Covid-19 e economias da diversidade: uma crítica antropológica da biologização da raça nos ensaios clínicos com vacinas | Rosana Castro


Rosana Castro [1]

 

 

INTRODUÇÃO

A pandemia de Covid-19 tem se mostrado particularmente perigosa para grupos raciais e étnicos específicos em diferentes países. Nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Brasil, levantamentos epidemiológicos apontaram que indivíduos idosos, homens e negros têm configurado um perfil de casos mais graves e de hospitalizações, com uma maior chance de mortalidade quando comparados com pessoas brancas e jovens (BAQUI et.al., 2020; BHALA et.al., 2020). O debate científico em torno desses achados tem conduzido a diferentes interpretações e propostas de medidas de saúde pública necessárias à mitigação dos impactos racialmente desproporcionais sobre tais grupos. Por um lado, avolumam-se análises que consideram que, devido ao fato de pessoas negras estarem, de modo geral, alocadas nas piores condições de habitação, trabalho, transporte e acesso a equipamentos e insumos de proteção em saúde, tais grupos não somente estão mais expostos ao vírus como encontram-se sob risco de desenvolverem casos mais graves (GOES et al., 2020; RIBEIRO et.al., 2020). Compreendendo todos esses fatores como componentes produtivos e reprodutivos do racismo no contexto da pandemia, diversos autores apontaram o desmantelamento dessas formas estruturadas e institucionalizadas de discriminação como fundamental para o enfrentamento da pandemia.

Por outro lado, há produções científicas que sugerem haver fatores de ordem biológica na fundamentação dessas iniquidades de saúde. Os autores de um artigo recente, publicado no aclamado periódico The Lancet, afirmaram que “[…] a origem étnica pode ser considerada um fator de risco para suscetibilidade à Covid-19 severa, em adição à idade avançada, sexo masculino e presença de comorbidades cardiometabólicas/vasculares” (ZAKERI et.al., 2020, p. 10 – grifo nosso). Mais especificamente, o estudo argumenta que os dados e cálculos estatísticos realizados permitem afirmar que a “etnicidade” configura um dos fatores que explicam variações individuais e raciais na manifestação na evolução da Covid-19, sendo os estágios da “história natural” da doença associados à identificação racial dos indivíduos[2].

“De modo geral, nossos resultados sugerem que as etnicidades negra ou miscigenada estão associadas com a COVID-19 em diferentes estágios de sua história natural, quando comparados com a etnicidade asiática (i.e. progressão para adoecimento sintomático severo exigindo hospitalização vs. morte intra-hospitalar). Ajustes por comorbidades cardiometabólicas e vasculares atenuam parte do risco aumentado, mas fatores adicionais relacionados à etnicidade podem desempenhar grande um papel”. (Ibid., p. 6)

Discursos e práticas científicas semelhantes têm sido acionados no contexto da realização de pesquisas clínicas para desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19. Representantes de empresas farmacêuticas multinacionais e cientistas estadunidenses envolvidos na realização de ensaios com candidatas imunizantes têm argumentado que, diante da prevalência de Covid-19 em populações negras e latinas no país, é fundamental que tais grupos estejam “representados” nos experimentos com candidatas à imunizante. Para além do cumprimento de requisições regulatórias da Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória de medicamentos e alimentos dos Estados Unidos, as preocupações com a inclusão de indivíduos desses grupos raciais e étnicos têm se mostrado crescentes pelo fato de muitos negros e latinos estarem demonstrando hesitação ou mesmo se recusado a participar de ensaios clínicos. Devido a questões como o histórico de abusos médicos contra a população negra do país e os riscos de exposição a órgãos governamentais no cenário recrudescimento de políticas xenofóbicas de imigração, tais grupos têm sido particularmente difíceis de recrutar nos Estados Unidos (WARREN et al., 2020; JAKLEVIC, 2020) (leia o artigo completo em pdf).

 

Recebido em 12/11/2020

Aceito em 26/11/2020

 

[1] Doutora em Antropologia Social. Pesquisadora independente. E-mail: rosana.rc.castro@gmail.com

[2] Neste estudo, as classificações “étnicas” combinam diferentes categorizações sociais, oriundas de auto-declarações raciais, étnicas, de nacionalidade e de origem geográfica. Assim estão descritas as classificações de “etnicidade” dos indivíduos envolvidos na pesquisa descrita no artigo: “brancos (britânicos, irlandeses, ciganos e outros brancos); negros (africanos, caribenhos e outros negros), asiáticos (indianos, paquistaneses, bengaleses, chineses e outros asiáticos) e miscigenados/outros” (ZAKERI, 2020, p. 3).

 

Covid-19 e economias da diversidade:

uma crítica antropológica da biologização da raça nos ensaios clínicos com vacinas

RESUMO: Os ensaios clínicos com vacinas contra o novo coronavírus vêm avançando rapidamente, e o Brasil tem se destacado internacionalmente como um local “ideal” para a realização desses experimentos. Neste artigo, colocarei em relevo os modos com que a epidemiologia desigual de contágios e óbitos por Covid-19 nos Estados Unidos e no Brasil tem sido caracterizada como um imperativo científico e ético para recrutamento de participantes de pesquisa negros e latinos, tendo laboratórios farmacêuticos afirmado que a falta de “diversidade” nos estudos pode pôr em xeque a própria eficácia das vacinas. Segundo tais empresas, iniquidades epidemiológicas podem se referir a diferenças raciais biológicas no contágio potencialmente extensivas às respostas imunológicas às vacinas – articulando, assim, uma problemática prática de biologização da categoria “raça”. Reflito a respeito de como as dificuldades em garantir “diversidade” tem sido caracterizada como um fator de atraso no lançamento de vacinas, um possível elemento de comprometimento da eficácia do tratamento e de intensificação da fragilização da confiança nas vacinas e na ciência. Nesse contexto, grupos negros, cujas vidas foram ainda mais precarizadas pela pandemia, podem ser parcial ou totalmente responsabilizadas pelas doenças e mortes que lhes acometeram e eventuais frustrações da corrida tecnológica pelas vacinas.

PALAVRAS-CHAVE: Covid-19. Vacinas. Raça.


Covid-19 and economies of diversity:

an anthropological critique of the biologization of race in clinical trials with vaccines

ABSTRACT: Clinical trials with vaccines against the new coronavirus are advancing rapidly, and Brazil has stood out internationally as an “ideal” location for experiments. In this article, I highlight the ways in which the uneven epidemiology of contagions and deaths by Covid-19 in the United States and Brazil has been characterized as a scientific and ethical imperative for recruiting black and Latino research subjects, with pharmaceutical laboratories affirming that the lack of “diversity” in the studies may jeopardize the very effectiveness of vaccines. According to such companies, epidemiological inequities refer partially to biological racial differences in contagion that potentially extend to immunological responses to vaccines. In this movement, such actors articulate a problematic practice of biologization of the category of race. I reflect on how the difficulties in guaranteeing “diversity” have been characterized as a threefold factor responsible for the delaying of the launch of vaccines, the compromising of their effectiveness and the weakening of confidence in science. In this context, black groups, whose lives were made even more precarious by the pandemic, may be partially or fully held responsible for both the contagions and deaths that affected them and possible frustrations in the technological race for vaccines.

KEYWORDS: Covid-19. Vaccines. Race.


CASTRO, Rosana. Covid-19 e economias da diversidade: uma crítica antropológica da biologização da raça nos ensaios clínicos com vacinas. ClimaCom – Epidemiologias [Online], Campinas, ano 7,  n. 19,  Dez.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/covid-19-e-diversidade/