseguem respirar no papel. Um pensamento-cinema que vai avançando por interseções de interseções, heterogêneses onde é imperativo afirmar o encontro com tudo aquilo que nos dê mais intimidade com o mundo e com a vida, que instaure uma vibração constante de toque vital. É por isso que esta etologia poética se desbobra inevitável e simultaneamente em uma bio-química-física e uma cinematografia, dobras oscilantes e imbricadas onde ciência e arte se encontram transversalmente para fazer proliferar no papel a fulguração de uma vida nova, que aqui chamamos de bioluminescências.

Susana Dias e Sebastian Wiedemann

Grupo multiTÃO e Orssarara Ateliê

 


 

Vídeo

Esta leitura performática do texto “Bioluminicências” se compôs com sobreposições de fragmentos do filme “Dog Star Man”, de Stan Brakhage, e aconteceu como parte do Minicurso “Fazendo corpo com ecologias de práticas experimentais”, vinculado às atividades da revista ClimaCom e ministrado por Susana Dias e Sebastian Wiedemann, do grupo de pesquisa-criação multiTÃO (Unicamp) e do Orssarara Ateliê, nos dias 21 e 22 de maio de 2018, na Universidade Federal do Paraná (UPFR), em Curitiba, como um dos Encontros Indisciplinares do SPECIES – Núcleo de Antropologia Especulativa. O texto “Bioluminicências”, ainda no prelo, será publicado a modo de prefácio em “Ciência em foco, vol. 3: cinema, cultura e pensamento”, organizado por Gabriel Cid de Garcia e lançado pela editora Garamond.

Este filme não tem fins lucrativos. Ele serve para divulgação do trabalho de Susana Dias e Sebastian Wiedemann, do trabalho de seus grupos (ClimaCom, multiTÃO e Orssarara Ateliê), bem como do trabalho de nosso grupo, o species-NAE.

Concepção, execução, som e texto: Susana Dias e Sebastian Wiedemann

Leitura: Susana Dias

Organização do evento: species-NAE

Edição, filmagem e montagem: Maurício Pitta (species-NAE)

Sobre o species-NAE Partindo da ideia de Juan José Saer de que a literatura é uma antropologia especulativa, o species – NAE, da UFPR, criado no início de 2015, está voltado à pesquisa e debate interdisciplinares entre literatura, antropologia, filosofia e história, entendendo-as como especulações sobre a espécie e os povos humanos e seus contatos e devires com outras espécies e povos não-humanos. O grupo organiza reuniões de discussão de textos teóricos e apresentação das pesquisas dos integrantes, além de preparar a edição da revista species.


Minicurso | Fazendo corpo com ecologias de práticas experimentais

Imaginamos este espaço de encontro como um portas abertas do laboratório-ateliê que levamos adiante entre o grupo de pesquisa-criação multiTÃO (Labjor-Unicamp) e o Orssarara Ateliê. Um abrir as portas para a cozinha de nossos processos de criação que na interseção de afetos advindos de práticas singulares das artes, ciências e filosofias, isto é, advindos de ecologias de práticas experimentais, apostam na emergência de novos modos e lógicas de pensamento que se instauram no plano do sensível, como aquele plano onde se faz corpo com o mundo e o cosmos. Esta proposição de re-existência ecoa com os imperativos que a atual crise socioambiental nos impõe. Para nós, um chamado a abrir o humano a uma condição de operador anônimo entre processos de co-criação e co-evolução do mundo. Isto é, de imanência com o mundo, onde cada gesto é um ato de fazer corpo, é uma prática que engravida o mundo a partir de fabulações especulativas onde cenários outros são experimentados. Todo um apelo à experiência pura que William James reclamava, onde não há lugar para dicotomias, onde todo movimento deve ser ao uníssono teórico e prático envolvendo todas as potências do corpo, que certamente não passam só pelo cérebro, mas também pelas mãos. Abrir plasticidades no e do pensamento, que sejam mais dignas da propensão dos movimentos do mundo, que sejam mais maleáveis as modulações e individuações do vivente. Como fluxo vital o pensamento, não pode só passar pela escrita e o discurso, ele vaza, transborda e deve se abrir a uma heterogeneidade de meios, procedimentos e práticas. Heterogeneidade que queremos compartilhar com vocês ao apresentar alguns dos projetos de intervenção e criação que temos desenvolvido. Estes projetos abrem vários campos problemáticos que vão da pergunta por ontologias outras ao tensionamento do que pode a pesquisa dentro da universidade, quando esta se pergunta por um efetivo corpo a corpo com o mundo, por processos de imediação, onde o humano como potência de acontecimento se experimente a si mesmo de modos impensados e que implicam, sem lugar a dúvida, sua abertura a novas práticas que o tirem do seu hábito de humano demasiado humano. Um fazer corpo com ecologias de práticas experimentais que nos ajudem a lembrar da potência do humano antes deste se saber humano, que nos ajudem a reativar a nossa potência de composição e compostagem com o mundo.

 

Minicurso realizado por Susana Dias e Sebastian Wiedemann nos dias 21 e 22 de maio de 2018, na Universidade Federal do Paraná (UPFR), em Curitiba, como um dos Encontros Indisciplinares do SPECIES – Núcleo de Antropologia Especulativa.

Programação:

21 de maio (Anfiteatro 1000 do edifício D. Pedro I)
14h-17h Apresentação dos projetos:
– “(a)mares e ri(s)os infinitos: um encontro-ação: preparos e ensaios com a catástrofe” | evento + livro + filme + artigo
– “Cenários Especulativos + Derivas da Catástrofe” | oficinas I, II, III, IV | desenhos  + mapas + fotografias + livro-objeto + áudios/performance 

 22 de maio (Anfiteatro 1000 do edifício D. Pedro I)
14h-17h Apresentação dos projetos:
– “Fractosferas: dobras entre nuvens, árvores e pedras” | álbum + carta de nuvens + fotolivro + animações
– “Imediações Aberrantes” | evento

Projeto Revista ClimaCom: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/

 

 

 

 

 

 

PITTA, Maurício. Bioluminescências – Susana Dias e Sebastian Wiedemann (vídeo). ClimaCom – Diálogos do Antropoceno [online], Campinas, ano.  5, n. 12. Ago. 2018 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=9540


 

SEÇÃO LABORATÓRIO-ATELIÊ |DIÁLOGOS DO ANTROPOCENO |Ano 5, n. 12, 2018

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