Barulho | Vitória Moro Bombassaro


Vitória Moro Bombassaro[1] [2]

 

“O que faz um corpo sorrir? Por que muitos dos que já foram seus pares um dia na vida, de repente, não são mais? O que faz um corpo se aproximar de outro, sorrir junto e silenciar junto? O que dizer da afeição e da empatia instantâneas, muitas vezes sem nenhum motivo aparente? Por que traz tanta alegria sorrir junto com aqueles para os quais não é necessário explicar, justificar ou se estender nas palavras? O que faz alguns corpos serem de uma mesma tribo? E o que faz um corpo específico sentir que aquela tribo, em um determinado momento da vida, é a sua tribo? (FERNANDES, 2013, p. 64). 

Nas quintas-feiras de 2019 eu costumava ficar o dia todo na escola, das 7:30 às 17:10. Eu sempre chegava um pouco antes e saia um tanto depois. Levava meu potinho com comida e almoçava por lá mesmo. Era difícil saber a hora que eu estava trabalhando ou não, tudo era um contínuo. Quando eu estava no horário de almoço lá vinha uma ideia genial para uma aula (depois eu via que nem era tanto assim). 

Por ter um acúmulo de trabalho muito grande e estressante, provas e trabalhos para corrigir aos montes, às vezes eu fazia um período de jogos. Os jogos podiam ser de cartas, xadrez, damas, moinho, Uno, torre… “O passo do jogo desencadeia um itinerário de encontros, e tensionamentos” (FERNANDES, 2013, p.19), seja como professora ou estudante. Eu usava os jogos para observar como estava a socialização dentro das turmas e, quando necessário, a partir do próprio jogo realizava intervenções propondo ajuntamentos com diferentes companhias, para valorizar outras formas de aprendizagem e inteligência, para criar um laço mais estreito com essas e esses que passavam a ser as minhas e os meus… Minhas alunas. Meus alunos. Minhas pequenas pessoas. 

Usava os jogos também para a pausa. Pausa essa, germe do porvir, que é necessária para as descontinuidades que proporcionam o aprendizado (FERNANDES, 2013). Sabe aquele aprendizado sem disciplina específica, sem hora para acontecer, descompromissado, impossível de representar ou descrever? O aprendizado que não se aprisiona, que não se ajusta, que não progride, que não escreve em cima de linha reta. Esse que nem se deixa chamar de aprendizado.

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Figura 01 – Fotografia de uma estudante. Acervo da autora (2019).

Após corrigir algumas provas e ser requisitada (talvez intimada) diversas vezes, eu ia para junto dessas pessoas estudantes-jogadoras. Algumas vezes sentava no chão, outras, puxava uma cadeira. Meu jogo favorito é o da torre. Aquele que se deve tirar um bloquinho por vez sem deixar ela cair, sabe? Pois eu nunca soube direito a regra e cada vez que jogávamos, fazíamos propostas diferentes do que podia e do que não podia fazer. Fazíamos concessões, chegávamos a acordos. 

Mas um período de jogos é um tempo enorme e, ao mesmo tempo, não é tempo nenhum. O tempo anda diferente conforme conseguimos nos entregar ao jogo. O tempo corre muito depressa quando chega ao final do período, quando “bate” o sinal para irmos embora. Para onde foi aquele tempo que estava aqui conosco ainda agora em que eram apenas 16 horas? Ao mesmo tempo, cada segundo se demora a passar. O tempo com passo lento, desviante, dobrado sobre si. Os instantes se alongam, os segundos circulam em cima de seu próprio eixo, os pés jamais vão à frente, sempre ao lado. O momento cria moradia na memória compartilhada com a carne. Carne única e coletiva, de corpo próprio e compartilhado. É o tempo flutuante habitando o tempo pulsado dos relógios. Tempo relativo à velocidade dos corpos. Tempo que passa mais devagar e alongado para sujeitos que se deslocam em alta velocidade durante a viagem. Teria o tempo como ser um só diante do tanto que pode ser?

E ainda tem o barulho dos jogos. Ah, o barulho dos jogos. Eu queria muito que se divertissem e queria me divertir também. Mas havia algo não dito dentro de mim que pedia silêncio. Nunca houve reclamação ou pedido das professoras para diminuirmos o volume. Era uma voz inaudível que gritava pelo silêncio das esperadas salas de aula de filmes em que a professora era uma excelente profissional. Essa voz vestida de verde militar que andava entre as mesas e pedia silêncio, com um apito entre os lábios e uma régua de madeira muito grande entre as mãos cruzadas nas costas. Sempre que havia uma risada alta ou um gritinho agudo, esganiçado, eu olhava, chamava o nome e dizia “mais baixo!” com o dedo indicador encontrando o polegar ou em frente à boca. Mas como se faz silêncio quando está-se divertindo? Como se faz silêncio quando ele não importa tanto assim? Como fazer silêncio quando a professora é uma das que escancara o som no mais alto do seu volume? Eram sempre as turmas com seres mais jovens as que faziam mais barulho, 5º e 6º ano conseguiam se soltar e viver a experiência em sua plenitude. A adolescência atrapalhava sempre turmas de 8º e 9º anos e os gritos vinham acompanhados de brigas sérias, que necessitavam de intervenção. 

Em uma dessas quintas-feiras de jogo, no último período de uma tarde bastante quente e ensolarada, aconteceu algo inesperado. Na verdade, toda aula sempre tem uma pitada (ou muitas) de inesperado, mas essa foi única do seu modo. Nesse dia, depois de alguns minutos em que uma aluna já tinha iniciado um penteado bem bonito e moderno no meu cabelo, um grupo de quatro alunas veio me procurar. Tímidas, uma empurrava a outra para me fazer uma pergunta – vai tu, vai tu, vai tu, vai tu… Até que eu fiquei sem paciência para o que estava acontecendo e disse: “Falem gurias, o que vocês querem?”. Elas, que faziam aula de música e tinham os instrumentos na escola, queriam continuar o ensaio de uma música. Eu achei ótimo no mesmo instante, aí veio a voz andando na minha direção com suas botinas de couro preto, bateu a régua de madeira em cima das provas que estavam na minha mesa, entre as minhas mãos, e me olhou severamente, com a sobrancelha levantada. Ela gritou: “e o barulho, querida?” (Leia o ensaio completo em PDF).

 

Recebido em: 30/06/2020

Aceito em: 30/07/2020

 

[1] Professora de Ciências em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental do Rio Grande do Sul, estudante de Especialização em Educação Especial na PUC-RS, mestranda do Programa de Pós- Graduação em Educação da UFRGS, na linha de pesquisa Arte, Linguagem e Currículo, sob orientação do Prof. Dr. Cristian Poletti Mossi. Endereço eletrônico: <vickymouras1@gmail.com>.

[2] Este ensaio compõe o projeto de dissertação de mestrado da autora, intitulado provisoriamente de “Trançar de corpos: afe(c)tos de uma professora”, realizado no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Arte, Linguagem e Currículo, sob orientação do Prof. Dr. Cristian Poletti Mossi.

 

Barulho

 

RESUMO: O presente ensaio expõe uma cena de sala de aula em que a autora-professora coloca em suspensão a disciplinarização dos corpos presentes no espaço escolar. São trazidas para compor o exercício de pensamento as potências de ação e problematização a partir do jogo e do barulho. Porém, um conflito se instaura pela internalização da necessidade de silêncio e controle na sala de aula, iniciado por meio de uma solicitação de quatro alunas junto à professora. Por fim, a quebra desse silêncio demagógico é instaurada com a música e a liberdade de ação.

PALAVRAS-CHAVE: Corpo. Silêncio. Sala de aula.

 

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Noise

 

ABSTRACT: This essay exposes a scene of the classroom that the author-teacher puts in suspension the disciplinarization of the bodies presents in the school space. There are brought to compose the thinking exercise the strengths of action and problematization from the game and the noise. However, a conflict settles down through internalizing the need for silence and control in the classroom initiated through a request of four students to the teacher. Lastly, the break of this demagogic silence is established with the music and the freedom of action.

KEYWORDS: Body. Silence. Classroom.


BOMBASSARO, Vitória Moro. Barulho. ClimaCom – Devir Criança [Online], Campinas, ano 7,  n. 18,  Set.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/barulho-vitoria-moro-bombassaro