2019, o ano líquido que não acabou | Eduardo Mario Mendiondo

Eduardo Mario Mendiondo é engenheiro de recursos hídricos, professor e pesquisador na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), cientista líder do componente “Gestão de Recursos Hídricos” do Projeto INCT-Mudanças Climáticas 2a. fase (INCTMC2).

Por | Eduardo Mario Mendiondo [1]

WhatsApp Image 2019-12-20 at 11.54.59Jovens de Montreal, em 2019, manifestando pelas mudanças climáticas. Fotos | E. Mario Mendiondo

Para alguns, o ano de 2019 foi um calendário ligado à segurança hídrica. Tudo começou logo após o Carnaval. Pois o de 2019 teve um novo vencedor: os foliões. Milhões deles sobreviveram nas capitais que sumiram embaixo d’água. No Estado de São Paulo, a Defesa Civil previne a população com SMSs. E muitos foliões de ressaca conseguiram driblar águas pluviais fétidas e lixos entupindo bueiros. O risco era altíssimo, e os desastres iminentes. Mas deu sorte. Dessa vez, São Pedro escolheu data certa.

Quando o céu abriu a torneira, entre 10 e 11 de março, os milhões de foliões já tinham retornado para casa depois do Carnaval. Nessa ocasião, houve somente 12 mortos na Grande São Paulo. Porém, poucos perceberam direito: a conta poderia ter sido de dezenas de milhares. Ou seja, várias vezes maior do que o milhar de mortos e desaparecidos da região serrana do Rio de Janeiro de 2011.

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Já em abril, com as águas baixas, a Agência Nacional de Águas (ANA) lançou o Plano Nacional de Segurança Hídrica (PNSH). Com previsão de novos projetos na casa de até R$ 180 bilhões até 2035, era para comemorar. Com mais da metade das 5.560 prefeituras brasileiras sem saneamento básico, houve pestanejar de alcançar parte dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.

Em julho, assisti pessoalmente os jovens pintarem capitais do mundo pedindo atender às mudanças climáticas na política e agenda locais. Em Montréal me deparei até com policiais apoiando manifestantes, que nasceram no século XXI, pedindo um saneamento mais justo e sensível às mudanças climáticas

 

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Esse sentimento se exacerbou, especialmente em agosto, com a estiagem à flor da pele. Os olhos voltaram-se à nossa vedete global, a Amazônia. Queimadas, estatísticas de desmatamento, e uma guerra infinita, de quem não quer ver, contra os científicos e até entre governos.

E a chapa continuou quente até dezembro, com uma COP21 convulsionada por três comunidades. Por um Brasil que não a quis, um Chile que não a sediou, e uma Europa com a nova conta incerta a pagar por seu divórcio, o BREXIT. Um destaque: a pessoa do ano é uma menor de idade e é mulher.

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A força de novas e velhas gerações, de dois séculos juntos (XX e XXI), se encena no olhar de Greta Thunberg. Para muitos, uma heroína, uma Joana D’Arc do Século XXI, de uma nova sustentabilidade local, que passa pelo saneamento. Mas para poucos, pouquíssimos, ela é uma “pirralha”, com necessidades de “cinema”.

Quantos talvez aceitariam o título de pirralhos, ainda se se sentirem úteis, para ajudarem a termos 100 % de águas urbanas sustentáveis nas 5.560 prefeituras brasileiras? E chega a semana de Natal e Ano Novo, porém Papai Noel ameaça chegar dias antes: a Câmara de Deputados conclui aprovação do novo marco do saneamento básico.

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Parece que precisamos chegar a uma taxa SELIC abaixo de 4,5% ao ano, e com quase um terço de nossa massa de trabalhadores ainda no limbo, para o saneamento chegar no holofote? Veja a importância. Esse novo marco permite, em tese, a exploração do serviço pela iniciativa privada e prevê coleta de esgoto para 90% da população até 2033. Um terroir de ODS…

O novo marco determina regras para o setor; abre caminho para a exploração do serviço pela iniciativa privada; e estabelece metas para os próximos anos. O que é um salto do tamanho de Amazônia. É um novo olhar para os paradoxos de águas urbanas: quando não chove, nossos rios urbanos estão imundos de tanto esgoto doméstico clandestino; e quando chove, pasme!, as ETEs (Estações de Tratamento de Esgoto), se funcionando, não conseguem receber, nem tratar, 1000% mais água que chega de tanto volume de infiltração de águas pluviais que ingressa em sistema de esgotos cada vez mais velhos e com menos investimento e manutenção.

Sim, 2019 foi o ano da segurança hídrica, e será lembrado por um ponto de inflexão para o restante do século XXI. Como eu gostaria de me manter um “pirralho” que vive 200 anos para ver isso acontecer? Eu acho que 2019 é um ano líquido que não acabou…

Agradecimentos

Este artigo é produto do projeto INCT-Mudanças Climáticas Fase 2 financiado pelo CNPq projeto 465501/2014-1, FAPESP projeto 2014/50848-9 e a CAPES projeto 16/2014.

[1] Engenheiro de recursos hídricos, professor Universidade de São Paulo (USP) na Escola de Engenharia de São Carlos, orientador do Programa de Pós-graduação em Engenharia Hidráulica e Saneamento, cientista líder do sub-componente “Gestão de Recursos Hídricos” do Projeto INCT-Mudanças Climáticas 2a. fase (INCTMC2).