Habitar a educação com atenção e cuidado em tempos de desastres | Tiago Amaral Sales e Fernanda Monteiro Rigue

O que podemos aprender ao nos articularmos em coletivos em tempos de desastres? A partir desta inquietação e de leituras realizadas no grupo de estudos e pesquisas habitAR (CNPq/UFU), sobretudo do livro Antropologia e/como Educação, de Tim Ingold (2020), tecemos uma carta que traça notas, intentos e desejos para um futuro que afirme a educação e a formação como práticas de atenção e de cuidado coletivo com o mundo e com seus habitantes.

Tiago Amaral Sales[1] 

Fernanda Monteiro Rigue[2]

 

Fonte: Registros do primeiro autor com edição digital (2026).

 

O ocupante ocupa uma posição em um mundo já pronto; o habitante contribui através da sua atividade para a contínua regeneração do mundo 

Tim Ingold (2015, p. 247).

 

Habitar a educação com cuidado e atenção é um convite que fazemos. Trata-se de um chamado antigo, talvez, feito a muitos corpos que se dedicam a pensar e cocriar territórios educativos; possivelmente você sabe do que se trata ao se encontrar com este texto e nos ler.

Tal ideia nasceu conosco também em um encontro, junto ao nosso grupo de estudos e pesquisas que carrega essa palavra, conceito e movimento: o habitAR. Em diálogo com as leituras do antropólogo Tim Ingold (2020), somos conclamados a cultivar um olhar para o mundo, para o tempo, para os nossos passos e para os seres que cocriam esses territórios conosco. Junto a essas tantas companhias humanas, não humanas e mais que humanas, seguimos de mãos dadas e temos aprendido coletivamente.

Inspirados em Donna Haraway (1995), compreendemos que todo saber é localizado em um tempo e um espaço, sendo marcado por essa relação com um território. Nós nos situamos no interior do Brasil, nas periferias da América Latina: localizamo-nos no Triângulo Mineiro, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com atuação sobretudo no Campus Pontal, na cidade de Ituiutaba, Minas Gerais.

É nesses territórios localizados que cocriamos, também, saberes e vivências localizados. É aqui que habitamos e coconstruímos formações possíveis com estudantes de graduação e de pós-graduação, bem como com pessoas de outras regiões que se encontram conosco através de leituras, telas e janelas virtuais. É nesse tempo-espaço que tecemos o que pode um grupo de estudos e pesquisas (Sales et al., 2025) e, temos aprendido, também, a nos formar com o tempo, entre atravessamentos e agenciamentos multiespecíficos (Sales; Rigue, 2026).

Nesse território, temos também movimentado as nossas reuniões do Grupo de Estudos e Pesquisas HabitAR (CNPq/UFU). Lá, quinzenalmente, nos encontramos para estudar, para pausar um pouco, pensar no que nos afeta e sentir leituras conjuntamente – leituras que, sozinhas e sozinhos, não seriam tão fáceis e nem palatáveis de realizar. Juntos, ganhamos velocidades variadas e vamos nos apropriando de conceitos, compondo uma caixa de ferramentas, como nos ensina Gilles Deleuze em diálogo com Michel Foucault (2025), no campo teórico-conceitual.

Dentre essas ferramentas, em nosso último ciclo – o IV Ciclo de Encontros e Diálogos do HabitAR, lemos Tim Ingold (2020) em Antropologia e/como Educação. O autor nos convidou, por meio de suas escritas, a desacelerar e a pensar uma educação e uma formação docente em tom menor: uma educação e uma formação que se afetem e se envolvam com o mundo, que percebam, afirmem e reconheçam a potência do estudo. A escola e a universidade surgem, assim, como lugares de estudo, de parar e, às vezes, também de experimentar o ócio – dimensão tão rara hoje em dia, na sociedade da produtividade e do cansaço em que vivemos (Han, 2017).

 

(Leia o ensaio completo em PDF)

 

Recebido em:  15/03/2026

Aceito em: 15/07/2026

 

[1] Professor Assistente nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas, vinculados ao Instituto de Ciências Exatas e Naturais do Pontal (ICENP), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Campus Pontal. Professor Permanente no Programa de Pós-Graduação em Educação Básica (PPGPEDU) e no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Líder do grupo habitAR: Grupo de estudos e pesquisas em educação, ciência e vida (CNPq/UFU). Pós-doutorado em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Doutor e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia (PPGED/UFU). Licenciado em Pedagogia pela Universidade Estácio de Santa Catarina (UNESA). Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas pelo Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia (INBIO/UFU). E-mail: tiagoamaralsales@gmail.com  

[2] Doutora e Mestra em Educação pelo PPGE/UFSM. Licenciada em Química pelo IFFar. Professora Adjunta dos cursos de Química (Licenciatura e Bacharelado) do ICENP/UFU. Docente permanente no PPGED/UFU. Líder do grupo habitAR: Grupo de estudos e pesquisas em educação, ciência e vida (CNPq/UFU). E-mail: fernandarigue@ufu.br