Rafa Carvalho | Para começar, escrever textos em cima do prazo é uma vergonha


Rafael Manfrinatto de Carvalho[1]

 

Vergonha? Passei muita nessa vida.

À timidez extrema da infância. Bochechas queimando. Os incontáveis sonhos que tinha, nu ou de cueca, fazendo as coisas usuais. Uma cabeça grande – eu, filho de baiano – que me rendia chacotas maiores. E tetas. Sim, tetas. Eu tinha tetas. Protuberantes tetas, que me impediam qualquer praia, piscina, jogo no time sem camisa, camiseta regata, rua e praça em dias de calor.

Nasci com cinco quilos. E segui avante. A obesidade marcou toda a vida pueril e parte imprescindível de minha adolescência. Mexeu com meus esquemas e imagens corporais. Até hoje não sei olhar no espelho.

Fui sempre um cara estranho. Um bebê estranho, que nasceu sem chorar e só dormia. Que cresceu ainda estranho. Eu brincava de dormir. Pra mim, era normal. Depois descobri que crianças não brincavam de dormir. Que dormir era o avesso do brincar. E é isso. No fundo, sempre fui meio do avesso. Quando tinha sete, uma mulher abusou de mim. Sexualmente. As moças do bairro me apertavam. Abraços e beijos na boca, só que botando a mão no meio. Mas aí, quando eu tentei amar as pessoas da minha idade, deu errado.

Pedi minha primeira mão em casamento aos quatro anos. Na creche. Dei um anel azul turquesa, daqueles que vinham na maria-mole. Joice aceitou o anel, mas não me deu a mão. Fiquei só, no corredor. E mesmo sem estar nu, ou de cueca, aquela vergonha me consumia. No primário levei meu primeiro soco no dente defendendo Marcela, que ainda comeu meu sanduíche e nem me agradeceu – por nenhuma das duas coisas. No ginásio, Pati riu de minha carta de amor. Era como se eu estivesse deslocado no tempo. As meninas do colegial gostavam de mim.

Mas, sim. Eu era um menino gordo. Fora do padrão da beleza, dos corpos. E tinha ainda as piadas. O gordo baleia saco de areia. Os lanches roubados. As últimas escolhas na Educação Física. O gol –  porque só de parar ali eu já tampava tudo. E se isso não fosse o bastante, eu era um estranho também nos pensamentos. Pensava diferente prum moleque quase favelado, filho de retirantes, com um irmão especial, crescido entre as vielas, ouvindo o pagode e as novelas das casas.

O mundo me ensinou a ter vergonha, com o tempo, de tudo isso. Do nordeste, da pobreza, do irmão, do pagode, da novela. Tudo isso. Da gordura, da cabeça. Do amor. Eu tinha sonhos. Incompatíveis com a nossa classe. E meus pais, na intenção carinhosa de proteger, me ensinaram a também ter vergonha de sonhar.

Escrevia como quem tentasse sobreviver. Um escape, para não explodir. Tudo ia pra gaveta. Em segredo. Eu cantava escondido. Acreditando, ingênuo, que o banheiro trancado me isolava do mundo. Descobrir que me ouviam, no banho, foi tão constrangedor quanto os flagras nas primeiras masturbações, nas descobertas de que meu corpo, obeso, tinha suas próprias possibilidades de prazer.

Enquanto isso, o mundo nunca parou de girar. Emagreci. Hormônios, estirão de crescimento. E uma boca fechada em desespero, por tanta humilhação que me fez trocar, em um mês, quinze quilos por uma anemia severa. Acabei cursando Educação Física anos depois. Mas não, não foi vingança. Nem queria provar nada pra ninguém. Foi só intuição mesmo. Adiante eu entendi que, em suma, não sabia morar num corpo. O curso me ajudaria nisso. E ajudou.

Continuei tendo vergonha. Reparando no quanto era ingênuo. E estranho. Eu habitava os não-lugares de tudo. Não chorei quando nasci, mas por muitos momentos passei só chorando. Era irreconhecido na universidade pública, sendo o único na turma que vinha integralmente do ensino público. Irreconhecido na quebrada, sendo um dos sobreviventes à morte, um dos resistentes ao crime, mas o único que chegava à universidade pública. Calma lá, era só Educação Física, esporte, firmeza, ok. Só que não. Eu era o único que tentava falar de Nietzsche ou qualquer outro alemão que não fosse do futebol, fórmula 1 ou o traficante loiro, do bairro.

Pra piorar, saí do armário. Ou melhor, da gaveta. Me assumi poeta.

Daí fodeu. E segui constrangido. Constrangendo. Depois, quando comecei a rever meus preconceitos com a sexualidade. Com a religiosidade. E muito mais tarde, quando iniciei a lida com meu machismo e os privilégios todos que, de alguma forma, sim me contemplavam.

E o mundo girando. Acabei fugindo com o circo. Abri na marra algumas portas do globo. Mas, tudo, sempre envergonhado. Quando cheguei ao Japão, com status de professor, cargo muito respeitado no país, fui tirado do quarto sem aviso uma manhã. Num baita jet lag confuso. Descabelado, com bafo e de pijama – ainda havia muitos lapsos culturais e de comunicação àquele instante. E, de repente, me vi frente a dois mil estudantes, devidamente engravatados, reunidos em silêncio absoluto, para ouvir falar o professor que recém chegava do Brasil. No caso: eu. Fiz meu discurso com remela grudando nos olhos. Dez anos depois, em Angola, contei uma mentira como parte de uma performance literária. Que depois veio à rede nacional, saindo totalmente do controle e fazendo um país inteiro me procurar, descobrir meu hotel e fazer fila para autógrafos, pensando que eu fosse do elenco de uma novela bíblica da Rede Record.

Tinha vergonha de perder. De passar tantas vezes raspando, ficando em segundo. E, quando finalmente ganhava, tinha vergonha também. Tive vergonha em Cuba, quando entendi mais profundamente que qualquer análise sem a relatividade da complexa existência humana, na Terra, é arbitrariamente burra. Tive vergonha na Dinamarca, quando me disseram negro pela primeira vez. Me senti mal, por nunca antes ter olhado minha pele e minha história com atenção. Ou depois, por ser desaconselhado a descer numa estação específica do metrô em Berlim, por conta de aglutinações neonazistas. E quando voltei à Dinamarca, cinco anos após ter morado ali, encontrando o mesmo ponto de ônibus onde eu apanhava todos os dias o transporte público, tomado por suásticas, rabiscos e adesivos grafando a morte de pessoas como eu.

Eu sinto vergonha desde a infância, por ver como morte e vida são tratadas por nós, humanos. E sentia muita vergonha por sofrer tanto com coisas que as outras pessoas pareciam simplesmente: ignorar. Sentia vergonha por me sentir fraco. E ainda sinto, tantas vezes.

Depois de um tempo, eu já tinha idade pra sentir vergonha das coisas que não fiz, ou que fiz mal. Me arrependi de muito, de tanto. Subitamente, era possível ter vergonha do passado, do presente; e até do futuro. Tive vergonha de viver. E de pensar na morte, como alternativa. De resgatar uma gatinha na rua. E me sentir incapaz de cuidá-la, como devia. De não plantar nada, na terra do quintal. Ou de ver depois um manjericão morrer em minha casa. Da impotência que a gente sente, quando um felino de espírito livre é atropelado por um bêbado. Quando o vento forte de setembro e Iansã derruba e racha o cacto que estava lindo imenso.

Acho que senti a vergonha de Van Gogh. Às vezes, tenho medo de ainda morrer com ela. E tenho vergonha de ter medo. Vergonha da academia, do meio artístico, tantas vezes. Dos nepotismos, das panelas, dos juízos, prêmios, festivais, menções honrosas, preços, taxas, listas, notas, matérias, estrelas. Sinto vergonha de como nosso tempo ralenta, mais que meus cabelos à cabeça. De como a pressa nos comprime. Do quanto estamos dissipados. E de vez em quando, sinto vergonha de ainda haver fé e esperança.

Sabem, durante muito tempo eu tive total vergonha de mim. Um dia inverti algumas coisas, e passei a olhar muito pra isso. Falar de mim mesmo, como faço aqui. Mas não era falta de vergonha. Não era só um egoísmo. Coisa de ter o rei na barriga, se achar o umbigo do mundo. Era mais o entendimento de que minhas ações na Terra partiam mesmo de mim. Não havendo modo de ser diferente. Que essa apropriação, no fim, era o fundamento. À autonomia inicial das mais complexas relações que se seguiam. E ainda que: se ao falar de Paulo, falo muito mais de mim, que do Paulo, era melhor já falar de mim logo. De cara. Só que com vergonha nela. Muito mais como quem investiga, pensa, sente e sonda a si próprio, que qualquer outra coisa. Como fosse minha contribuição mais autêntica à empatia dos humanos. A minha dose singela de humanidade a quem sabe enfim: reunirmos.

Se eu tenho vergonha de ser quem eu sou? Muita ainda.

E bem, além da vergonha, outra coisa que tive muito foi medo. A coragem, como possibilidade, veio mesmo bem depois. O medo ainda bate, claro. Mas quando aprendi, mais tarde, que coragem vem da capacidade humana de “agir com o coração”, me fez todo o sentido, sabem?

Tanto que hoje tô aqui, no dia limite de entrega desse texto, sentindo vergonha pelo atraso e a incapacidade de me organizar melhor neste momento, digitando com um braço e o meu filho no outro, querendo brincar. Sentindo vergonha por ele passar este constrangimento – de encarar uma tela de computador, como se a vida fosse isso. Com vergonha de escrever mais um ensaio complexo, relativo, correndo. Sem revisões. Vivendo sem tempo para revisar. E sequer visar, muitas vezes.

Acho que quando a gente se lança a viver como artista, no sentido mais fundamental da coisa, assumimos – ou ao menos deveríamos assumir – a convicção de que vamos errar muito. Tentar e errar muito. Aprontar, mesmo sem querer. Talvez venha daí a expressão “arteira” e “fazer arte” das crianças. E sinto ser importante essa aceitação. Da tentativa e, sobretudo, do erro. Da incapacidade e da vergonha. E até da potência que pode vingar, de repente, no fim. Vivendo como um estranho eu tive tudo, tive nada. Fiz coisas das quais me orgulho muito, num bom sentido do orgulhar. E muitas, muitas outras, que foram grandes merdas. Tudo isso ainda valendo no presente.

Sim. Sigo sentindo muita vergonha. Tento. Erro. Faço merda. Mas aí, hoje, ensaiando aqui, eu penso: qual pessoa, agindo com o coração, não vive com vergonha? Nesse tempo pós-moderno, sombrio, tão “contemporâneo”. E ainda: qual coração humano consegue bater, sem fazer merda?

Temos que ter vergonha de ser quem – e aquilo – que ainda somos. E temos que ser quem – ou aquilo – que ainda somos. Sim. Pra podermos, quem sabe – como dizia o poeta – ir além.

Não deu tempo de contar que, começando no circo como acrobata, encontrei pela frente o palhaço. Que ele também me encontrou. Bem: trombamos. E que foi nisto que eu aprendi a amar minha vergonha, botá-la na roda, pra jogo. Curtir meus ridículos – que não são poucos. E tentar, com mais ênfase – e até um pouquinho mais de êxito: ser feliz. Mesmo com tantos pesares, defender a alegria. Inclusive dela própria, quando for preciso – como diria outro poeta.

Hoje, apesar de tudo, não tenho vergonha desse texto. Nem de ser poeta. A gente tem mantido em Campinas o “Curo”, uma roda de homens de terreiro, aberta a qualquer homem – mesmo os que não sejam de terreiro – para conversar sobre masculinidade. Falar das nossas vergonhas. E também coragens. Para curarmos juntos. Sonhar, ter esperança. Queremos ampliar essas conversas, seus alcances, as formas das participações e presenças diversas. Outro lance: depois de passar vergonha nuns vinte e tantos países, quase todos os continentes, quis me manter na quebrada em que passei minhas primeiras vergonhas. Ainda aqui. Onde perdi amigos vergonhosamente pro crime, preconceito, balas equivocadas da polícia, prestação de contas entre irmãos. E tantas outras desgraças. Nisso também temos trabalhado juntos nossas vergonhas, nossas coragens. Nossas histórias. Complexas, relativas. Nunca fáceis. Nem impossíveis. Nossos preconceitos e nossas transcendências. Possibilidades. Poéticas. Éticas. Estéticas. São saraus, carnavais, rodas de samba, clubes de cinema, oficinas, criações artísticas, manifestações populares, festas, resgates, inovações, uma série de acontecimentos comunitários por transformação social, como de cada ser que se envolve.

Tenho vergonha o tempo todo, por me achar pequeno, impotente e incapaz diante disso. Esse sentimento se reflete na vida pessoal, nos relacionamentos. Resvala na arte, como carreira e profissão. As pessoas desatentas se contestam o tempo todo. Os amigos distraídos caem no esquecimento do quanto as mãos dadas nos salvam as vidas. Amizades minhas, muito queridas, poetas, artistas, educadoras, se suicidaram primeiro, para depois enxergamos o quanto elas estavam há tanto tempo gritando socorro. Por ajuda, escuta, colo, choro junto, qualquer cumplicidade.

Me envergonho por isso também. Tanto porque fiz pouco por elas. Quanto por poder ser o próximo.  Me envergonho do mundo que meu filho encontrou, nascendo em 2019. Mas é isto. É o que temos. Nossa dignidade possível passa também pela vergonha. E não deu tempo, neste texto improvisado, no impulso, de falar das outras coisas todas. Fragmentos de passagens tantas, pertinentes talvez ao que tento ensaiar aqui.

Mas a vida não nos tem permitido ensaios. E sim, isso talvez seja uma outra vergonha. Como é vergonhoso também que eu não tenha falado de clima até agora. Percebem? Sei que a revista é sobre isso. Mas, ei: não tem clima. Não há clima: há o mundo. Há vida num planeta, que gira. Dinâmica. Vida e morte, vida, morte, vidamortevidamortevidamor. Amor. É o que há. O resto é só o avesso. Ausência de amar. Falta e escassez.

E o amor é feito de coragem. Também, de vergonha. Dentre tanto mais. A Terra vai seguir girando. E sendo. Até que algo se choque, um buraco a aspire, esse Sol a engula ou uma galáxia vizinha se funda com a nossa. E depois que uma dessas coisas aconteça, a Terra seguirá existindo, como algo além, de algum jeito. O mesmo vale pra nós. Somos poeira de estrela vivendo encarnados aqui. Éramos antes. Seremos depois. Entre choques, buracos, aspirações e movimentos solares, galáticos, universais. Seremos.

Logo, a vergonha nesse caso é: estarmos aqui enquanto a espécie que cataloga todas as demais e se coloca, a si própria, no topo das cadeias. Cerejinhas do bolo. Sapiens. E aí, diferente de outros animais, não inteligentes, que acabaram extintos por razões alheias, nós, com todo esse córtex pré-frontal maravilhoso, acabamos nos extinguindo a nós mesmos e, não felizes, deixamos antes um rastro de inconsequência e destruição a tantas outras espécies e formas de vida na Terra, arruinando toda e qualquer chance de honra ou mérito mínimos em nossa breve oportunidade de colaboração e convivência consciente no planeta.

O fato é que: entre nós, humanos, há uma minoria completamente sem vergonha. Uma minoria sem coragem. Uma minoria praticamente sem coração. Na verdade, eu ainda acredito que, no fundo, eles não sabem o que fazem. E o que eles fazem é: muita, muita merda mesmo. A questão é que detêm o poder. A grana. Os cargos, lastros, títulos, papéis, ações, insígnias. E estupidez de sobra. Já uma grande maioria de nós, num outro lado, fica sem acesso algum ao desenvolvimento da consciência, dadas as opressões, domínios, neocolônias, chantagens econômicas e outras baixezas, estratégias de manutenção das coisas, como elas estão. Há séculos. Beneficiando essa absoluta minoria, nos poderes. Entre um grupo e outro, temos algumas pessoas – dentre essas talvez, as três ou quatro que lerão este texto. No fio da navalha, em condições de ter vergonha mais abundantemente. Com alguma consciência possível. E aí, se escolhemos eximir-nos de qualquer responsabilidade, vivemos envergonhados pela covardia, sem ter paz ao travesseiro. Se escolhemos lutar, essa vergonha da impotência nos violenta o tempo todo, frente ao tamanho desses desafios atuais que castigam qualquer coragem – e tendemos à insônia, do mesmo jeito.

E eu fico aqui, postergando um fim. Tentando achar um jeito potente e estimulante de acabar o ensaio. Quem sabe sair disso com alguma elegância. Envergonhado por fazer um texto desse, que no final ninguém vai ler mesmo. Afinal, ninguém lê mais. Não se tem tempo pra isso. E temos tanta vergonha, que fingimos continuar lendo. Elogiamos o texto que não lemos. Criticamos a biografia que não conhecemos. Nossas estantes se enchem dos livros não lidos, como as fotos gravadas nos dispositivos, que nunca mais nós abriremos.

Enfim, sinto que a vergonha faz parte. Passamos pelo inevitável. O resto há de ser hipocrisia. Papo demagogo. Coisa de quem empurra as próprias imundícias pra debaixo do tapete do próximo. Estamos na encruzilhada de tanto tempo. Muitas dívidas históricas sim. Tantas heranças terríveis. Contradições. No meu caso, tenho vergonha de ser homem muitas vezes. E não devia ser assim. Já tive vergonha de ser branco. De ser negro. E em nenhum dos casos, devia ser assim. Tive vergonha de ser gordo, e não devia. De ter muito cabelo, depois de ter pouco. E não devia. Vai ver, como tudo na vida, há vergonhas e vergonhas. Algumas nos interessam, humanamente. Outras não.

A vergonha de não usar, nem desenvolver a consciência; de não usar o intelecto em favor da espécie e da vida no planeta; a vergonha de tentarmos sempre o mais fácil diante de tanta potência humana em desperdício; de só pensar no imediato, num planeta onde qualquer coisinha leva, no mínimo, milhares de anos; de não aprender a amar, não se deixar, atrever e permitir… Essas talvez: nós não devamos.

Já a vergonha de chegar aqui, com cinco páginas embaralhadas em espaçamento simples, não revistas e confusas, como homem amorfo marrom ou furta-cor completamente inacabado diante de um espelho que é todo caquinhos: eu aceito. Só não vou levar pra casa a vergonha de dizer “como dizia o poeta”, sem dizer afinal qual é. O primeiro que cito é o Paulo Leminski. O segundo, o uruguaio Mario Benedetti. Aliás, o universo tá vendo você, sapiens, acadêmico, citando tudo nos trabalhos como manda a ABNT. E nas redes sociais do dia a dia, se esquecendo de creditar os – e as – poetas.

Se vocês chegarem confusos aqui, duvidando de mim, mas levemente intrigados sobre a vergonha que é suprimirmos as fontes reais do que realmente importa na vida, talvez eu sinta, além de vergonha – e coragem –, também, um pouquinho do tesão – que falta tanto no trabalho e na academia – e da esperança – fundamento irrevogável do nosso caos e balbúrdia no mundo – pra seguir avante.

Dá vergonha de assinar, mas eu sou o Rafa Carvalho. Pra conversar mais sobre os projetos sutilmente citados aqui, fazer links, co-mover, vocês me encontram pelas redes como @poetante e, no offline, podem me achar no bar do Manoel – Estrela Dalva, ou noutras encruzilhadas por aí. Espero não ter resolvido nada, e que ainda tenhamos muitos bons motivos para nos envergonharmos juntos. Para tanto – nos envergonharmos juntos muito ainda – devemos não estar extintos, logo: deixemos de coisas – este terceiro é o Belchior. Cuidemos da vida.

 

Recebido em: 25/11/2019

Aceito em: 05/12/2019

 

[1] Rafael Manfrinatto de Carvalho (ou Rafa Carvalho) é poeta.

Para começar, escrever textos em cima do prazo é uma vergonha

 

RESUMO: Este ensaio é vergonha impura. Misturada com coragem, medo, merda e coração. A poesia sequestrando o acadêmico pruma dose de campari. Nele, não há nada útil. Você nem tem tempo para lê-lo. Cuidado! O drinque tem cor de sangue, ainda que ralo, e pode lembrá-lo de estar vivo. Escrito em cima do prazo, de canhota. A mão direita embalava o bebê. Sim, desculpem. Mas, fizesse mais sentido, este resumo, certamente, não seria deste texto. Que vergonha.

PALAVRAS-CHAVE: Vergonha. Palavra Poética. Vida.


For a start, write texts on time is a shame

 

ABSTRACT: This essay is impure shame. Mixed with courage, fear, shit and heart. Poetry kidnapping the scholar for a dose of Campari. In it, there’s nothing useful. You don’t even have time to read it. Watch out! The drink is blood-colored, though thin, and may remind you of being alive. Written on time, left-handed. The right hand cradled the baby. Yes, excuse me. But if it made more sense, this abstract would certainly not be from this text. What a shame.

KEYWORDS: Shame. Poetry. Life.


CARVALHO. Rafael Manfrinatto de. Para começar, escrever textos em cima do prazo é uma vergonha. ClimaCom – Povos Ouvir – A coragem da vergonha [Online], Campinas, ano 6,  n. 16,  dez.  2019. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/rafa-carvalho-…e-uma-vergonha/