Alice Dalmaso e Mariana Vilela | DevirAÇÕES Floresta


Alice Dalmaso [1]

Mariana Vilela [2]

 

Um Manto-conceito-ideia: no ramo da Botânica, o manto se refere a uma cobertura vegetal que pode ser composta de diferentes espécimes de plantas rasteiras, aliada a outros seres vivos. Um manto vegetal apresenta a fisionomia de uma vegetação inicial, rasteira: estrato vegetativo formado de uma multiplicidade de seres e processos, matéria orgânica em decomposição pela ação de fungos e bactérias, junto ao crescimento de plantas herbáceas e outras plântulas. Uma ecologia ordenada que abraça uma dinâmica sutil de elementos que formam e transformam todo um ecossistema, numa interdependência de macro, micro existências e fenômenos.

Nesta produção, o Manto, portanto, funciona como uma cobertura-superfície-textura de inscrição de diferentes seres e processos, o qual veste um ser híbrido extemporâneo, propagador-previsor-comunicador de um passado, presente e futuro, coexistindo em bloco. Quem o veste encarna um terrorismo armado de devires índio, criança, mulher, animal, negro, linhas, galáxias, cosmos, munido de multiplicidades e tendo a floresta (seus elementos, cores, texturas, modos de existências) como parceiros de pensamento e criação.

A vestimenta foi confeccionada a partir das tentativas de realizar procedimentos que procuravam instaurar conexões entre os encontros produzidos na e pela disciplina Arte, Ciência e Tecnologia (Labjor/Unicamp, 2019): experimentações com tentativas de impressão botânica num tecido de algodão, inscrições de textos à mão, palavras soltas escritas e bordadas, desenhos. A intenção: conduzir um aprendizado com certa alquimia das bruxas, das mulheres, das crianças, dos cientistas, pesquisadores, testando diferentes materialidades, ativando experiências animistas (STENGERS, 2017) de escrever-mexer-compor com uma multiplicidade de elementos, pessoas e criaturas que vivem nesse mundo, abertas às transformações que esse agenciamento produz em nós, e ao que ele pode comunicar.

Tivemos que criar intervalos de um tempo e um modo atencional de entrar no que o manto nos evocava a manipular: um laboratório alquímico, aprendizado prático que deseja “honrar a criação de conexões, de protegê-las contra os modelos e normas” (STENGERS, 2017, p. 15).  Catar folhas, flores, chás, misturar tudo, e brincar com a possibilidade de perceber as diferentes tonalidades de gradientes de cores extraídas dos pigmentos fotossintéticos de diferentes plantas. Escolher linhas e pontos, brincar de fazer seres, atravessar o manto bordando entre silêncios e ruídos, entre os sons do mundo; acoplar desenhos produzidos pelos colegas; palavras escritas no tecido, fragmentos de textos tensionados durante a disciplina, poemas, força da palavra que se conjuga com as linhas de um bordado, escritas no tecido, desenhos e demais inscrições que possam surgir, nas interações com materiais, ideias, conversas, encontros, no manuseio e experimentação com os materiais.

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Crédito de imagem: Alice Dalmaso

Escrevemos por entre folhas, catando-as, manuseando-as, cheirando-as. Extraímos palavras consideradas mágicas, aquelas que tomam a “potência mágica” (STARHAWK, 1997), as quais, talvez, não sejam palavras ‘confortáveis’ aos nossos sentidos rotineiros, porque não soam tão aceitáveis, racionais e científicas. Palavras, para nós, entretanto, tem a força de poder partir a representação ao meio, e pulverizar lanças de pensamento e sensação. Essas palavras foram retiradas de leituras e afetos percorridos durante a disciplina, bem como de escritas coletivas proliferadas a partir desses mesmos materiais e materialidades. Tudo parecia exigir de nós um vínculo a ser realizado, costurado, alinhado, com tudo que poderia chegar e ser parte desse Manto-cobertura-superfície-textura.

O que eu quero dizer é que alguma coisa acontece por causa desse vínculo. Acontece algo novo no mundo. A relação só existe, enquanto o vínculo é algo que se cria. Eu diria, então, que mesmo se houver um sujeito e um objeto, o que se cria é um novo vínculo. É esse o papel da experimentação. Criar um vínculo é o que faz os cientistas dançarem. Até que eles param de dançar quando pensam em ‘possíveis interessados’ e em ‘quem pode dar dinheiro’ (STENGERS, 2016, p. 165).

Parece-nos que essa passagem sobre a dança é um pouco sobre o que nos encanta no conceito de devir, ou melhor, de um modo de viver que procura estar atento aos devires: dançar, para experimentar um vínculo. Isso implica traçar um plano que nada tem a ver com a forma das coisas, pessoas, elementos, criaturas e seres, nem com as subjetivações, mas com aquilo que nos atravessa, que se vincula, que prolifera potências e afetos e, quiçá, faz perceber o imperceptível (DELEUZE; GUATTARI, 1997). Isso, que tomamos como uma atividade e a construção de uma postura de co-engendramento com o mundo, não deseja pessoalizar, nem identificar, tampouco significar ou subjetivar, mas procura aprender com os gestos, os materiais, os modos de existir, os procedimentos, as posturas, os verbos que dão a ver mundos: devir-criança do homem, devir-mulher da mulher e do homem, devir-índio-negro-do homem.

Devir-floresta-planta-linhas-animais-bordadeiras-bruxas-lobos-ratos-crianças do homem, devires-menores, imperceptíveis, inauditos de todos nós. Blocos de devir, que não são outra coisa que o próprio vínculo, sujeito e objeto não subjetivados, acabados, determinados: uma “dança de sujeitos e objetos que trocam de posição e compõem-se mutuamente, nunca  estando  prontos  de  partida,  mas  abertos  a  surpresas,  criações  e  descobertas.  Se  são  construídos, trata-se sempre de co-construções” (STENGERS, 1997, p. 157).

Talvez seja o modo como ciências e artes possam se produzir, nessa proposta: o que respinga uma à outra, o que contamina uma à outra, o que experimenta uma à outra, e se comunicam a partir de seus próprios mundos heterogêneos? Colocá-las, ambas, a dançar, trocando partículas por entre seus envoltórios, suas linguagens, gestos e procedimentos específicos.

Pensamos em poder “saltar de um agenciamento a outro” (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p. 57), saltar entre vazios de micro composições, fazendo disso um transporte, “devires que catapultam-se e fazem bloco” (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p. 58), invadindo novos corpos, e proliferando coisas ainda não-pensadas e sentidas (mantendo a prudência de manter um mínimo de formas e funções específicas das artes e das ciências, para não cair ao indiferenciado).

Imagem_2Crédito de imagem: Leo Andrade

Temos, assim, um Manto que arrasta toda uma organicidade: ser híbrido comunicador do agenciamento ciências-artes, vestido de gestos que arrastam, puxam, mordem, cortam, medem, catam, experimentam, observam, investigam, recolhem, guardam, tocam coisas, seres, processos, eventos, métodos para produzir uma sabedoria de quem captura a vida em contato com o pensar, o devir, o afetar-se pela floresta.

Um ser-devirAções-floresta: sem-sujeito-rosto, nem humano, nem bicho, nem planta, mas passagens, floresta, animal, pedra, semente, chão, terra vermelha, folhas, serapilheira, seres indistinguíveis, inexistentes e ainda por serem inventados. Um ser-intensidade, sem tantos órgãos e organizações, que não adentra num único sentido corporal (visão) para deixar ecoar na pele que observa e sente o meio, para poder se deixar atravessar pelo contemporâneo, pelo medo, pela angústia, por não saber e que, não sabendo, pode ainda se manter curioso, atento aos encontros e no que ele produz de sentidos novos do existir em ato (DELEUZE; GUATTARI, 1996). Um corpo, então, que aparece para ser ele mesmo um próprio veículo de comunicação, que sente, força, faz pensar.

Crédito de imagem: Leo Andrade

Esse ser-entidade sai, em passos, direções e velocidades variantes, numa deriva investigativa desacelerada, tomando gestos sistematizados, científicos, coreografados num vai e vem intuitivo entre matéria e espírito (EZCURDIA, 2016). Deixa um rastro, uma gosma, um pedaço de si. Mas também engata, pele com pele, no corpo a corpo de significações múltiplas da terra, seres que possam se prender nele. Ele deseja convidar os seres humanos e não-humanos a fazerem uma consulta ativa, mexendo e brincando com os materiais disponíveis, e também compondo com esse ser, em co-autoria com a obra, não acabada. Um ser-devirações que, divulgando previsões, modulações em forma de perguntas-problemas, convoca as pessoas ao pensamento, ‘cata’ dentro de si pistas para mundos possíveis e respiráveis, num continuum que a floresta pode nos propor: matéria viva, orgânica, inorgânica, berçário de espécies diversas, nascedouro de pensamentos dissonantes e modos de existir mais desacelerados, silenciosos, misteriosos e pulsantes.

 

***

 

Temos então, aprendido a escrever, bordar, desenhar, fechar os olhos, observar, e amar, acompanhando nuvens, plantas, insetos, silêncios e também seguimos observando as criaturas demasiado humanas, catastróficas, adultas: o mundo apocalíptico dos homens, vendido incessantemente, consegue ser mais pesado que o peso de ser da própria espécie humana.

Desejamos assegurar certa leveza, aspirar modos de fruição e frutificação de seres e éticas diversas, transitando em ser quase uma pluma solta pelos afetos que cultivamos dentro de nós: disseminar ares, nuvens, sóis, gostos, verdes, ventos vestidos de fé no devir, uma fé na humanidade, no que ainda não pode ser visto e dito.

Temos medo também, medo de desenhar as linhas do mundo que chegam até nós, temos medo de escrever, temos medo de não atingirmos um estágio transitório de seres que se permitam vazar o que se encontra estagnado, mortificado, codificado em demasia. Mas insistimos aqui em decantar a nuvem de nossos dedos medrosos nesses escritos, para aspirar com o corpo todo o desejo de ter várias formas e cores transitórias, traços finos, uma linha solta para dar vida a algo inerte, a algo que possa nascer de novidade.

Acasalar com a ideia de poder fazer chuva, evaporar, liquefazer, vaporizar, pesar de novo, cair pesado na terra, sulcar por latitudes abaixo da terra, ser engolida pelas raízes das plantas, fazer nascer fungos, desaguar no mar, matar a sede de um animal e ser pingo de suor em sua pele-pelo. Infinitamente, sendo uma mesma substância, atingir diferentes modos de existir, contaminada e límpida, tudo ao mesmo tempo.

Temos nos apaixonado por nuvens, por árvores, por híbridos sem rosto, por cores, movimentos, letras bagunçadas, pela desobediência alegre das crianças, pelos cantos sonoros de pedras, pelos fazeres de uma ciência que se permite dançar em meio aos vínculos que traça. Podem ver: temos um arsenal de batalha, e não sabemos qual arma usar primeiro, nem quando. Mas, temos confiança. Nas coisas sem nome nem forma, nos bichos, na atmosfera, nos rastros de coisas e fluxos. Na escrita que vem. Nos mundos de nuvens virtuais. No aqui. No agora. Juntos.

 

Referências

DELEUZE. G.; GUATTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. v. 3. São Paulo: 34, 1996.

DELEUZE. G.; GUATTARI, F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. v. 4. São Paulo: 34, 1997.

EZCURDIA, J. Cuerpo, intuición y diferencia em el pensamento de Gilles Deleuze. Ciudad de México: Editorial Ítaca, 2016.

PINHEIRO DIAS, J. et al. Uma ciência triste é aquela em que não se dança: conversações com Isabelle Stengers. Revista De Antropologia, v. 59, n. 2, p. 155-186, 2016. Disponível em: <https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2016.121937>.

STARHAWK, M. S. Dreaming the dark: magic, sex, an politics. Boston: Beacon Press, 1997.

STENGERS, I. Reativar o animismo. Tradução Jamile Pinheiro Dias. Caderno de Leituras, n. 62, Chão da Feira, Belo Horizonte, 2017. Disponível em: <https://chaodafeira.com/wp-content/uploads/2017/05/caderno-62-reativar-ok.pdf>. Acesso em:  nov. 2019.

 

Recebido em: 25/11/2019

Aceito em: 05/12/2019

 

[1] Bióloga, doutora em Educação e docente do Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade Federal de Santa Maria (MEN/UFSM). Pós-doutoranda no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp). E-mail: alicedalmaso@gmail.com.

[2] Artista e educadora, tem formação em Teatro Universitário e é graduada em Letras Português/Espanhol. Aluna da disciplina Arte, Ciência e Tecnologia (Labjor/Unicamp).

DevirAÇÕES Floresta

 

RESUMO: O que a floresta comunica? Como produzir um diálogo entre artes e ciências? Esse ensaio deseja compor o cenário evocativo produzido durante a disciplina de Arte, Ciência e Tecnologia, desenvolvida no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp), apresentando como foco pensar modos de existências para a comunicação e tendo a floresta como parceira de criação e pensamento. Contaminado por noções do ramo da Botânica, um manto-conceito-ideia foi produzido, agenciando uma cobertura-superfície-textura no qual diferentes seres e processos o compuseram, constituindo um ser híbrido que carrega, atravessa e instala devires-múltiplos em sua composição (DELEUZE; GUATTARI, 1997). Esse ser funcionou como um comunicador do agenciamento ciências-artes, vestido de gestos que arrastam, puxam, cortam, medem, catam, experimentam, observam, investigam, recolhem, tocam coisas, seres, processos, eventos, métodos para produzir uma sabedoria de quem captura a vida em contato com o pensar, o devir, o contágio, o afetar-se pela floresta. Um Ser-devirAÇÕES que, divulgando previsões, modulações em forma de perguntas, convoca as pessoas ao pensamento, ‘cata’ dentro de si pistas para mundos possíveis e respiráveis, num continuum que a floresta nos propõe: matéria viva, orgânica, inorgânica, berçário de espécimes, nascedouro de pensamentodissonantes e modos de existir mais desacelerados, silenciosos, misteriosos e pulsantes… um mundo todo vivo.

PALAVRAS-CHAVE: Floresta. Devir. Comunicar.


BecomingACTIONS Forest

 

ABSTRACT: What does the forest communicate? How to produce a dialogue between arts and sciences? This essay aims at composing the evocative scenary produced during the course of Art, Science, and Technology, developed in the Laboratory of Advanced Studies in Journalism (Labjor/Unicamp), presenting as focus the reflection on modes of existence for communication and having the forest as partner for creation and thought. Contaminated by notions in the field of Botany, a mantle-concept-idea was produced, agencying a cover-surface-texture composed by different beings and processes, which constitute a hybrid being that carries, crosses, and installs multiple becomings in its composition (DELEUZE; GUATTARI,1997). This being worked as a communicator in the sciences-arts agencying, covered in gestures that drag, pull, cut, measure, seek, experiment, observe, investigate, collect, touch things, beings, processes, events, and methods to produce the wisdom of who captures life in contact with thinking, the becoming, the being infected, and the afected by the forest. Being-becomingActions that, making predictions, modulations as questions, call people to think, ‘seek’ clues inside themselves  for possible worlds in which to breath in a continuum proposed by the forest: living, organic, inorganic matter; crib for specimens; origin of dissonant thoughts and slower, more silent, misterious, and living ways of existing… a whole livid world.

KEYWORDS: Forest. Becoming. Communicate.


 

DALMASO, Alice; VILELA. DevirAÇÕES Floresta. ClimaCom – Povos Ouvir – A coragem da vergonha [Online], Campinas, ano 6,  n. 16,  dez.  2019. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/alice-dalmaso-…acoes-floresta/