Marta Catunda | POVOS OUVIR – a ressurreição alada

Título | POVOS OUVIR – a ressurreição alada

Esta vinheta/taipa foi entretecida em outubro deste ano com o canto de 58 espécies tendo o Acauã como aquele que traz os agouros de GAIA sobre o franco desaparecimento das espécies aladas. E se isso é audível deveria ao menos provocar algo em nós. Algum tremor, algum presságio esfriando os poros enquanto o pensamento intui. Ideia é veio e quando veio a ideia desta vinheta priscou na mente, pescar no ar e como bem-te-vi fisga inseto. Compor uma vinheta entretecendo ambiências sonoras diversas como taipa; proposta na pesquisa “Cartografia ecologista dos pássaros: por uma ecoestética da educação” de cartografar 57 espécies em oito elementos indicados na ficha técnica abaixo. Propõe uma imersão no canto das aves/pássaros neotropicais, suas ambiências sonoras e espaços de vida misturados em um só limbo sensível para escuta. Não é uma colagem do que se pode ouvir nesses ambientes, mas a invenção de uma outra ambiência entre; intensificada pela abundância alada como uma ressureição proliferação. Até o século XX a afirmação do humano sobre a natureza foi repleta de certezas sobre seu destino. Mas no presente contexto planetário, o impossível vem à tona com muita força. As palavras se desgastam por usos abusivos e/ou impermeáveis, pelas transformações e incertezas do nosso cotidiano. Estamos em um contexto onde/quando a sensação grotesca de mal estar toma corpo e muda a relação com o ambiente em que vivemos sem que possamos compreender o que está acontecendo nessa atmosfera. Pior não conseguimos dizer, o que está acontecendo? A cartografia acima quis trazer algo sobre a extinção de cantos de pássaros, o desaparecimento de centenas de espécies de pássaros da ambiência, ou paisagem sonora dos nossos ambientes de vida. Vivemos o desaparecimento de muitos sons, sendo que para as pessoas com audição comum, a maioria desses sons não são se quer percebidos, quanto mais ouvidos. Para se ter essa percepção é preciso curar-se da síndrome da surdez perceptiva. Os sons ainda estão aí para ouvirmos, mas foram limados da percepção direta, estamos mergulhados em barulho e aprendemos psicologicamente a não ouvir. Por isso, os fons (altura exorbitante dos equipamentos de amplificação do som) estão tão presentes dos discursos à retórica dos poderes instituídos e toda forma de poder pastoral, que gritam nos ouvidos. Gritam porque sabem que já estamos surdos. Com ovelhas teimosas é preciso vociferar. Os pássaros se atrevem com seu canto. Então a aposta aqui desta vinheta é perder tempo, ou perde-se no tempo ouvindo, quem sabe uma estratégia para o pensamento em fluxo e no encontro/sintonia com as culturas orais, do ouvido, que dialogam na imagética/mágica ressonância do canto/asa cósmico. Aquele que talvez ressoe para sempre.

 

 


FICHA TÉCNICA

Edição de som e composição: Marta Catunda

Arquivo Sonoro: Marta Catunda

Composto em outubro/Novembro de 2009 como desdobramento sonoro/musical da pesquisa “Cartografia ecologista dos pássaros: por uma ecoestética da educação” – PNPD – Capes 2014/2018 (Programa de Pós Graduação em Educação – PPGE/UNISO). Fazem parte da vinheta 58 espécies da Região Neotropical composta por nove faixas e ambiências acústicas diferenciadas. Participam o cantos dos seguintes alados: Acauã (herpetotheres cachinnans) como o mensageiro de Gaia.

Pássaros ÁGUA em movimento, MAR: Pelicano (Pelecanus Occidentalis), Flamingo (Phoenicopterus Ruber), Cisne (Cygnus melancoryphus), Garça (Ardea alba), Gaivota (Larus dominicanus), Biguatinga (Anhinga anhinga), Tui-iu-iú (Jabiru mycteria);

Pássaros ÁGUA em repouso LAGO: Ema (Rhea americana), Irerê(Dendrocygna viduata), Curicáca (Teristicos caudatus) Jaçanã (Jacana jacana), Martim-pescador(Megaceryle torquata), Saracura (Aramides cajaneus) Socó-boi (Tigrisoma lineatum);

Pássaros AR ATMOSFERA: Falcão peregrino (Falco peregrinus), Cardeal (Paroaria coronada) Harpia (Harpia harpyia), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), Andorinha (Progne subis), Anhumã (Anhima cornuta) Galo-da-serra (Rupicola rupicola);

Pássaros AR turbulento VENTO: Pavãozinho-do-Pará (Eurypyga helias), Caburé (Glaucidium brasilianum), Japu-verde (Psarocolius viridis), Seriema (Cariama cristata), Quero-quero (Vanellus chilensis), Gralha (Cyanocorax chrysops), Bico-de-lacre (Estrilda astrild);

Pássaros TERRA em repouso: Saíra (Tangara cyanocephala), Araponga (Procnias nudicollis), Uirapuru (Cyphorhinus arada), Cambacica (Coereba flaveola), Surucuá (Trogon melanurus), Tiê (Ramphocelus bresilius), Bico-de-brasa (Monasa nigrifrons);

Pássaros da MONTANHA tectonia: Lavadeira (Fuvicola nengeta), Beija-flor (Eupetomena macroura), Sabiá (Turdus rufiventris), Udu (Momotus momota), Alma-de-gato(Piaya cayana), Curruíra (Troglodytes musculos), Tovaca (Chamaeza meruloides);

Pássaros FOGO concentrado: Arara (Ara chloropterus), Condor (Vultur gryphus), Tucano (Ramphastos tucanus), Tangará (Chiroxiphia caudata), Fri-frió (Linpaugus vociferans), Cigana (Opisthocomus hoazin), Pássaro-boi (Perissocephalus tricolor);

Pássaros TROVÃO fogo ativado: Jaó (Crypturellus undulatus), Pomba (Patagioenas picazuro), Mãe-da-Lua(Nyctibius griseus), João-de-barro (Furnarius rufus), Arancuã (Ortalis guttata) Trinca-ferro(Saltator similis).

 

 


Marta Catunda

Grupo de Estudos Perspectiva Ecologista da Educação/Ritmos de Pensamento

Universidade de Sorocaba – UNISO

E-mail: martacatunda@gmail.com

Celular: (15) 99201-1110

 

 

 

CATUNDA, Marta. POVOS OUVIR – a ressurreição alada. ClimaCom – Povos ouvir – a coragem da vergonha [online],  Campinas,  ano 6, n. 16. Dez. 2019 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/marta-catunda-…urreicao-alada/


 

 

SEÇÃO ARTE | POVOS OUVIR – A CORAGEM DA VERGONHA | Ano 6, n. 16, 2019

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