Entrevista Eduardo Assad | O problema da fome no Brasil não decorre da produção de alimentos, mas sim da distribuição | Por Allison Almeida

Cientista-líder do componente segurança alimentar do INCT Mudanças Climáticas Fase 2 diagnostica que o país é autossuficiente em produção de alimentos e que, mesmo em áreas mais pobres, e com cenário de mudanças climáticas mais evidentes, como o semiárido, é possível a produção de alimentos satisfatória com preparação, técnicas, pesquisas voltadas para adaptação.

 

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A partir das experiências de escassez de alimentos ocorridas na segunda guerra mundial, agrônomos, geógrafos, economistas e outros estudiosos passaram a adotar o termo segurança alimentar para se referir ao conjunto de medidas sociocientíficas desenvolvidas para evitar quadros de fome. Sete décadas após o conflito, a fome ainda é um obstáculo para a sociedade brasileira, sobretudo nas grandes metrópoles e nas regiões mais pobres como o semiárido nordestino. Ao analisar o problema, Eduardo Assad, cientista-líder do subcomponente Segurança Alimentar do INCT Mudanças Climáticas Fase 2 (INCT-MC2), é categórico ao afirmar que a fome no Brasil não é causada pela produção de alimentos, mas sim de ordem logística. “Nós não temos escassez de alimentos no país. Nós temos má distribuição. Nosso foco para o futuro deve ser a criação de políticas públicas que permitam que os alimentos sejam melhores distribuídos”, apontou. Sobre o futuro da segurança alimentar brasileira, além de vencer definitivamente a fome, o pesquisador afirma que o grande desafio em relação às mudanças climáticas e a agricultura brasileira é encontrar mecanismos para o aumento da produção e, em paralelo, buscar técnicas para reduções de emissões. Como exemplo, cita os trabalhos de agricultura de baixo carbono desenvolvidos na Embrapa e em outras instituições de pesquisa. Além desses temas, o cientista fala nesta entrevista sobre o futuro da agropecuária brasileira, novas pesquisas em relação à produção, a importância da adaptabilidade às mudanças climáticas, modelos agroflorestais e perspectivas sustentáveis de exploração econômica da Amazônia, entre outros assuntos que são tendências de estudos no INCT-MC2.

Climacom – O relatório “Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018”, desenvolvido pela ONU, revelou que as variações do clima e fenômenos naturais extremos, como secas e enchentes, são as principais causas do aumento das estatísticas da fome. Pensando em políticas públicas para segurança alimentar global, qual importância deve-se dar às mudanças climáticas para tomada de decisões estratégicas e um planejamento eficaz para a mitigação dos efeitos do aquecimento global?

Eduardo Assad – Neste relatório, a ONU coloca principalmente a seca como um grande vetor de impacto na segurança alimentar. O que eu concordo, porque este fenômeno vai atingir principalmente as pessoas mais pobres. As inundações entram em outra instância temporal, na categoria de perdas por desastres naturais de curto prazo. Devemos dar atenção ao planejamento em dois aspectos para mitigação destes impactos. Primeiro é importante falar que no Brasil nós temos um dos hotspots do aquecimento global mundial, que é o nordeste, mais precisamente o semiárido nordestino, onde as políticas públicas não avançam há anos. É preciso um olhar mais atento para a seca. O segundo ponto, que eu acho que, em termos de políticas públicas, deveria ser acordado mais seriamente, é que nós não temos escassez de alimentos no país. Nós temos sim má distribuição. Nosso foco para o futuro é a criação de políticas públicas que permitam que os alimentos sejam melhor distribuídos. O que poderia reduzir imediatamente a questão da fome e resolver os dilemas da produção agrícola para o futuro, em caso secas e chuvas fortes, que podem decorrer de um aumento da temperatura. (leia entrevista completa em pdf)

Esta entrevista faz parte das ações do projeto INCT-Mudanças Climáticas Fase 2 financiado pelo CNPq projeto 465501/2014-1, FAPESP projeto 2014/50848-9 e a CAPES projeto 16/2014.