ISSN 2359-4705

CHAMADA | OUTRAS EDIÇÕES | ENGLISH


Inventar novas articulações entre estudos e problemas é desafio da Rede CLIMA

Co-criação, colaboração e interdisciplinaridade na interface entre ciência e políticas públicas das mudanças climáticas são temas de debate entre pesquisadores em evento no interior de São Paulo

Por Meghie Rodrigues

Pesquisadores da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede CLIMA) avaliam que considerar, nas modelagens climáticas, apenas as variáveis físico-geográficas não é mais suficiente para abarcar a complexidade das alterações do clima e as projeções de cenários futuros A questão foi um dos temas em debate na 5ª reunião de Coordenadores da Rede CLIMA, realizada nos dias 30 e 31 de outubro na sede do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em São José dos Campos (SP).  Gustavo Gonçalves, pesquisador do Inpe, conta que o Modelo Brasileiro do Sistema Climático Global (BESM, na sigla em Inglês) integra variações na atmosfera, superfície e oceanos para simular os efeitos que as alterações na temperatura global podem ter no futuro. Entretanto, segundo ele, o modelo ainda trabalha com dados da demografia atual e, para aumentar sua precisão, é necessário que a demografia seja dinâmica. “Este é um desafio que nenhum centro de pesquisa do mundo conseguiu responder ainda”.

As potencialidades da pesquisa em rede, da interdisciplinaridade e da criação em conjunto também marcaram as discussões da reunião no Inpe e mostram que, aqui e em outros lugares do mundo, estes são elementos de base na pesquisa das mudanças climáticas.

DSC_0282

Oficina do grupo multiTÃO (Labjor-Unicamp) realizada com o grupo de bordadeiras “Entrefios Memórias” do Casarão do Barão, em Campinas – SP – Veja o ensaio completo na seção de arte

 

E tais noções estão em circulação há algum tempo. Em 2006, Marco Janssen, Michael Schoon, Weimao Ke e Katy Börner, pesquisadores das universidades do Arizona e de Indiana, nos Estados Unidos, estudaram como 2286 papers publicados entre 1995 e 2005 tratam resiliência, vulnerabilidade e adaptação enquanto elementos das mudanças no clima. Uma de suas conclusões foi a percepção de uma crescente transdisciplinaridade na área e alguma diferença na abordagem destes três elementos: enquanto os estudos sobre resiliência se apoiavam majoritariamente sobre modelos teóricos da ecologia e da matemática, os que lidavam com vulnerabilidade e adaptação tinham foco maior em estudos de caso em geografia e desastres naturais e na pesquisa sobre mudanças climáticas. A heterogeneidade nas redes de pesquisa teve e tem, reiteram os autores, papel fundamental na integração entre domínios diversos do conhecimento.

Também vale lembrar que desde 1990 existe o Programa Internacional de Dimensões Humanas em Mudanças Ambientais Globais (IHDP, na sigla em Inglês), gestado pelo Conselho Internacional de Ciências Sociais (ISSC, na sigla em Inglês) e gerido em parceria com a ONU e com o Conselho Internacional pela Ciência (ICSU, na sigla em Inglês). Com duração até junho de 2014, o Programa, sediado na Universidade das Nações Unidas (UNU) em Bonn, na Alemanha, abrigou dez projetos interdisciplinares (com abrangência que vai de saúde a transporte e usos da terra, passando por governança e segurança alimentar) e envolveu 1724 pesquisadores em 176 organizações sob três eixos principais, girando em torno da mobilização das Ciências Sociais, da conexão entre ciência, políticas públicas,  educação e treinamento.

Por aqui, três projetos integrativos da Rede CLIMA (envolvendo segurança hídrica, energética e alimentar; as dimensões humanas das mudanças climáticas; e, também, modelagem de cenários futuros) pretendem abordar o desafio representado por esta transversalidade entre diversos domínios. Para o coordenador da Rede, Paulo Nobre, a heterogeneidade entre áreas e grupos de pesquisa envolvidos representa uma oportunidade de trocas ricas para a proposta de integração entre as quinze sub-redes de pesquisa que compõem a Rede CLIMA.Ao pensar estas questões, a Rede CLIMA busca fazer o que cada uma das sub-redes sozinha não poderia fazer, que é, segundo ele, “desafiar paradigmas estabelecidos pelas forças da sociedade”.

Além disso, Nobre acredita que com mais sinergia entre as sub-redes de pesquisa, o Brasil pode tornar-se capaz de oferecer uma contribuição de maior peso no debate global sobre as mudanças climáticas. “As questões energética e ambiental têm impacto na economia, mas a dimensão principal da questão é política, que se torna ainda mais premente em um sistema democrático, feito de várias vozes”, observa.

Para Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o conhecimento é um insumo importante para informar tomadores de decisão. E considera que “políticas públicas embasadas no melhor conhecimento têm a maior probabilidade de serem efetivas”. E o melhor conhecimento, pondera ele, resulta de um processo de produção e co-criação que é mais potente quando compartilhado entre cientistas e formuladores de políticas públicas.

Um bom exemplo desse funcionamento é o Future Earth, plataforma interdisciplinar coordenada por agências do sistema ONU, Organização Meteorológica Mundial, ISSC e ICSU. O principal objetivo é agregar geração e compartilhamento de conhecimento em sustentabilidade, desenvolvimento global e meio ambiente entre cientistas, sociedade civil e esfera política. Iniciativas como esta se proliferam mundo afora e mostram que a possibilidade de mudança cultural pode não estar tão longe quanto se pensa – mesmo aqui no Brasil. Carlos Nobre conta que traços desta mudança têm se manifestado por aqui principalmente em resposta aos últimos desastres naturais ocorridos no país. O que acontece nestes encontros entre cientistas e tomadores de decisão, segundo o secretário “é um exercício de linguagem em que um grupo interage produtivamente com o outro no trabalho conjunto”. Impulsionar esta mudança cultural é ainda, para Carlos Nobre, um dos papeis mais importantes que a Rede CLIMA se coloca. “É uma das redes de pesquisa mais importantes do MCTI e do Brasil e já conseguiu articular diferentes comunidades para trabalhar em metodologias e políticas públicas”, reitera.