Monoculturas do pensamento e a importância do reflorestamento do imaginário | Geni Núñez


Geni Núñez[1]


A violência colonial tem atingido múltiplas esferas da vida, desde a exploração das terras, matança dos rios, extinção de múltiplas espécies até à exploração do território-corpo que somos. Há nessas relações agrotóxicas uma interconexão e interdependência. Da mesma forma que essas violências incidem sobre nós de maneira conjunta, o enfrentamento a elas também deve acompanhar a complexidade que essa tarefa nos traz.

Se como nos ensina Fanon (1968), o mundo colonial é um mundo de compartimentos (natureza ou cultura, humano ou animal, mente ou corpo, selvagem ou civilizado etc), uma das dificuldades que temos é o binarismo por vezes posto nas noções de teoria e prática. Aqui vale ressaltar que a prática da violência ecocida, etnocida, racista e misógina não é apenas o desvio ou desobediência de uma teoria de mundo que seria ética, mas uma continuidade com o que essa própria ideologia colonial orienta.

Quando comento de ideologia colonial, estou falando do que tenho chamado de sistema de monoculturas, organizado em alguns eixos como a monocultura da fé (no monoteísmo cristão), a monocultura dos afetos (na monogamia), a monocultura da sexualidade (no monossexismo) e a monocultura da terra, cuja imposição do Um antagoniza com o princípio da floresta, necessariamente múltiplo (NÚÑEZ, 2021).

É através da compreensão desse sistema de pensamento que podemos reconhecer os efeitos de suas práticas violentas. Nessas monoculturas um dos eixos centrais é o pressuposto da não concomitância: só um deus seria verdadeiro, só um amor seria legítimo, apenas uma sexualidade a ser escolhida, apenas um plantio na terra e assim por diante. Esse modo unívoco de existir só consegue se positivar na negativação de outros seres, operando através de uma lógica parasitária. Nela, humano seria a negação do animal, civilizado a negação do selvagem, além de não haver concomitâncias: nunca azul e rosa, masculino e feminino, humano e animal ao mesmo tempo.

No monoteísmo cristão, essa ideologia orientou todo o projeto catequizador, afinal, foi justamente por não reconhecerem outros deuses e espiritualidades como legítimos que o projeto de conversão encontrou sua motivação de nos salvar. Sabemos que os jesuítas não vieram para cá para serem salvos por nós indígenas, mas para nos salvar. Salvar de quê? Daquilo que inventam como pecado e por consequência, do sujeito que se efetiva a partir dessa noção, o pecador. Por aí percebemos que o projeto de catequização foi em si mesmo um gesto de racismo religioso que persiste até os dias contemporâneos, visto que a noção de que apenas um deus seria verdadeiro coincide com o ataque, a perseguição e a violência contra aqueles deuses que seriam os falsos.

 

(Leia o ensaio completo em PDF).

 

Recebido em: 20/11/2021

Aceito em: 10/12/2021

 

[1] Graduada em Psicologia (UFSC), mestre em Psicologia Social (UFSC) e doutoranda no Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas (UFSC). Membro da Articulação Brasileira de Indígenas Psicólogos/as (ABIPSI) e co-assistente da Comissão Guarani Yvyrupa. Email: geninunez@gmail.com

Monoculturas do pensamento e a importância do reflorestamento do imaginário

RESUMO: o ensaio discute a relação que há entre a teoria e a prática da violência colonial, problematizando os efeitos do sistema de monocultura na conjuntura dos negacionismos. A partir da cosmogonia anticolonial guarani, o texto busca apresentar pistas para o reflorestamento das relações do humano entre si e com os demais seres.

PALAVRAS-CHAVE: Cristianismo. Monoculturas. Perspectivas indígenas.

 


Thought monocultures and the importance of reforestation of the imagination

ABSTRACT: This essay discusses the relationship between the theory and practice of colonial violence, problematizing the effects of the monoculture system in the context of negationism. Based on the Guarani anticolonial cosmogony, the text seeks to present clues for the reforestation of human relationships with each other and with other beings.

KEYWORDS: Christianity. Monocultures. Indigenous people perspectives.

 


NÚÑEZ, Geni. Monoculturas do pensamento e a importância do reflorestamento do imaginário. ClimaCom – Diante dos Negacionismos [online], Campinas, ano 8, n. 21. novembro 2021. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/monoculturas-do-pensamento/