Gláucia Pérez | Ao mesmo tempo

Título: Gláucia Perez | Ao mesmo tempo


As sobreposições de imagens nos colocam o problema de estar, ao mesmo tempo, em locais e tempos distintos. Ao escolher imagens/fotografias e sobrepô-las tivemos a intenção de despertar os elementos que existem dentro de nós: fogo, terra, água e ar. Ganhar intimidade com os elementos em nós e aprender a transformá-los em respostas que não estão prontas, que ainda não foram criadas, de não apenas aprender com o que nos impõem a Ciência, a Arte, a Filosofia, mas incorporá-las com as artes, as ciências, as filosofias, outros estudos e práticas. Dar a perceber a constante mudança desses elementos da natureza em nós, e a capacidade das imagens de alterarem nossas energias. As imagens têm a necessidade de se relacionarem com o vazio que está em nós, criam ambientes que o tempo nos faz ora lembrar, ora esquecer; podem restaurar nossos elementos e transformá-los em potência de comunicação, escrita e expressão através da arte. Ao mesmo tempo, familiarizar e transformar para divulgar esse despertar que encontramos quando incorporamos a floresta em nós. Um comunicar imanente, desperto e descoberto ao sentir os elementos da natureza que estão em nós e em simbiose com a natureza-floresta. O devir-floresta-arte nos convida a sentir e expressar os elementos que estão em nós, e a reinventar a comunicação e a escrita no intuito de pensar e colaborar para repensarmos como estamos nos comunicando com a natureza. Os encontros entre grupos, comunidades, coletivos etc., nos permitem pensar juntos, com ideias heterogêneas, com vivências e experiências que nos lançam para além do óbvio e do já existente. As imagens sobrepostas nos permitem lembrar que os encontros são possíveis, saudáveis e essenciais ao devir-pensar-floresta-comunicação. Além do que, os elementos despertados nesses encontros nos fazem sentir que não somos apenas feitos do racional, que o sentir é transformar-se com a natureza, que isso é possível e mais viável para as respostas que buscamos nas simbioses que encontramos na natureza. Também nos chamam a atentarmos para o fato de que as nossas vontades e quereres não são soberanos na natureza, que o tempo e a duração são indiferentes aos nossos desejos pessoais. E que a diversidade das espécies na natureza são possíveis em um mesmo espaço, junto com as artes-ciências-filosofias, que já estão disponíveis na imensidão floresta. Lembram-nos, ainda, que o nosso trabalho é cíclico, assim como a natureza e, que dividir e compartilhar, nos faz mais floresta. O nosso constante aprender, descobrir, transformar e diálogo com outros ambientes e espécies nos permite ter a capacidade de transformar a floresta-espaço-vivo que habitamos. As imagens sobrepostas tornam possível coexistir em dois mundos distintos, conectar, ligar e ressignificar os espaços e pensamentos. A sobreposição das imagens não quer preencher a insuficiência da nossa compreensão em relação ao nosso ambiente, antes convidar a guardamos na memória as sutis transições e passagens entre-tempos, entre-meios, instaurar uma memória da simultaneidade e coexistência. A escolha do papel vegetal potencializa essa passagem entre o meio digital-eletrônico e o meio papel, entre o metal-plástico e a celulose-tinta. Essas interações nos convidam a celebrar encontros, abrir em nós paisagens distintas, experimentar materiais diversos em cocriação, a falar de artes, filosofias, ciências, florestas, sons, conversas, mudanças climáticas, Antropoceno, Gaia e simbioses desprogramadas.

 


LEGENDAS

SOBREPOSIÇÃO 1 – flores da Casa de Cultura da Fazenda Roseira e árvores e gramado da Praça da Paz – Unicamp.

SOBREPOSIÇÃO 2 – casarão da Casa de Cultura da Fazenda Roseira e árvores da Praça da Paz – Unicamp.

SOBREPOSIÇÃO 3 – Alessandra Ribeiro, líder da comunidade Jongo Dito Ribeiro, e árvores da Praça da Paz-Unicamp.

SOBREPOSIÇÃO 4 – Alessandra Ribeiro, líder da comunidade Jongo Dito Ribeiro, e árvores da Praça da Paz-Unicamp.

SOBREPOSIÇÃO 5 – Flávia Tamires e árvore, da comunidade Jongo Dito Ribeiro, durante visita à Casa de Cultura Fazenda Roseira e trabalho manual feito em tecido, linhas e folhas.

SOBREPOSIÇÃO 6 – colegas da disciplina “Arte, ciência e tecnologia”, Alice Copetti, Carolina Avilez, Maria Cortez, Tatiana Oliveira, Rafael Guiraldelli, Mariana Vilela, Luciana Martins, Gláucia Pérez e árvores.

SOBREPOSIÇÃO 7 – Alessandra Ribeiro, líder da comunidade Jongo Dito Ribeiro, e gesto de trabalho manual de Gláucia Pérez.

SOBREPOSIÇÃO 8 – Alessandra Ribeiro, Bianca Lúcia Ribeiro e Flávia Tamires e árvores e gramado da Praça da Paz – Unicamp.

SOBREPOSIÇÃO 9 – Alessandra Ribeiro, Susana Dias, Bianca Lúcia Ribeiro, da comunidade Jongo Dito Ribeiro, durante visita à Casa de Cultura Fazenda Roseira e trabalho manual feito em tecido, linhas e folhas por Gláucia Pérez.

FICHA TÉCNICA

Concepção | Gláucia Perez

Texto | Gláucia Perez e Susana Dias

Disciplina e orientação | JC 012 Arte, ciência e tecnologia, MDCC-Labjor-IEL-Unicamp, Profa. Dra. Susana Dias.

Pessoas que tornaram possível esta criação | Alessandra Penha, Alessandra Ribeiro, Alice Copetti, Alda Romaguera, Adriano Amarante, Bianca Lúcia Ribeiro, Carolina Avilez, Carolina Bernardes, Carolina Cantarino Rodrigues, Carolina Scartezini, Cris Monteiro, Eduardo Assad, Flávia Tamires, José Ezcurdia, Luciana Martins, Maria Cortez, Mariana Vilela, Mariela Almeida, Marília Costa, Marli Wunder, Mauro Tanaka, Paula Carolina Batista, Rafael Guiraldelli, Rodrigo Reis Rodrigues, Renato Salgado de Melo Oliveira, Sara Melo, Sylvia Furegatti, Tatiana Plens de Oliveira.

Comunidades e instituições que nos acolheram | Comunidade Jongo Dito Ribeiro e Fazenda Roseira, Fundação José Pedro de Oliveira e Mata Santa Genebra, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e Praça da Paz da Unicamp.

 


 

Este trabalho foi desenvolvido no âmbito da disciplina “JC012 – Arte, ciência e tecnologia”,  ministrada pela professora Susana Dias, no Mestrado em Divulgação Científica e Cultural (MDCC), do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no segundo semestre de 2019. O problema que nos interessou pensar na disciplina neste semestre foi o de entrar em comunicação com um mundo todo vivo, com uma matéria viva, ativa e criativa (DELEUZE & GUATTARI, 1997; STENGERS, 2017; EZCURDIA, 2016; DADA & FREITAS, 2018). Para experimentar essa possibilidade buscamos pensar o que pode ser comunicar em parceria com a floresta, propondo encontros com diversos lugares, materiais e práticas em busca de aprender com diferentes ofícios a como ganhar intimidade com as florestas. Uma das questões que a floresta suscita de interessante para pensar é o fato de reunir uma diversidade de seres-coisas-forças-mundos e propiciar condições para encontros, com a possibilidade de gerar coevoluções, cocriações. Nessas coevoluções-criações estão sempre envolvidas ecologias de devires (negro, índio, animal, vegetal, criança, fungo, máquina, pedra, animal, linha, luz, elemental, cósmico…), a chance de que sejamos afetados e afetemos, de que nos engajemos em movimentos de alegre imbricação recíproca com as minorias, com os não-humanos, com tudo o que pode potencializar o pensamento e a relação com a Terra. Os encontros, e os exercícios de composição sensível entre heterogêneos feitos pelo grupo, e que estão publicados neste dossiê, buscam dar vigor ao chamado de pensar a comunicação como um perceber-fazer-floresta. Uma fé na “instauração” (SOURIAU, 2017; LAPOUJADE, 2017) de toda uma sensibilidade de outra natureza, que permita criar um campo problemático potente para lidar com as dualidades sujeito-objeto, realidade-ficção, humanos-não-humano, matéria-espírito. Uma atenção ao gestos que mobilizam uma “lucidez alegre” (STENGERS, 2017) e que não nos relegam à impotência, afirmando uma vitalidade e confiança no presente e futuro diante destes tempos desafiadores (DANOWSKI & VIVEIROS DE CASTRO, 2014; STENGERS, 2015; LATOUR, 2019).

Agradecemos aos parceiros de criação neste segundo semestre de 2019: Alice Copetti, Carolina Avilez, Gláucia Perez, Luciana Martins, Maria Cortez, Mariana Vilela, Marília Costa, Rafael Guiraldeli, Adriano Amarante, Alda Romaguera, Alessandra Penha, Alessandra Ribeiro, Alice Copetti, Bianca Lúcia Ribeiro, Carolina Bernardes, Carolina Cantarino Rodrigues, Carolina Scartezini, Cris Monteiro, Eduardo Assad, Flávia Tamires, Jose Ezcurdia, Marli Wunder, Paula Carolina Batista, Rodrigo Reis Rodrigues, Renato Salgado de Melo Oliveira, Sara Melo, Sylvia Furegatti e Tatiana Plens Oliveira

 

Bibliografia

DADA, Faseyi Awogbemi; FREITAS, Glória. Dialogando com a semente de obi ou a floresta: um convite para conhecer um pouco da nossa tradição religiosa e cultura Yoruba. ClimaCom – Diálogos do Antropoceno [online], Campinas, ano. 5, n. 12. Ago. 2018 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=9478

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 4. Trad. de Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 1997, pp. 11-113. (Coleção TRANS).

EZCURDIA, José. Cuerpo, intuición y diferencia em el pensamento de Gilles Deleuze. Ciudad de México: Editorial Ítaca, 2016.

DANOWSKI, Débora; CASTRO, Eduardo Viveiros de. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental, 2014.

LAPOUJADE, David. As existências mínimas. São Paulo: n-1, pp. 43-59, 2017.

LATOUR, Bruno. Bruno Latour: “O sentimento de perder o mundo, agora, é coletivo”. [Entrevista concedida a] Marcs Basset. El País, 31 de março de 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/…/internac…/1553888812_652680.html Acesso em: mar. 2019.

SOURIAU, Étienne. Los diferentes modos de existencia/ Étienne Souriau: prefácio de Bruno Latour; Isabelle Stengers. Trad. Sebastian Puente. 1a. ed.. volumen combinado. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Cactus, 2017.

STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naif, 2015, pp. 91-99.

STENGERS, Isabelle. Reativar o animismo. Trad. Jamile Pinheiro Dias. Belo Horizonte: Chão de Feira. (Caderno de Leituras No. 62). 2017. Disponível em: https://chaodafeira.com/…/2017/05/caderno-62-reativar-ok.pdf Acesso em ago. de 2019.

Projetos:

– Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC) – (Chamada MCTI/CNPq/Capes/FAPs nº 16/2014/Processo Fapesp: 2014/50848-9)

– “Por uma nova ecologia das emissões e disseminações: como a comunicação pode modular a mais intensa potência de existir do humano diante das mudanças climáticas?” (CNPq).

– Revista ClimaCom: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/

 

 

 

 

 

 

PÉREZ, Gláucia. Ao mesmo tempo. ClimaCom – Povos ouvir – a coragem da vergonha [online],  Campinas,  ano 6, n. 16. Dez. 2019 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/glaucia-perez-ao-mesmo-tempo/


SEÇÃO ARTE | POVOS OUVIR – A CORAGEM DA VERGONHA | Ano 6, n. 16, 2019

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