Vem ca-fungar, deseducar | Elenise Cristina Pires de Andrade


Elenise Cristina Pires de Andrade[1]

 

Mushroom, the clash!

Nunca me interessei por cogumelos, aliás as invenções que teço ao ouvir/ler/ver sobre eles me causam uma sensação de desconforto. Tenho sempre uma ideia, completa e totalmente inexplicável no campo do dizível, de que tais corpos exercem uma repulsa ao meu tato e, como uma continuidade, ao meu paladar.

Até que um dia, ano passado, em uma mesma semana dois fatos ‘fúngicos’ aconteceram:  uma estudante me apresentou o texto de Anna Tsing (2015), Margens Indomáveis: cogumelos como espécies companheiras enquanto uma amiga e professora de pilates me apresentou, através de uma aula online, um quadro de várias espécies de cogumelos que havia ganho e que decorava a parede de um dos cômodos de sua sala.

Durante meses esses encontros permaneceram completamente desencontrados nas perambulações que os pensamentos e as ideias provocam em nós. Não li o texto muito menos experimentei alimentos com cogumelos e, como moro no sertão baiano, nem precisava desviar meus caminhos e olhares para tais estruturas, já que as águas e os solos de minha casa e dos lugares que percorro não se apresentam propícios para os micélios. Até que, durante um voo sobre a Patagônia argentina, meu celular resolveu não permitir que eu assistisse aos episódios de streaming que havia salvo em sua memória. Plano B: celular do companheiro de vida e, a trombada, The last of us [2].

(Leia o ensaio completo em PDF)

 

Recebido em: 25/04/2023

Aceito em: 15/05/2023

[1] Professora Plena da Universidade Estadual de Feira de Santana, UEFS, Bahia. Email: elenise@uefs.br.

[2] Série estadunidense apresentada e produzida pela HBO com estreia no Brasil em janeiro de 2023. O roteiro de Craig Mazin e Neil Druckmann foi baseado no videogame homônimo, projetado por Jacob Minkoff, lançado pela Sony Interactive Entertainment em 2013

 

 

 

Vem ca-fungar, deseducar

RESUMO: Uma contaminação fúngica. A série The last of us. Propor, neste ensaio, fraturar, desafixar o ethos colonialista, autocrático e violento que percorre as narrativas dos conceitos das ciências biológicas quando aportam junto aos (des)encontros em salas de aula. A partir do conceito de hospitalidade (Derrida) proponho que a educação científica, incluindo a escolar, pulse e desaloje-se dos corpos-casas-prisão e provoque pulsões vitais (Rolnik, 2018). O que nos impede de fabular uma vida não cafetinada à Bio ao mesmo tempo que nos insurgimos contra o regime colonial-cafetinístico do logos na e com a Bio-logia?

PALAVRAS-CHAVE: Educação científica. Micropolíticas. Fungos.

 


 

Come here to spread away and miseducate

ABSTRACT: A fungal contamination. The last of us series. I propose, in this essay, to fracture, to unfasten the colonialist, autocratic and violent ethos that runs through the narratives of the biological sciences concept when they inhabit the (mis)encounters in classrooms. Based on the concept of hospitality (Derrida) I propose that scientific education, including school education, pulse and move away from prison-houses-bodies and provoke vital pulsations (Rolnik, 2018). What prevents us from fable a non-pimped life to Bio at the same time that we rise up against the colonial-pimp regime of logos in and with Biology?

KEYWORDS: Science education. Micropolitics. Fungi.


ANDRADE, Elenise Cristina Pires de. Vem ca-fungar, deseducar. ClimaCom – Ciência.Vida.Educação. [online], Campinas, ano 10, n. 24., mai. 2023. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/cafungar/