Entre vírus e devires: a pandemia como informação | Pedro P. Ferreira


Pedro P. Ferreira [1]

Logo no início da quarentena brasileira frente à pandemia de COVID-19, ainda nos meses de março e abril de 2020, enquanto tentava começar a entender, à luz de uma literatura então emergente[2], o que estava acontecendo conosco, me senti obrigado a retornar aos escritos de Gilles Deleuze e Félix Guattari sobre o vírus. Foi um retorno teórico-conceitual (e amplamente complementado desde então), mas também existencial: a busca por linhas de fuga para a morte (biológica e simbólica) que se alastra no Brasil e no mundo contemporâneo (ver BECCARI, 2020; BENSUSAN, 2020; GARCIA DOS SANTOS, 2018; MILANEZ e VIDA, 2020; SAFATLE, 2020); a busca por problemas mais urgentes do que a “guerra contra o vírus” ou a deprimente “recuperação da economia”. Agora, no final de 2020, quando a pandemia já matou oficialmente mais de 1,5 milhões de pessoas no mundo todo (WHO 2020), e sem ter dado nenhum sinal de regressão, tentarei relatar sinteticamente, em três movimentos, o que encontrei nesse retorno.

VÍRUS

Gostaria de lhe contar uma revelação que tive durante o meu tempo aqui. Ela ocorreu quando tentava classificar sua espécie. Descobri que vocês não são realmente mamíferos. Todo mamífero deste planeta instintivamente desenvolve um equilíbrio natural com o meio ambiente, mas os humanos não. Vocês vão para uma área e se multiplicam […] até que todas as reservas naturais sejam consumidas. A única forma de sobreviverem é mudando para uma outra área. Há um outro organismo neste planeta que segue o mesmo padrão. Sabe o que é? Um vírus. Os seres humanos são um mal, um câncer deste planeta. Vocês são uma praga, e nós somos a cura (AGENTE SMITH in: WARCHOWSKI; WARCHOWSKI, 1999).

 

O registro mais antigo conhecido da palavra “vírus” está nos escritos médicos do enciclopedista romano Aulus Cornelius Celsus, da primeira metade do século I. Celsus usou o termo latino virus para designar o “veneno” causador da doença raiva (NEVILLE, 2004, p. 3-4). Como mostra Neeraja Sankaran (2018, p. 10), o termo continuou sendo usado, praticamente no mesmo sentido, até meados do século XIX, quando avanços na microbiologia exigiram que se adicionasse o adjetivo “filtrável”, para qualificar experimentalmente os vírus como sendo agentes patogênicos microscópicos que atravessavam filtros de cerâmica específicos, capazes de reterem bactérias e outros microorganismos. Apesar desse avanço, o termo “vírus” continuou, ainda durante muito tempo, intimamente associado ao seu sentido etimologicamente original, empregado por Celsus, de fluido “viscoso” e “venenoso” (HARPER, 2020).

Foi apenas no final dos anos 1930, quando avanços tecnológicos específicos (como a microscopia eletrônica) permitiram à “virologia” se diferenciar definitivamente da bacteriologia, como um campo de estudos específico, que o termo “vírus” passou a ganhar algumas conotações positivas, para além de um simples “veneno” (SANKARAN, 2018, p. 3, 21). Desde então, podemos considerar estabelecida, pelo menos entre virologistas, a compreensão de que os vírus apenas raramente agem como “veneno”, antes tendo sido, desde o início, fundamentais para a existência da vida na Terra em níveis celulares, orgânicos e ecossistêmicos (ver: MARGULIS, 1998; VILLARREAL, 2006; VILLARREAL e WITZANY 2010; WITZANY, 2012).

Para a “teórica evolucionista radical” (HARAWAY, 2016, p. 60) Lynn Margulis (1998, p. 82), por exemplo, “não podemos ser curados de nossos vírus pelo mesmo motivo que não podemos ser libertados do lobo frontal de nosso cérebro: nós somos nossos vírus [we are our virus]”[3]. Margulis (1998, p. 82) sabia que “os vírus não são mais […] ‘inimigos’ do que bactérias ou células humanas”, que eles são uma fundamental “fonte de variação evolutiva”, e que, se é verdade que eles “causam problemas quando extravasam [overgrow] seus habitats”, o fato é que esse extravasamento geralmente não se deve ao próprio vírus ou a espécies isoladas, mas sim a um “enfraquecimento ou perturbação do ecossistema”. Ou, nas palavras de um virologista contemporâneo, “as mais agudas doenças virais” refletem sobretudo rupturas e desequilíbrios em “sistemas altamente calibrados” de vírus, tecidos e órgãos em coevolução milenar (VILLARREAL, 2006, p. 587-8).

(Leia o artigo completo em PDF).

 

Recebido em: 14/11/2020

Aceito em: 08/12/2020

 

[1]  Doutor em Sociologia; professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp; coordenador do Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA/CTeMe). E-mail: ppf@unicamp.br.

[2] Com destaque para: Blanco (2020); Haesbaert (2020); Han (2020); Latour (2020a; 2020b); Preciado (2020); Troi e Quintilio (2020); e Zibechi (2020).

[3]Todas as citações de obras publicadas em outros idiomas foram traduzidas por mim.

Entre vírus e devires: a pandemia como informação

RESUMO: Este texto apresenta uma leitura da pandemia de COVID-19 como informação. Começa com considerações acerca do vírus como veneno, atravessa as passagens de Deleuze e Guattari sobre o vírus como devir, e chega numa leitura simondoniana do vírus como informação. A discussão conceitual é apoiada por esquemas gráficos de transmissão viral e de duplos devires. O objetivo do texto é explorar a possibilidade de uma cosmopolítica do vírus, que se afaste do discurso bélico da “guerra ao vírus”, e contribua para o desempenho de um coletivo possível e desejável.

PALAVRAS-CHAVE: Coronavírus. Devir. Informação.

 


Among virus and becomings: the pandemic as information

ABSTRACT: This paper presents a reading of the COVID-19 pandemic as information. It begins with considerations about the virus as poison, goes through Deleuze and Guattari’s passages on the virus as becoming, and arrives at a simondonian reading of the virus as information. The conceptual discussion is complemented by graphic schemes of viral transmissions and double becomings. The aim of the paper is to explore the possibility of a cosmopolitics of the virus, able to reject the military discourse of the “war agains the virus”, and to contribute to the performance of a possible and desirable collective.

KEYWORDS: Coronavirus. Becoming. Information.

 

 


FERREIRA, Pedro P. Entre vírus e devires: a pandemia como informação. ClimaCom – Epidemiologias [Online], Campinas, ano 7,  n. 19,  Dez.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/pandemia-como-informacao/