ISSN 2359-4705

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Isabelle Stengers : “A esquerda, de maneira vital, tem necessidade de que as pessoas pensem”

Entrevista realizada por Pierre Chaillan, publicada originalmente no jornal parisiense L’Humanité, em 15 de julho de 2013, dentro da série Pensar um mundo novo.

 

Isabelle Stengers seguiu primeiramente uma formação científica. Os trabalhos dessa físico-química incidiram sobre o tempo e a irreversibilidade. Com o físico belga de origem russa Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química, ela coescreveu, em 1979, La Nouvelle Alliance [A Nova Aliança]. Ampliando seu campo de compreensão, interessa-se então pela crítica da ciência moderna, lançando mão dos trabalhos de Foucault e de Deleuze. Ela trabalha sobre a crítica da psicanálise e da repressão, por parte desta última, da hipnose. Ultimamente, consagra-se a uma reflexão em torno da ideia de uma “ecologia das práticas”, de inspiração construtivista. Disto são testemunho os sete volumes das Cosmopolitiques [Cosmopolíticas, publicados em 1997], mas também seus livros consagrados à economia e à política (La Sorcellerie capitaliste [A Feitiçaria capitalista], com Philippe Pignarre, 2005), ou ainda à filosofia (Penser avec Whitehead [Pensar com Whitehead], 2006). Mais recentemente, colaboradora da revista Multitudes, ela abarca cada vez mais o campo político com Au temps des catastrophes [No tempo das catástrofes] (La Découverte, 2008). Em sua última obra, Une autre science est possible! [Uma outra ciência é possível!] (Empêcheurs de penser en rond/La Découverte, 2013), ela prossegue este questionamento. Seus trabalhos, bem densos e criativos, são um sopro de oxigênio intelectual para se pensar um outro mundo possível, e uma fonte estimulante para viver as lutas anticapitalistas.

 

Em No tempo das catástrofes, você diz que uma outra história começou. A partir de quando você situa a ruptura?

Isabelle Stengers – Tive a convicção de que algo importante estava se passando em 1995, quando uma sondagem anunciou que uma maioria de franceses achava que suas crianças não viveriam melhor do que eles viveram. Não confiavam mais no “progresso”. Depois, tivemos as repetidas crises financeiras… No tempo das catástrofes foi escrito antes dessas crises. Na época, as revoltas da fome ligadas à especulação financeira e a história do furacão Katrina já eram excelentes exemplos daquilo que poderia muito bem estar nos esperando no futuro. A explosão das desigualdades sociais, a desordem climática, a poluição… fariam sempre mais estragos, mas o rumo do crescimento e da competividade seria mantido. Escrevi esse livro para resistir ao desespero, e para aqueles e aquelas que tentam escrever uma outra história, apesar das dificuldades: foi dito que hoje em dia é mais fácil enxergar o fim do mundo e da civilização que o do capitalismo. Mas os que estão buscando, todos eles sabem que a impotência que ressentimos faz parte do problema.

 

Você fala de uma “New Orleans em escala planetária”…

I.S. – Em New Orleans, sabia-se que um furacão como o Katrina podia vir e que os diques não aguentariam. Sabia-se, mas nada foi feito. Hoje sabemos disso. E quando veio o Katrina, em agosto de 2005, os ricos que puderam fugir o fizeram, os outros permaneceram, entregues a si mesmos. É o que está ocorrendo em escala planetária: desgraça aos vencidos, ou seja, aos pobres.

 

Seu projeto é subintitulado “Resistir à barbárie que vem”, em referência à alternativa de Rosa Luxemburgo: “Socialismo ou barbárie”. É nesses termos que você enxerga a possibilidade de um porvir?

I.S. Quando eclodiu a guerra de 1914-1918, os proletários foram para ela, morreram no campo de batalha tendo nos lábios um canto de escravos, escreve Luxemburgo. É por isso que ela grita que o socialismo não está garantido, que a barbárie é uma possibilidade real. Estamos um pouco na mesma situação. Todo mundo conhece os malefícios da guerra econômica de todos contra cada um. E, no entanto, a gente se ativa retomando em coro o refrão da gloriosa competitividade. “A gente sabe bem isso aí, porém…”. Um dos mais aterrorizantes “porém”, aquele que afirma que “só o que as pessoas esperam é poder tirar seu corpo fora; são egoístas e cegas”. Ora, é preciso afirmar o seguinte: não sabemos do que “as pessoas” são capazes, pois elas saíram de uma operação de destruição sistemática do seu poder de agir e de pensar, ou seja, de colocar os problemas que lhes concernem coletivamente. O capitalismo não é apenas a exploração, é também, e talvez até em primeiro lugar, a expropriação, e isso desde aquela expropriação histórica dos “commons” na Inglaterra, quando os camponeses sem terra foram jogados nas estradas. Uma cultura prática da vida em comum foi destruída. Essa expropriação continua cada vez mais ferrenha hoje em dia, em nome da racionalização, do ganho de tempo, da necessidade de controlar. Não somos impotentes, fomos reduzidos à impotência.

 

Para você, “a empresa do capitalismo” se estabeleceu a partir de “alternativas infernais”?

I.S. As alternativas infernais é aquilo que se espraiou depois que o progresso perdeu seu poder de mobilizar. Isso pode ser resumido pelo seguinte: “Você age por uma coisa, mas as consequências serão piores”. Assim, “você luta por um nível de vida correto, mas isso implica que haverá realocações[1]”, ou ainda, “você gostaria de mais equidade através do imposto, mas isso vai acarretar fuga de capitais”. Você é como que pego pela goela, reduzido à impotência. E quando você questiona: “Sim, mas então o quê?”, a única resposta é: “É preciso lutar pelo crescimento”. Com Philippe Pignarre, em La Sorcellerie capitaliste [A Feitiçaria capitalista], descrevemos a montagem dessas alternativas como um ataque de “feitiçaria” que captura as potências de agir, de imaginar, de existir e de lutar.

 

Você desconstrói tanto as “leis do mercado” quanto a “governança” de “nossos responsáveis”… Que papel o Estado desempenha?

I.S. Entre o Estado moderno e o capitalismo, é preciso fazer uma distinção. Um não é o reflexo do outro. Ao invés disso, há uma espécie de pacto assimétrico que define aquilo que o Estado, em cada época, deixa o capitalismo fazer, e aquilo que o capitalismo faz o Estado fazer. Com o neoliberalismo, houve redefinição desse pacto sob o signo da desregulação. Nossas políticas se desfizeram de todas as alavancas que lhes permitiam agir em proveito de instituições não elegidas, apolíticas e a serviço do crescimento, da competitividade, da livre circulação dos capitais etc. O Estado não desaparece por conta disso, mas ele vira nosso contramestre, encarregado de evitar o pânico, a insubmissão, a desmobilização. Os políticos se pretendem “responsáveis”, mas é apenas por nós mesmos que eles são, para que permaneçamos “motivados”.

 

Os “anticapitalistas devem ser capazes de fazer um outro possível existir”. A partir de quais alavancas eles podem isso?

I.S. Não sou de um otimismo fulgurante. Todavia, há dez anos venho constatando que existem lutas de um estilo novo. O combate contra os organismos geneticamente modificados (OGM), por exemplo, recriou um pensamento político a respeito do tipo de agricultura e de mundo que estamos construindo. Ele soube reaproximar camponeses, para quem os OGM são uma nova expropriação; anticapitalistas em luta contra a empresa das patentes; cientistas alarmados com as consequências. Todos eles aprenderam uns com os outros, e é por isso que o movimento conseguiu causar embaraço àquilo que se propunha como um progresso incontestável. Depois, a insubmissão se enriquece, ampara-se de novas questões. O caráter inventivo desse gênero de aliança, que cria cumplicidades, conivências, capacidades novas de resistir lá onde o capitalismo divide – parece-me hoje em dia mais promissor do que o “todos juntos”, que dá ao inimigo o poder de escolher o ponto de enfrentamento. Precisamos de experiências de coaprendizagens mútuas, a fim de criar causas comuns múltiplas e móveis, solidariedades de luta contra o sentimento de impotência que as divisões instaladas fabricam.

 

É o que você chama de reapropriação?

I.S. Reapropriar-se não é lutar tão somente contra a exploração, pela redistribuição das riquezas produzidas. É curar efeitos da expropriação, é devir novamente capaz de afirmar e de lutar por aquilo que se tem. É a condição daquilo que, às vezes, é chamado de inteligência coletiva, cada um aprendendo a pensar pelos outros, graças aos outros e com os outros.

O coletivo é poderoso porque ele é múltiplo, porque ele inventa maneiras de colocar os problemas que cada um, isoladamente, seria incapaz. Os ativistas americanos aprenderam muito a este respeito, pois compreenderam que essa reapropriação não pode esperar a “revolução”, ela deve fazer parte da própria luta.

 

Evocando a “intrusão de Gaia”, você fala de “situações que produzem a igualdade”. Pode-se ver nisso a elaboração de alternativas de progresso?

I.S. O que chamei de Gaia faz intrusão no sentido em que ela desafia nossas categorias de pensamento. Alguns consideraram que a Terra fosse um recurso a ser explorado, outros que era preciso protegê-la, mas ela nunca foi enxergada como poder assustador, que poderia nos destruir, e num curto período! Essa constatação muda enormemente as coisas. Não se trata mais de explorar ou de proteger, mas de aprender a dar atenção. E pra valer! As ameaças de desordem climática não vão voltar para suas caixas, doravante os humanos devem compor com esse poder que suas atividades ativaram. Ora, aprender a dar atenção é precisamente aquilo que a versão estatal-capitalista do progresso nos desensinou. Mas isso exige que se aprenda a pensar uma situação em todas as suas dimensões, com todas as suas consequências. Para este fim, temos necessidade de que essa situação “produza igualdade”, de que ela reúna todos aqueles que se importam com ela, e de que estes estejam todos habilitados a fazer valer seu saber ou sua experiência. É isso que desaprendemos, dando o poder aos experts, mas reaprendê-lo exige a invenção de dispositivos operantes – a igualdade não deve ser formal, ela deve ser efetiva. Esse tipo de invenção é bem diferente das inovações técnicas que na verdade separam as pessoas. Aqui, trata-se de suscitar a confiança em si e nos outros, a lucidez, a capacidade de escapar das evidências já prontas. Medido em termos dessas invenções, teríamos toda uma outra definição do progresso!

 

Em Une autre science est possible!, você prega uma “slow science”. De que se trata?

I.S. Desde que a pesquisa pública foi redefinida como “economia do conhecimento”, os elos de cooperação crítica se dissolveram. Agora o êxito se avalia a partir da patente, mas isso não tem nada de êxito científico. O capitalismo está em vias de se voltar contra os pesquisadores e destruí-los, depois de outros tantos. Mas falar de slow science não é apenas reivindicar “o tempo e a liberdade para se colocar problemas que valham a pena!”. É também que os pesquisadores devenham capazes de firmar outros elos que não aqueles, tradicionais, que eles têm com a indústria e o Estado. Mesmo que sempre tenha havido denunciantes[2], a instituição científica promoveu muitíssimo bem um modo de desenvolvimento que sabemos ser radicalmente insustentável. Os pesquisadores têm o hábito de desprezar a opinião, de pensar que é da ciência que virá a solução racional para os problemas da sociedade. Uma outra ciência é possível, mas ela exige aquilo que, hoje em dia, é para eles uma “perda de tempo”: reapropriar-se da imaginação necessária para se abrir às preocupações dos outros, aos seus saberes, às suas objeções. Não é de uma melhor informação do público que precisamos, mas de cientistas capazes de participar de uma inteligência coletiva dos problemas.

 

Para você, o acoplamento entre luta política e criação dá uma capacidade nova que busca a alegria. É isso ser “de esquerda”?

I.S. Segundo Gilles Deleuze, existe uma diferença de natureza entre esquerda e direita. A esquerda, de maneira vital, tem necessidade de que as pessoas pensem. Isso não quer dizer que elas façam teoria, mas que tomem em suas mãos, coletivamente, os assuntos que lhes concernem. No século XIX, é o que fez a classe operária quando criou as mutuais[3], as bolsas de trabalho. Já a direita tem necessidade de que as pessoas aceitem a ordem estabelecida, pouco importando qual seja, contanto que a respeitem. Os dispositivos que produzem a igualdade, portanto, são “de esquerda”. Às vezes, o que eles exigem é duro, mas aprender conjuntamente a estar à altura do problema posto, a não submetê-lo a generalidades, é um acontecimento criador de alegria. Quando vozes até então sufocadas e desqualificadas, reduzidas a resmungos, são transformadas em saberes articulados, o problema é mais bem colocado. Alianças inesperadas devêm possíveis. O que nos ameaça é a divisão e o ressentimento: a alegria é o contrário do ressentimento, e é ela que pode ser comunicada a outros. Seria preciso fazer com que ela fosse sentida em relatos que mostrassem como vieram à tona catálises, encadeamentos e aberturas de imaginação, quando tudo parecia bloqueado: “Se ali é possível, então aqui também pode ser!”

 

Tradução de Guilherme Ivo, Campinas/SP.

 

Recebido: 29/07/2015
Aceito: 29/07/2015


[1] [N. do T.] O termo francês é délocalisation, que designa a realocação das atividades de serviço e de produção de certas empresas em países com salário baixo. Offshoring é o termo clássico em inglês para esse procedimento.

[2] [N. do T.] O termo francês, tireur de sonnette d’alarme é comumente usado para traduzir o termo inglês whistleblower, ou seja, alguém que denuncia atividades desonestas ou ilegais de uma instituição privada ou pública. Um caso atualmente conhecido é o de Joseph Snowden.

[3] As mutuais, na história da classe operária, são organizações sob a prática da ajuda mútua entre seus adeptos, para reduzir o impacto de problemas como a doença, os acidentes e o desemprego. Sua criação pode ser remontada aos eventos da Revolução de 1830.