Olaolu O. O. Dada (Obalesun de Obàtálá Holytemple) e Trad. Rei Ojele Obàtálá Agbaye e Yeye Meso Obàtálá Agbaye | A narração de uma ideia: a criação do mundo, antes do 1º dia em Ilé Ifẹ̀


Olaolu O. O. Dada (Obalesun de Obàtálá Holytemple), Ilé-Ifẹ̀, Nigéria [1]

Tradução Rei Ojele Obàtálá Agbaye e Yeye Meso Obàtálá Agbaye

 

 

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Fig 01. Obalesun de Obàtálá Holytemple e seu filho Oba Ojele Obàtálá Agbaye em sua cerimônia de coroação no Templo de Obàtálá Ilé-Ifẹ̀, Nigéria. Fotos: Susana Dias. Texto: produzido a partir de conversa com Obalesun feita por Susana Dias e gravada por Sebastian Wiedemann, durante pesquisa de campo realizada com o apoio e tradução simultânea de Dhadar Faseyi, coroado Oba Ojele durante a estada em Ilé-Ifè, Nigéria.

 

Olódùmarè deu para Obàtálá èwòn/chain (uma corrente), ewe koko (folhas), igbin/snail (caracóis), iyepe iwarun (terra) e akuko adiye elese marun (uma galinha de cinco dedos). Ele colocou esses materiais numa mala que se chama àpò láwonrínwon-jìwon-ràn, ele colocou essa mala de àpò láwonrínwon jìwon ràn na grande mala que se chama àpò amònnà-jékùn. Depois ele colocou essa mala de àpò amònnà-jékùn em outra grande mala, em que podiam caber esses matérias. Essa mala se chama àpò-àjàpà ou àpò nlá (grande mala). Obàtálá pegou essas matérias todas e seguiu o caminho. Quando Obàtálá chegou no lugar que se chama orita meta ete – um lugar localizado entre céu e a atual Terra que agora habitamos, este lugar que era somente de cheio de água, como o atual Oceano – ele estava cansado. Ele viu emu (vinho de palma típico da Nigéria) e começou a beber esse emu.

Depois que ele bebeu muito desse emu ele ficou cansado e dormiu. Odùduwà, seu irmão, era uma pessoa que gostava de confusão e ele estava atrás de Obàtálá, seguindo ele. Quando Odùduwà viu que Obàtálá estava dormindo ele viu essa mala no braço direito de Obàtálá. Então, Odùduwà pegou esta mala e Obátálá continuou dormindo. Odùduwà caminhou até o lugar que Olódùmarè disse para Obàtálá colocar esse ewon/chain (corrente) para cima, depois Odùduwà viu que esse ewon ficou preso em cima, ele pegou a mala no braço dele e foi esse ewon (corrente) que Odùduwà usou para chegar onde só tinha muita água (agbalagbalubu omi). Olódùmarè disse para Odùduwà colocar folhas em cima da água, e Odùduwà fez isso, colocou iyepe iwarun (terra) em cima da folha, depois colocou akuko elese marun (galinha de cinco dedos), depois colocou igbin/snail (caracol) e começou a espalhar a terra em cima dessas águas. Odùduwà começa a ver que a terra está mais larga, mas as terras não ficaram secas. Existia, ainda, muita água. Para Odùduwà sair do lugar usou ewon (corrente), para voltar para cima do Orun (céu). Assim Odùduwà viu que Obàtálá continuava  dormindo. Ele ainda tirou esse ewon (corrente), depois Obàtálá acordou e viu que não estava mais com as malas dele, a única coisa que está ainda com Obàtálá é o Àse (autoridade ou força) que Olódùmarè deu para ele, que está com ele. Depois ele viu que está com seus opa itile (bengala) e oje (bracelete). Opa itile era usado para andar e esse Oje era a esposa de Obàtálá, ele pode tornar esse oje em qualquer coisa. Entre Obàtálá e Oje teve um acordo, que permite que Obàtálá possa transformá-la em um caso de necessidade. Obàtálá diz para Oje ir para as terras que estão molhadas e Obàtálá usou esse Oje para descer até terra, assim. Obàtálá viu que o trabalho que eles não mandaram Odùduwà fazer, ele já fez. Obàtálá tirou esse Àse (autoridade) para começar a falar, ordenando, tudo que quer ficar na terra. Aquela terra que ainda está molhada Obàtálá fala para que comece a ficar seca, para ter igi (árvores) e eranko (animais). Depois ele usou esse opa oje (bracelete) para ir de volta até céu.

Olódùmarè perguntou para Obàtálá onde ele foi e Obàtálá explica para Olódùmarè que no orita meta ete (caminho) ele bebeu emu (vinho de palmo) e assim dormiu. Olódùmarè perdoa Obàtálá, depois Obàtálá voltou até o lugar onde ele dormiu e jogou praga para aquele emu. Ele diz que qualquer devoto de Obàtálá que beber emu (vinho de palmo) não iria bem, por isso que família de Obàtálá não pode beber emu.

O segundo trabalho que Olódùmarè deu para Obàtálá foi a criação dos humanos, esse trabalho é conjunto entre ele, Obàtálá, e Èșù. Obàtálá perguntou para Èșù onde é que eles vão arrumar iyepe tutu (terra molhada). Èșù diz para Obàtálá ficar tranquilo que vão encontrar terra molhada. Èșù diz que iria pegar emprestada a terra com Ilé (mãe da terra). Foi Èșù que buscou essa terra molhada, essa argila. Foi Obàtálá que moldou essa argila, mas as pessoas ainda estavam surdas. Nossos ancestrais e que iriam ser os primeiros habitantes da Terra, ainda não falavam.

Obàtálá foi quem fez Odi (surdos). As pessoas eram chamadas de surdos antigamente. A autoridade de Olódùmarè, de Deus, demandou que  Obàtálá e Èșù fizessem essas imagens de Odi (surdos), e, posteriormente eles deveriam colocar um buraco no meio das cabeças dessas imagens e ir até alagbede orun (o ferreiro do plano espiritual), onde este encarregado de trabalhar com ferro, fazia o seu  sokoti alagbede orun (trabalho com ferro). Assim, ele iria secar com o calor do fogo usado por este ferreiro as imagens de argila feitas por Obàtálá.

Olódùmarè diz para que eles, quando eles estão trazendo essas imagens de argila, que já passou por fogo usado pelos ferreiro, diz para Obàtálá trazer um pouco de argila molhada junto com ele, para que ele possa usar essa argila molhada no buraco de cabeça que está aberto. No momento que estão com Olódùmarè, o único trabalho que Olódùmarè fez no corpo dos humanos é que fazê-los respirar vida, nos seus corpos. Depois que Olódùmarè expirou a vida naquele buraco de imagem que estava aberto, Obàtálá fecha o buraco com iyepe tutu (argila molhada). O Àse de Olódùmarè está em todos nós até hoje. Se nascer um filho hoje em dia, na cabeça da criança vai aparecer a respiração para cima e para baixo. Depois que Olódùmarè e Obàtálá terminam aquele trabalho de argila, com toda respiração, a imagem já começa a falar com eles. Olódùmarè diz para que essa imagem ir junto com Obàtálá para casa e Èșù. Depois que chegaram em casa, todas as conversas entre Èșù e Obàtálá começam a ser interrompidas por esses Odi (corpo de surdo) que agora querem falar o tempo todo. Com isso Èșù ficou com raiva e foi pegar um grande ferro e começou a bater na imagem de argila, nos Odi (surdos). Obàtálá ficou com medo disso e conversou com Olódùmarè. Olódùmarè perguntou para Obàtálá se aquele Odi (surdo) ainda estava respirando. Se assim fosse confirmado, para que Obàtálá usasse o Àse dele para todas aquelas coisas que já foram destruídas no corpo da imagem de argila ficassem bonitas. Foi assim que a imagem começou a se mexer, com cabeça, pernas, andar bem tranquilamente. Se não fosse por estes atos, de bater nas imagens de barro, os Odi (corpos de surdos) nunca andariam. Graças à Èșù ter destruído as imagens dos seres humanos, nós escapamos de ficar parados, sem conseguir mexer nossos corpos.

Porque as pessoas morrem? Foi porque Èșù pediu emprestado a terra a Ilè e que foi usada para fazer argila molhada. O que Ilè (mãe da terra) disse para Èșù foi que depois que ele terminasse de usar essa terra (areia) para que Èșù devolvesse isso à Ilè (mãe da terra). Por isso que as pessoas morrem, depois que Èșù terminassem de usá-la neste mundo, ele devolve para Ilè. Única coisa que iria sair do nosso corpo, ao morrer seria só aquela respiração que Olódùmarè expirou quando fez a imagem de Odi, no nosso corpo de areia transformada em argila, com o uso da água colhida na Terra.

Em seguida, aconteceu o terceiro trabalho de Obàtálá. Depois que eles voltaram até a terra já existiam mais árvores que humanos e essas árvores traziam produtos muito bons e não tinha ninguém para colher esses produtos. Deliciosas frutas. Com o tempo esse produtos começam a apodrecer. E ninguém para colhê-los. Obàtálá voltou até Olódùmarè e disse para Olódùmarè que não tinham pessoas no mundo, que já existia mais comida que pessoas. Olódùmarè disse para Obàtálá que ainda estava com o Àse dele para usar isso no mundo e para transformar as árvores em humanos, em pessoas. Se ele (Obàtálá) visse animais já poderia transformá-los em humanos. Hoje em dia temos as pessoas que são de omo eranko (animais). As pessoas que são de animais são aqueles que tudo que os parentes dizem nunca vão ouvir, só depois de tanto conselho é que irão ouvir. Temos as pessoas que são de aja (cachorros), essas são pessoas que em qualquer lugar que estão podem praticar ato sexual.

Outro são omo igi, os que são de árvores, são aqueles que não ouvem os parentes também, só depois de tanto conselho é que iram ouvir. Até hoje existe esse tipo de geração.


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Fig 02. Escultura representando Yemoo, esposa de Obàtálá, no Bosque de Osun na Nigéria.

 

Obàtálá teve 201 esposas e Obàtálá foi quem teve mais filhos entre outros òrìşàs (orixás). As pessoas que têm corpos claros se chamam Oyi. Oyi era uma esposa de Obàtálá. Ela deu um filho para Obàtálá um filho albino e as outras esposas não deixaram que ela tivesse paz, com ciúmes. Oyi trouxe o filho para entregar para Obàtálá ao perceber que o corpo dele estava todo branco. Com isso Obàtálá ficou chateado, disse que as outras esposas não deixaram que Oyi ficasse na casa dele, e ele conseguisse olhar como o filho deles está todo branco. Obàtálá diz para que esse filho se ajoelhe na frente dele, Obàtálá fez oração para esse filho, e disse: “Como essas outras esposas não deixaram eu cuidar de você, você será um filho muito abençoado”. Todos nós, os descendentes destes ancestrais, primeiros habitantes da Terra, a partir da África, somos filhos de Obàtálá.

Oriki Obàtálá o sun si ile fi oje ti ikun oni ile Ji oje o Ji. Esse oriki tem ligação com esposa de Obàtálá porque ela sempre está com Obàtálá, cada momento Obàtálá ama mais as duas esposas entre todas as que ele tem. As duas são Oje e Aje Yemoo.

Yemoo costuma fazer as roupas de Obàtálá, é costureira que faz roupas muito bonitas, fazia com as suas costuras lindas obras de arte. O lugar em que Yemoo faz as roupas de Obàtálá ainda está aqui até hoje, em Ilé-Ifẹ̀. O lugar se chama Ita Yemoo, mas hoje o lugar tem um museu. Foi assim que Obàtálá fez o seu trabalho, depois que o mundo começou a ficar maior, Odùduwà deu outro problema para Obàtálá, com isso Obàtálá deixou cidade de Ilé-Ifẹ̀, Obàtálá foi primeiro a chegar em Ilé-Ifẹ̀, esse lugar em que viveu Obàtálá é o nosso atual iranje idita (Groove/Bosque) até hoje usado em nossos rituais no Anual Festival de Obátálá.

Obàtálá se chama mori mori alamo tin mori omo tuntun alamo rire, que quer dizer aquele que molda a cabeça das crianças. Ele, Obàtálá, pode criar o ser humano do jeito que quis. Hoje em dia Obàtálá é uma religião que todos nós admiramos de òrìşàs, cultuamos e fazemos oração para Obàtálá.

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Fig. 03. As mulheres dos Obas (reis) diante do Templo de Obàtálá em Ilé-Ifẹ̀, Nigéria

 

E neste Templo de Obàtálá acontece o Ade Aare de Ooni, a coroação dos novos reis. Quando um novo rei é escolhido, ele recebe a coroa neste Templo. O Ooni (atual rei de Ilé-Ifẹ̀), usará esta coroa (Ade Aare) durante festa anual do Festival de Olojo, festividade que rememora o primeiro dia em que os Òrìşàs chegaram na Terra. É neste lugar, Templo de Obàtálá, que todo rei de Ilé-Ifẹ̀ é coroado com Ade. Obàtálá e Òrìşà são muito importantes no mundo.

 

Recebido em: 25/11/2019

Aceito em: 05/12/2019

 

[1] O Autor da Narrativa é Olaolu O. O. Dada, o mais importante Sacerdote do Templo de Obàtálá de Ilé Ifè, chefiando a Religião e Culto à Obàtálá, desde 2013, ocupando o cargo de Obalesun.

A narração de uma ideia: a criação do mundo, antes do 1.º dia em Ilé Ifẹ̀

 

RESUMO: Nesta narrativa o Obalesun do Templo de Obàtálá (Orixá conhecido no Brasil como Oxalá) narra os antecedentes da criação do Mundo, a partir do Continente Africano, da Nigéria e na cidade de Ilé-Ifẹ̀, o lugar da chegada e morada inicial dos Orixás neste mundo.

 

 

PALAVRAS-CHAVE: Obàtálá. Criação do Mundo. África. Orixá


DADA, Olaolu O.O. A narração de uma ideia: a criação do mundo, antes do 1º dia em Ilé Ifé. Trad. Rei Ojele Obàtálá Agbaye e Yeye Meso Obàtálá Agbaye. ClimaCom – Povos Ouvir – A coragem da vergonha [Online], Campinas, ano 6,  n. 16,  dez.  2019. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/olaolu-o-o-dada-a-narracao-de-uma-ideia-a-criacao-do-mundo-antes-do-1-o-dia-em-ile-ife