Carolina Scartezini | Experimento-ritual de corporreativação 2 – altar-arquipélago

Título: Carolina Scartezini | Experimento-ritual de corporreativação 2 – altar-arquipélago


Este é um experimento-ritual de magia erótica literária. Um teste da eficácia (STENGERS, 2008; 2017) do toque-transformação do refrão do canto sagrado de Kore, She changes everything She touches, and everything She touches, changes… (STARHAWK, 1999, p. 115) na criação de relações entre superfícies. Fotografias fragmentárias, versos dispersos, mares e rios (in)contidos em pequenos recipientes afetivos, memórias entre a lembrança e o esquecimento, alimentos compartilhados, desejos de saber com todos os sentidos, de saber com a língua, descobrir os gostos. Safo, um navio de tesouros naufragado milênios atrás (STIMPSON apud DEJEAN, 1989, p. xv) cujos destroços vêm dar notícias de tantas viagens entre poetas, embarcações e ilhas. Histórias aquáticas sagradas que se enlaçam e se mesclam entre as formas e os padrões: Afrodite, as Icamiabas amazônicas, Oxum, Iemanjá… Uma divagação (OLIVEIRA, 2011) poética singrando com o ritmo das ondas vai fazendo notável a magia do mistério revelado ao náufrago Crusoé pela ilha Speranza (TOURNIER, 1985, pp. 60-61) ao dizer da amorosidade que se expressa melhor pelas superfícies. Amadoras e amadas de Lesbos passam pelas ilhas míticas de Afrodite (RAGUSA, 2005) – Chipre, Citera, Creta – e vão dar à praia de outras ilhas míticas, povoadas por outras encantadas. Miranda herdeira da ilha explorada e abandonada por Próspero depois da Tempestade (SHAKESPEARE, 1611), Morgana invocando de novo, outra vez, agora as brumas para poder reencontrar Avalon (ZIMMER BRADLEY, 1989). Pelo meio dos toques-transformações entre as superfícies consagradas neste altar-arquipélago, a poesia de Safo vem ao encontro dos instantes que a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen viveu junto ao mar e das muitas viagens que a poeta e diplomata brasileira Dora Vasconcellos experimentou inventando caminhos poéticos e relações internacionais.

 


 

FICHA TÉCNICA

Concepção da oficina |Carolina Scartezini

Fotos | Tatiana Plens

Lugar | Labjor – Unicamp

Data | 16 de outubro de 2019

 


 

 

Esta atividade fez parte da proposta da disciplina “Arte, ciência e tecnologia” – MDCC-Labjor-IEL-Unicamp segundo semestre de 2019 no Encontro “Devir rio-mulher-mar”, dentro da série de encontros “Ecologias de Devires: do chamado a fazer-perceber floresta” organizado pelo Grupo multiTÃO: prolifer-artes sub-vertendo ciências, educações e comunicações.

Disciplina: JC012 Arte, ciência e tecnologia

Professora – Dra. Susana Dias

Esta série de encontros está sendo proposta no âmbito da disciplina “Arte, ciência e tecnologia” onde o problema que nos interessa pensar é o de entrar em comunicação com um mundo todo vivo, com uma matéria viva, ativa e criativa (DELEUZE & GUATTARI, 1997; STENGERS, 2017; EZCURDIA, 2016; DADA & FREITAS, 2018). Seguiremos neste semestre com a ideia de pensar o que pode ser comunicar em parceria com a floresta, propondo encontros com diversos lugares, materiais e práticas para que possamos aprender com diferentes ofícios a como ganhar intimidade com as florestas. Uma das questões que a floresta suscita de interessante para pensar é o fato de reunir uma diversidade de seres-coisas-forças-mundos e propiciar condições para encontros, com a possibilidade de gerar co-evoluções, co-criações. Nessas co-evoluções-criações estão sempre envolvidas ecologias de devires (negro, índio, animal, vegetal, criança, fungo, máquina, pedra, animal, linha, luz, elemental, cósmico…), a chance de que sejamos afetados e afetemos, de que nos engajemos em movimentos de alegre imbricação recíproca com as minorias, com os não-humanos, com tudo o que pode potencializar o pensamento e a relação com a Terra. Nesse sentido os encontros foram pensados em blocos de devires e neste segundo encontro propusemos “Devir-mulher-rio-mar”. Os encontros, e os exercícios de composição sensível entre heterogêneos que serão feitos depois, buscam dar vigor ao chamado de pensar a comunicação como um perceber-fazer-floresta. Uma fé na “instauração” (SOURIAU, 2017; LAPOUJADE, 2017) de toda uma sensibilidade de outra natureza, que permita criar um campo problemático potente para lidar com as dualidades sujeito-objeto, realidade-ficção, humanos-não-humano, matéria-espírito. Uma atenção ao gestos que mobilizam uma “lucidez alegre” (STENGERS, 2017) e que não nos relegam à impotência, afirmando uma vitalidade e confiança no presente e futuro diante destes tempos desafiadores (DANOWSKI & VIVEIROS DE CASTRO, 2014; STENGERS, 2015; LATOUR, 2019).

Agradecimentos a todos que participaram desta disciplina: Alessandra Penha, Alessandra Ribeiro, Alice Copetti, Alda Romaguera, Adriano Amarante, Bianca Lúcia Ribeiro, Carolina Avilez, Carolina Bernardes, Carolina Cantarino Rodrigues, Carolina Scartezini, Cris Monteiro, Eduardo Assad, Flávia Tamires, Gláucia Perez, José Ezcurdia, Luciana Martins, Maria Cortez, Mariana Vilela, Mariela Almeida, Marília Costa, Marli Wunder, Mauro Tanaka, Paula Carolina Batista, Rafael Guiraldelli, Rodrigo Reis Rodrigues, Renato Salgado de Melo Oliveira, Sara Melo, Sylvia Furegatti, Tatiana Plens de Oliveira.

Bibliografia

DADA, Faseyi Awogbemi; FREITAS, Glória. Dialogando com a semente de obi ou a floresta: um convite para conhecer um pouco da nossa tradição religiosa e cultura Yoruba. ClimaCom – Diálogos do Antropoceno [online], Campinas, ano. 5, n. 12. Ago. 2018 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=9478
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 4. Trad. de Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 1997, pp. 11-113. (Coleção TRANS).
EZCURDIA, José. Cuerpo, intuición y diferencia em el pensamento de Gilles Deleuze. Ciudad de México: Editorial Ítaca, 2016.
DANOWSKI, Débora; CASTRO, Eduardo Viveiros de. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental, 2014.
LAPOUJADE, David. As existências mínimas. São Paulo: n-1, pp. 43-59, 2017.
LATOUR, Bruno. Bruno Latour: “O sentimento de perder o mundo, agora, é coletivo”. [Entrevista concedida a] Marcs Basset. El País, 31 de março de 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/…/internac…/1553888812_652680.html Acesso em: mar. 2019.
SOURIAU, Étienne. Los diferentes modos de existencia/ Étienne Souriau: prefácio de Bruno Latour; Isabelle Stengers. Trad. Sebastian Puente. 1a. ed.. volumen combinado. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Cactus, 2017.
STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naif, 2015, pp. 91-99.
STENGERS, Isabelle. Reativar o animismo. Trad. Jamile Pinheiro Dias. Belo Horizonte: Chão de Feira. (Caderno de Leituras No. 62). 2017. Disponível em: https://chaodafeira.com/…/2017/05/caderno-62-reativar-ok.pdf Acesso em ago. de 2019.


Projetos:

– Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC) – (Chamada MCTI/CNPq/Capes/FAPs nº 16/2014/Processo Fapesp: 2014/50848-9)

– “Por uma nova ecologia das emissões e dissemina ções: como a comunicação pode modular a mais intensa potência de existir do humano diante das mudanças climáticas?” (CNPq).

– Revista ClimaCom: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/

 

 

 

SCARTEZINI, Carolina. Experimento-ritual de corporreativação 2 – altar-arquipélago. ClimaCom – Povos ouvir – a coragem da vergonha [online],  Campinas,  ano 6, n. 16. Dez. 2019 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/carolina-scart…ar-arquipelago/


SEÇÃO ARTE | POVOS OUVIR – A CORAGEM DA VERGONHA | Ano 6, n. 16, 2019

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