ANO 05 - N11 - "Ecologias Radicais" ISSN 2359-4705

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O corpo na produção de novas terras afetivas: por uma política e criação de novas ambiências


Fernando Yonezawa[1]

Angela Vieira[2]

 

Neste artigo, inicialmente tínhamos a intenção de apresentar os efeitos de uma experimentação corporal que houvesse sido realizada na sessão “Imediações Aberrantes”, destinada a apresentações de trabalhos, dentro do evento VII Seminário Conexões: Deleuze e Cosmopolítcas e Ecologias Radicais e Nova Terra e… (UNICAMP, 2017). A partir daquilo que os participantes houvessem experenciado na experimentação iriamos discutir a possibilidade de construção de novas terras afetivas e sua relação com os campos da clínica psicoterápica e da educação. Porém, não pudemos realizar esta experimentação, diante da proposta trazida pela comissão organizadora do evento para a sessão de apresentação de trabalhos; por isso, decidimos alterar também o texto escrito final, mantendo o foco em aspecto relacionado ao tema do Seminário.

Então, a partir da obra de Deleuze e Guattari, focando-nos em um dos aspectos constantes na proposta original deste trabalho, discutiremos a possibilidade de produção de novas terras afetivas dentro do capitalismo contemporâneo, relacionando o conceito de nova terra com o de afeto e de corpo. Iremos tecer, ainda, a ideia de que a constituição de uma nova terra se funde também com a emergência de uma nova ambiência para nosso viver e, graças a isso, de uma possibilidade de constituição de novos corpos. Para tanto, navegaremos ao longo de algumas obras destes autores, cartografando o aparecimento da noção de nova terra, de modo a compreendermos os diversos sentidos e usos que ela vai ganhando neste trajeto.

 

Nova terra, corpo e novo afeto

Logo de início, é preciso destacar que nova terra é uma expressão utilizada muito esparsamente por Deleuze e Guattari, em contextos de escritos distintos; não se trata, pois, de conceito sistematicamente elaborado na obra dos autores, tal como poderíamos falar dos conceitos de devir, ou máquinas desejantes.

Em uma de suas aparições na obra dos autores, a nova terra aparece sempre ligada à sua potencial produtividade, ou, mais precisamente, à sua natureza virtual. No platô em que Deleuze e Guattari tratam do conceito de corpo sem órgãos, a noção de nova terra aparece ligada à produção de uma corporeidade capaz de escapar ou correr paralelamente aos grandes estratos de captura do corpo, a saber, subjetivação, organismo e significância.

Eis então o que seria necessário fazer: instalar-se sobre um estrato, experimentar as oportunidades que ele nos oferece, buscar aí um lugar favorável, eventuais movimentos de desterritorialização, linhas de fuga possíveis, vivenciá-las, assegurar aqui e ali conjunções de fluxos, experimentar segmento por segmento dos contínuos de intensidades, ter sempre um pedaço de uma nova terra. (DELEUZE; GUATTARI, 1996, p.24) [grifo nosso]

Para os autores, o corpo está sempre tomado por formas de limitação ou aplainamento de suas diferenças e processos de mutação. O corpo, na concepção dos autores, é um composto de válvulas e vasos conectivos (DELEUZE e GAUTTARI, 1996, p.13), através das quais nos ligamos com outros corpos e alteramos nossos regimes de fluxo, de sensibilidade, de funcionamento. Todo encontro gera fluxos de intensidades, os afetos, os quais podem ser sentidos de inúmeros modos: ondas de frio, aceleração cardíaca, excitação, intensificação das cores, mensagens místicas, alterações temporais, produção de pensamento etc. Estes afetos, contudo, são apenas efeitos dos encontros e denotam todo um processo de transformação da multiplicidade que forma o corpo; ou seja, os encontros geram o desgaste das formas atuais de um corpo e passagens para uma diferenciação. Neste processo, no momento mesmo da desterritorialização é que intervêm os estratos. A subjetivação identifica os processos corporais a um suposto sujeito, o qual circunscreve o corpo a uma forma individual, necessariamente conjuntada e incapaz de disjunções e fendas. Já a significância atua colmatando as rachaduras que invariavelmente surgem dos desfazimentos das formas atuais do corpo: é preciso tapar cada rachadura com sentidos prontos, com argamassa de traduções para tudo o que, nos encontros, foge do saber estabelecido. Mas, muito antes, o organismo está pressuposto ao corpo, como esquema estruturante das relações entre seus órgãos, seus intervalos, seus conductos e escoamentos. O organismo é a coerência transcendente colocada sobre o corpo, é o seu enraizamento na moral do poder-saber médico. Os estratos são, portanto, modos de institucionalização e amansamento dos processos diferenciais nascidos dos encontros, são formas de recolocar os fluxos corporais em terras já lavradas em cartório.

Porém, como dizíamos, há sempre uma nova terra fertilizando novamente os tecidos corporais. Todo encontro promove diferenciações, pequenos terrenos férteis, dos quais não se sabe o que pode germinar: novas terras que se gestam virtualmente, paralelamente a toda tentativa de acomodação dos encontros. Quando referida aos processos corporais, a nova terra aparece como uma composição de afetos inusitada, singular, um pedaço de multiplicidade que, insuspeita, mantém-se germinando em novas terras afetivas.

Seguindo os rastros do conceito de nova terra, encontramos mais algumas pistas no platô Sobre Alguns Regimes de Signos. Ali, a nova terra aparece ligada a uma estranha linhagem de deriva, traição e constituição de nova vida. A nova terra aparece ligada à deriva do povo judeu, a qual consistiu, para Deleuze e Guattari, em um traçado de uma linha de fuga do império egípcio. A trajetória errante do povo judeu é tomada pelos autores como andança desterritorializada em direção a uma nova terra. Ora, todos sabemos que esta promessa de uma nova terra fez o povo judeu caminhar por quarenta anos no deserto. Os autores entendem que se trata de uma forma de vida que se desgarra do império, mas ao mesmo tempo se desgarra de seu próprio centro significante, que é a face de Deus.

Moisés como sujeito de enunciação, que se constitui a partir das tábuas de Deus substituindo o rosto; o povo judeu, constituindo o sujeito de enunciado, para a traição, mas também para a nova terra [grifo nosso], formando uma aliança ou um “processo” linear a ser sempre retomado, ao invés de uma expansão circular. (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p.82)

A linha dos judeus segue uma tecitura incerta, ambígua, guiada por uma tábua de leis, ao mesmo tempo que lançada no horizonte esvaziado, a ser preenchido pela nova terra. Esta linha precária e ambulante que Deleuze e Guattari enxergam no trajeto judeu seria, na realidade, um exemplo de linhas inúmeras constituídas por pedaços de nova terra, que se passam na história e são feitas por uma sucessão de traições, rupturas e trapaças, as quais confrontaram os grandes sistemas significantes, os territórios e faces divinas: reis que trapaceiam para tomar o poder, Lutero que trai o cristianismo católico. Nessa passagem, a nova terra aparecerá conceituada de modo mais ambíguo. Ela novamente aponta para um fluxo de desterritorialização dos significantes, da história, dos centros divinos ou imperiais, mas sempre expressa como se invocasse uma terra original, o Antigo Testamento, o verdadeiro. De qualquer modo, a nova terra é ainda campo virtual – nem atual, nem possível (portanto, também não impossível) – constituído pelas linhas que fogem de um sentido já instituído, culminante em sua dominação. A nova terra é o campo desenhado pelo movimento que trai a terra dos homens dominantes, dos senhores, dos majoritários e, no entanto, se apresenta como sentido mais genuíno, como verdade a ser recuperada em meio aos verdadeiros traidores.

Há sempre um retorno ao Antigo Testamento nessas novas figuras da traição: eu sou a cólera de Deus. Mas a traição se tornou humanista, ela não ocorre mais entre Deus e seus próprios homens, se apóia em Deus para ocorrer entre seus homens e os outros, denunciados como trapaceiros. A rigor, há apenas um homem de Deus ou da cólera de Deus, um único traidor contra todos os trapaceiros. (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p.80)

Aqui é muito fácil lembrarmo-nos de Nietzsche, quando este diz que tudo aquilo que surge como novo valor ou nova verdade na história, em seu nascedouro histórico, toma as faces das verdades atuais, disfarça-se nelas. Com efeito, a nova terra é o prolongamento da linha original, linha de criação e, por isso mesmo, a linha de traição, que profundamente denuncia a traição dos homens atuais, denuncia a trapaça que existe em sua dominância. Ela é terra de um povo errante, ou que se colocou em errância por força de uma intensa desterritorialização, cuja força o lança a buscar novo espaço concreto correlativo à criação de um novo espaço afetivo. Nas palavras de Deleuze e Guattari (DELEUZE; GUATARI, 1995, p.82), a nova terra deriva de uma linha de paixão delirante, oposta à linha despótica imperial, sedentária e paranoica; como linha, continua-se num fluxo errático, escapando ao centro ou ao raio do círculo despótico. Fuga da jurisdição, nova paixão expressa no delírio de uma nova terra.

Até aqui já pudemos ver desenhados dois aspectos da noção de nova terra: ela é, por um lado, fruto de uma experimentação corporal que, a partir dos fluxos intensivos produzidos, destitui as impregnações do organismo, do sujeito e da significação, nova terra que se opõe aos solos lavrados pela medicalização, pela psicologização e pelo dogmatismo de semântico; por outro lado, a nova terra é também paixão desterritorializada, despegada do latifúndio senhorial, uma nova terra afetiva, cujo delírio intrínseco é justamente seu motor de produção de nova realidade.

Vejamos, agora no platô dedicado à máquina de guerra, que a nova terra aparece novamente ligada à possibilidade de fazer estremecer a lógica estatal. Enquanto perspectiva do dinamismo típico da máquina de guerra, a nova terra é imanente ao modo nômade de vida. Contudo, aparece aí uma especificidade. Até o momento caracterizou-se a nova terra como se ela fosse uma espécie de vislumbre louco ou efeito insuspeito de uma ação conflitiva entre o império e um povo fugidio, ou entre fluxos intensos e o corpo amansado. Quando emparelhado com a sofisticada caracterização conceitual da máquina de guerra, a nova terra aparece, ao contrário de ser um efeito, como um campo constitutivo do nomadismo, algo até mesmo norteador de seu funcionamento. É que a máquina de guerra sempre se constrói a partir de uma relação inventiva com uma linhagem maquínica, um phylum maquínico, que necessita tomar para si algum material para lhe dar expressão e vida. Este material é justamente encontrado na terra e seguido como se fosse um fluxo, um rio. Assim, os ferreiros e o ferro, os artistas com o cobre e o estanho para fabricar bronze, algumas tribos norte-americanas e os fluxos de búfalos, os esquimós e a gordura e sangue da baleia. A máquina de guerra, na medida em que é máquina de ocupação singular de um espaço liso a partir de uma matéria de expressão, acaba sendo exterior e oposta ao aparelho estatal justamente por não se constituir a partir de um ponto ou comando irradiante; muito diversamente, a máquina de guerra é impelida por um fluxo primeiramente inumano, inorgânico, de certo modo não-subjetivo e não-social. São as matérias de expressão que forçam o deslocamento nômade, determinando sua singularização e territorialização móvel: o fluxo da matéria é que constitui lança a novas terras. Mais precisamente, é o a nova terra que já sempre está lá, consistindo a máquina nômade, fazendo emergir seu material no espaço liso do mar, da estepe, ou de um terreno rochoso.

Mas a terra faz valer seus próprios poderes de desterritorialização, suas linhas de fuga, seus espaços lisos que vivem e que cavam seu caminho para uma nova terra. [grifo nosso] (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.110)

Assim, a nova terra não é uma outra terra, mas a própria medula germinal da Terra, que a constitui e se impõe involuntariamente em todo processo, em todo movimento. Medula inorgânica, sem sujeito, sem vontade, sem homem, mas à qual o funcionamento nômade se conecta para constituir sua própria nova terra.

 

Nova terra e capitalismo

Ora, se não esquecemos que a criação de uma nova terra tem sempre o sentido político de escapar ao funcionamento estatal dogmático, também precisamos lembrar que este sentido político ainda se realiza na incomodação que a produção de uma nova terra causa na axiomática do capitalismo.

Ele [o capitalismo] não opera a “conjugação” dos fluxos descodificados e desterritorializados sem que os fluxos se dirijam ainda para mais longe, escapem tanto à axiomática que os conjuga   quanto aos modelos que os reterritorializam, e tendam a entrar em  “conexões” que desenham uma nova Terra [grifo nosso], que constituem uma  máquina de guerra cujo fim não é mais nem a guerra de extermínio   nem a paz do terror generalizado, mas o movimento revolucionário   (conexão de fluxos, composição de conjuntos não numeráveis, devir-minoritário de todo mundo). (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.177)

Falando de outro modo, a nova terra opera um outro tipo de conjunção, a conjunção de uma série de linhas de fuga, linhas minoritárias, para formar um território não atado sobre o dinheiro e sobre a lei dogmática. A nova terra é a composição de inúmeras linhas de fuga que ejetadas pelo próprio capital, vão se conectando para formar, pelo menos temporariamente, terrenos não-monetarizados, não colonizados.

A D [desterritorialização] é absoluta, conforme o primeiro caso, cada vez que realiza a criação de uma nova terra, isto é, cada vez que conecta as linhas de fuga, as conduz à potência de uma linha vital abstrata ou traça um  plano de consistência. (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.226) [grifo nosso]

Portanto, a desterritorialização própria da nova terra será chamada absoluta por não se fazer território neutro ou mesmo flexível dentro da lógica do capitalismo. Não se trata, pois, de uma terra imediatamente capturável, ela não é produzida como amolecimento das leis essenciais do capitalismo ou como possibilidade de diálogo com este. A desterritorialização absoluta é parte do capitalismo, é seu efeito, mas um efeito que consiste numa exterioridade ingovernável, um fora-moeda, o qual não se contenta com melhorias legais, aumentos salariais, ampliação de direitos, democratização do consumo e acesso às mesmas instituições. A desterritorialização que é conduzida pelo movimento germinal da nova terra é ferrenha pulsação por outros valores, outros modos de sentir, lança com ponta diamantada, tão mais dura quanto mais flexível a natureza essencial do capitalismo.

Em O que é a Filosofia? Deleuze e Guattari também apresentam esta intransigência da nova terra em relação às reterritorializações produzidas no capitalismo. Esta desterritorialização absoluta opera-se no capitalismo como movimento do infinito – isto é, da multiplicidade – impondo-lhe um limite, desfazendo sua desterritorialização apenas relativa, “voltando-o contra si, para chama-lo a uma nova terra, a um novo povo” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p.129). Nesta obra, preocupada com a ação com que a Filosofia se ocupa, os autores destacam justamente que esta desterritorialização absoluta, que impinge uma nova terra ao capitalismo, desconstrói sua axiomática. A desterritorialização própria da nova terra desfaz os mecanismos que respaldam a conjunção potencialmente totalizante do capitalismo, ela interrompe as continuidades da comunicação, da troca, do consenso e da opinião (Deleuze e Guattari, 1992, p.130), formas conjuntivas civilizatórias, apaziguantes, burguesas, tipicamente sedentárias, que flexibilizam as diferenças para fazê-las recair (ou decair) em possibilidades já dadas – ampliação de direitos, ‘satisfação para ambas as partes’, permissão de acessos etc. “A revolução é desterritorialização absoluta no ponto mesmo em que esta faz apelo à nova terra, ao novo povo.” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p.131) [grifo nosso]

A nova terra implica, por isso, na criação de novos modos de pensar, novos conceitos e nova gente, novo coletivo. O capitalismo ancora-se sobre um modo de pensar que visa o consenso morno e legalizado, o diálogo bom moço das opiniões inofensivas ou conservadoras – sempre tão formadas por midiatismo e propaganda -, a comunicação dos slogans e novas tendências apenas reiterantes de um mesmo ambiente afetivo. Fazendo frente a essa ambiência, a nova terra enxerta movimentos de afetos selvagens, abruptos e aberrantes, fende as terras colonizadas com pensares desrazoados, abjetos, execráveis para a moral de homens atuais. “A criação de conceitos faz apelo por si mesma a uma forma futura, invoca uma nova terra e um povo que  não existe ainda.” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 140) [grifo nosso] Vemos, pois, que é também no nível do pensamento, em favor da construção de novas maneiras de pensar que a nova terra intervém como gleba portadora de uma razão discrepante e como ambiência que escorre internamente ao capitalismo, sulcando-o. Destarte, um povo que não existe ainda, a desterritorialização absoluta da revolução são movimentos e possibilidades que invocam a nova terra como futuro insuspeito, num diacronismo disjuntivo do tempo e do pensamento. Mas, a nova terra já está sempre aqui, virtualmente operando um sutil afloramento de devires que tocam o menor grau possível acima dos limiares do imperceptível e do invisível. O absoluto nesta desterritorialização se encontra justamente nesta sutileza e delicadeza próprias da diferença em seu nascedouro, a qual desposa o assombro do infinito ao invés de assegurar-se civilizadamente sobre o terreno do relativo, do democrático, do consenso parlamentar.

Por isso é que Deleuze e Guattari fazem questão de alertar que a nova terra não se confunde com a utopia, cuja inscrição ainda se dá na História e em seu evolucionismo progressivo, na democracia dentro de seu tom tranquilizante. “A utopia não é um bom conceito porque, mesmo quando se opõe à História, refere-se a ela ainda e se inscreve nela, como um ideal ou como uma motivação.” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p.143) A nova terra não é propositiva, não guarda um projeto de mundo ou de sociedade, não tem um programa para a revolução, ela é revolucionária por si mesma, já que emerge como prado de diferenças e já ‘subsiste’ na terra atual, carcomendo sua realidade, tal como as galerias de cupins internas à estrutura de um móvel ou de uma fundação doméstica. Destas galerias só se captam pequenos acúmulos de serragem aqui e ali, e fracos murmúrios, só audíveis muito de perto e no silêncio inabitado da noite; porém, não se pode ter ideia do tamanho da ruína que podem provocar. Neste sentido, a nova terra tampouco poupa à democracia, já que esta só pode se dar entre os iguais já transpassados pelo crivo da verdade. Dizem os nossos autores que a nova terra é justamente a torção que deforma o pensamento fundante da democracia grega (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p.143), berço da Filosofia e de nossa razão política.

Em O Anti-Édipo, os autores também apresentam a nova terra como efeito e/ou virtualidade constituinte de um modo de funcionamento absolutamente distinto da dominante no capitalismo. Para compreendermos isso melhor, é importante que entendamos como os autores veem o que denominaram de axiomática do capitalismo.

Em primeiro lugar, dizem os autores, o capitalismo, diferentemente das formações sociais precedentes, não fornece um código, uma tábula de referências, símbolos ou pontos direcionais que cubra o campo social todo. Ao invés disso, ele opera uma “axiomática das quantidades abstratas”, que opera por desterritorialização do social cada vez mais intenso, veloz e incessante (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.51). O dinheiro é o corpo desta axiomática das quantidades abstratas e arbitrárias; a ele pode ser atribuído qualquer valor emergido de um vazio e, ao mesmo tempo, tudo pode ser ligado a um valor qualquer, tudo pode ser enganchado neste corpo-dinheiro. Lembram os autores, que o capitalismo se construiu em cima de fluxos decodificados, ou seja, sobre uma torrente de diversos elementos e faces do campo social que perdiam seus lugares e funções originais se punham a defluir em direções incertas: o trabalhador do campo que perde sua terra e vaga em direção a uma cidade que não lhe tem lar prévio, a floresta que se perde para a expansão urbana, o artesão que se desgarra da oficina, a própria moeda que deixa os castelos e passa a circular promiscuamente por toda parte, os bandos de animais que têm suas viagens migratórias alteradas pela perda de ecossistemas, etc.

Ora, destacam Deleuze e Guattari (2010, p.317), o que surpreende na axiomática capitalista é justamente que ela não é rígida e violenta como a codificação despótica. Pelo contrário, ela é sempre flexível e capaz de recuperar aquilo que dela foge, de modo a sempre estar pronta para expandir sua capacidade engolfante. Esta axiomática trabalha por um movimento intenso de desconstrução constante e recuperação imediata sob a modulação abstrata do dinheiro. Os dois movimentos acontecem simultaneamente. E nada escapa à axiomática exatamente porque ela é muito mais precisa que uma codificação despótica, ela não é genérica como a lei soberana e trabalha capturando corpo por corpo, vida por vida, especialmente destinando um axioma especial para cada um, especializando sua lei da quantidade abstrata vazia para injetá-la com um valor arbitrário e específico para cada vida. “…você será sempre reencontrado nos limites ampliados do sistema, ainda que seja preciso fazer um axioma para você.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.333)

Contudo, nesta axiomática, o que lhe garante o controle não é a colagem dos valores arbitrários, mas o novo papel que o Estado ganha. “O Estado capitalista é o regulador dos fluxos descodificados como tais, enquanto tomados na axiomática do capital.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.334) Esta regulação aparece, por um lado, por uma militarização mais tecnológica e intensa do Estado e pelo controle de elementos estratégicos no seio do sistema: (des)controle da saúde, da educação, dos impostos e aposentadorias, das identidades étnicas e sexuais, controle dos discursos científicos, dos bens etc. Nas palavras de Deleuze e Guattari (200…,p.334) o Estado sempre reemerge dentro do capitalismo para efetuar reterritorializações e conjunções dos fluxos desterritorializados, ou seja, se a desterritorialização incessante garante o lucro de toda forma através da arbitragem da quantidade monetária vazia, por outro lado, o Estado amarra o escape de fluxos para que não vão longe demais, não se diferenciem a ponto de desterritorializar a linha original da própria máquina capitalista. É que, evidentemente, se o tempo todo ocorrem desterritorializações para gerar excesso de produção de valores arbitrários, este descontrole intencional do sistema requer sempre um grande artefato de recaptura, recolocação em cima de linhas domesticantes, que impeçam aberrações e anomalias distintas demais do que interessa.

Ora, mas é nesse ponto que também germinam novas terras. Elas são o próprio acontecimento contra-constituinte da maquinação capitalista, na medida em que nascem desta, mas exatamente como secreções bastardas. N´O Anti Édipo, primeiramente a nova terra aparece ligada ao fim da História. Deleuze e Guattari conseguem, surpreendentemente, dar um sentido singular a este mito teórico do fim da História. Se nova terra se distingue da utopia, por ser esta ainda muito inscrita na História, é porque ela é, por sua vez, um dos aspectos do fim da História (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.176), pois é nela que se encontra um desejo desterritorializado, motor vital desvinculado de fundamento dogmático, de meta e linha de progresso. No fim da história é que está a nova terra, porque ela não é o fim dos tempos, mas o próprio terreno em que o tempo se faz novo, outro, uma vez esgarçado pela própria produção capitalista de desterritorialização do social levada ao limite. É no ponto mesmo em que a axiomática capitalista leva à exasperação seu movimento desterritorializante que é secretada também a nova terra, como limite do tempo atual, do tempo instituído.

Deste modo é que a nova terra consta ainda, no pensamento de nossos autores, como produção típica do processo esquizo, processo multiplicitário de produção de vida, o qual advém de uma desterritorialização, porém, não como exasperação de uma axiomática doente e sim como dinâmica constituinte da própria realidade e da vida em sua auto-fabricação. Trata-se, pois, da

…exaltação do processo como processo esquizofrênico de desterritorialização que deve produzir uma nova terra e, no limite, o funcionamento das máquinas desejantes contra a tragédia, contra “o funesto drama da personalidade” [grifo nosso] (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.394)

Vemos, então, que a nova terra aparece aqui também como territorialização possível contra um elemento típico da recuperação do capitalismo através da lógica estatal; “o funesto drama da personalidade” se refere à fabricação de sujeitos identitários por parte da maquinação estatal: ‘você será sempre lançado para fora do contexto do mundo de algum modo, mas antes que isso lhe dê ideias revolucionárias, antes que isso te enfureça e você se perca, você precisará ser alguém de novo, ter um jeito que queiramos tomar, que possamos reconhecer e não trepide ou cause ruído, te daremos um nome, uma face, um estilo, uma alma que você chamará de verdadeira, mas nunca irá encontrar.’ A nova terra é ambiência ou atmosfera onde linhas de fuga se conectam para constituir outros corpos, desta vez, despregados de supostas essências subjetivas, personalidades e ‘seu verdadeiro eu’.

Por isso, a nova terra é este é território de multiplicidades germinais, estrangeiras ao território em que é fabricado o dramalhão da neurose, típica do homem médio, do tipo dominante de vida dentro do capitalismo, a existência burguesa (ou potencialmente burguesa), vendedora de força de trabalho e, atualmente, de sua própria existência como fetichização narcísica da própria vida. “…a nova terra (…) não está nas reterritorializações neuróticas…” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.506) Os autores realizam corrosiva crítica ao homem da neurose, o homem eminentemente capturável pela axiomática do capital porque é ele constituído sobre a falta, sobre a culpa e a castração. Ele é um tipo de existência, de individuação, em que sempre há um buraco de falta, um buraco que a cada vez se faz outro, porque a cada vez é deslocado; essa caracterização é apenas um outro modo de dizer que é por enxertar uma falta supostamente constituinte em toda forma de desejo e de vida, que o capitalismo consegue sempre alcançar uma renovada desterritorialização: inserir falta no coração de todos é o próprio meio de operar a axiomática da desterritorialização doente que culmina numa equiparação tosca sobre um valor monetário qualquer.

A este funcionamento despotencializador das vidas, “…terra arcaica, residual, ridiculamente restrita…” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.482) a nova terra consiste em opor um solo esquizo, multiplicitário,

que relança o movimento (…) para devir índices da nova terra. É isto a efetuação do processo: não uma terra prometida e preexistente mas uma terra que se cria ao longo de sua tendência, de seu descolamento, de sua própria desterritorialização. (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.426) [grifo nosso]

 Com efeito, a nova terra não é um mundo vislumbrado, sonhado ou mesmo possível. Ela é uma terra virtual, a qual não está dada e, no entanto, está sempre presente, como camada imanente, loucura poética paralela ao real atual, composta por linhas de fuga, por devires, por vida em estado larvar, células tronco do real, campo medular, sem forma e sem ser, e mesmo assim reais; futuras sem ser previstas, revolucionárias só que sem a imagem da revolução: mundo insuspeito, apto a fazer claudicar o rumo das reterritorializações capitalistas, outro mundo já sempre nascente neste mundo. Como dizem os autores, com a nova terra nos deparamos com a possibilidade de levarmos a inventividade e o artifício a um ponto ainda mais extremo ou literal que o do capitalismo. “…mais perversão! mais artifício!, até que a terra devenha tão artificial que o movimento de desterritorialização crie necessariamente por si mesmo uma nova terra.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.425) [grifo nosso] Porque não se trata de retorno a uma terra paradisíaca perdida, a um mundo mais natural porque menos investido de artifício, tecnologia e urbanidade; ao contrário, trata-se de assumir a ‘alma’ artística da própria natureza, tomar como mote seu próprio processo esquizo e multiplicitário de criação de vida, para admitir que o capitalismo, sua axiomática e perversão são apenas mais uma arte burlesca, um pequeno quadro pintado na história imemorial do mundo, malabar inventado em certo período e que deve se deteriorar por ação de suas próprias tintas e movimentos.

 

Notas finais: por novas terras afetivas, por uma nova ambiência, por outros corpos

Tendo cartografado diversas modulações da noção de nova terra ao longo de diferentes obras de Deleuze e Guattari, podemos, então, sintetizá-las minimamente e extrair algumas conclusões para pensarmos a possibilidade de novas terras afetivas e de uma nova ambiência.

Um primeiro aspecto da nova terra é sua relação com o corpo, mais propriamente com os fluxos e afetos singulares que podem nascer de uma constante postura de experimentação dos encontros. A nova terra se mostra sempre presente, na medida em que todo encontro pode trazer afetos inusitados, singulares, os quais furam os estratos que recaem sobre nosso corpo. Notamos, pois, que a nova terra está intimamente ligada à produção de uma nova sensibilidade, portanto, de nova maneira de sentir e afetar-se, uma nova terra afetiva.

Em segundo lugar, a nova terra aparece como gleba que impulsiona uma linha de fuga desgarrada de um aparelho estatal. Aqui a nova terra se mostra como delírio passional que produz um povo, portanto um corpo, o qual escapa ao círculo imperial e se coloca a vagar numa trajetória assignificante. Eis um primeiro ponto do caráter político da noção de nova terra, ela é zona de conjunção de linhas de fuga, pequena terra em que desertores e refugiados podem construir uma nova vida: quilombo intensivo, lar possível para as singularidades de um povo desprendido do Estado.

A partir deste aspecto anti-estatal, a nova terra também se insere numa nova política de temporalidade, a qual não se inscreve na História, nos registros documentados pelos homens dominantes, mas determina pontos em que justamente a História se acaba, é interrompida, descontinuada, fendida por uma temporalidade produzida sobre este território de linhas não colmatadas por um saber e um poder transcendentemente-reguladores. Terceira face, portanto, da nova terra. Ora, uma outra dinâmica temporal se efetua necessariamente através de peculiares sensações de passagem e duração nos corpos. Assim, com a tecitura de novas terras tem-se também a urdidura de novos corpos, novas terras afetivas.

Tal modulação temporal ‘extra-histórica’ implica, pois, uma quarta caracterização: que a nova terra seja expressão de uma desterritorialização absoluta, cuja imposição recai sobre a axiomática capitalista, sempre apta a capturar os corpos e as vidas sob o signo da falta e sobre a equiparação com um valor monetário arbitrário. A nova terra opõe uma desterritorialização esquizo, à desterritorialização flexível e doente do capitalismo. A nova terra é a terra desterritorializada pela diferença, pelos devires, não pela axiomática do dinheiro. Temos aqui outra direção política da noção de nova terra. Ela impõe uma anti-axiomática ao capitalismo, levando a artificialidade a uma literalidade disruptiva, que disjunta a modulação de vida neurótica do homem normal do capitalismo. Neste sentido, a nova terra constitui um campo afetivo, uma ambiência revolucionária, povoada de uma processualidade que instiga movimentos inventivos. Como dizem Deleuze e Guattari (1992, p.117) a desterritorialização não prescinde a territorialização, “mas a afirma como a criação de uma nova terra por vir”.

Por fim, uma quinta perspectiva da nova terra: a constituição de uma nova maneira de pensar. Ora, se ela se faz como terreno em que há outro tempo, outra afetividade para os corpos, outro espaço, então necessarimante ela implica uma nova racionalidade, uma planície povoada por ideias esquizo, aberrantes diante da razão dogmática, mas singularizantes, condutoras de uma nova realidade.

Pois bem, a partir destes elementos e da compreensão da lógica de funcionamento do capitalismo, entendemos que a terra atual é feita da vitória da axiomática capitalista, a qual, em nossos tempos, tem como efeito a escatologização e estreitamento das sensibilidades e o recrudecimento de valores arcaicos. Supomos, então, que problemas ecopolíticos, ambientais e de produção e/ou gestão de potências e recursos nos complexos aspectos que formam o processo vital são, simultaneamente, efeitos e fontes de uma falência valorativa típica do capitalismo atual. Por outro lado, é preciso lembrar que esta terra atual não é privilégio nosso; ela é sempre atualizada de um novo modo, seja em que época for. Toda era teve sua terra atual, sua terra escatológica, desértica. Ao mesmo tempo, em qualquer época, uma nova terra também é sempre contemporânea a toda terra atual, ela forma um devir das terras. Se a terra atual é escatologia capitalista, a nova terra advém quando, de dentro desta terra, se podem produzir novas estepes afetivas, novas zonas de indeterminação ou territorialização singular, novas formas de relação, uma nova ambiência dentro da qual os corpos podem ser produzidos, emergidos de outro tempo, outra história, outros afetos, outras ideias. Aí, na nova terra, os corpos e os recursos são tomados em um caldo de cultura de novas sensibilidades. Trata-se de uma ambiência micro-revolucionária, que não altera somente as formas e sedimentações legais, mas também os sentidos, os modos de relação, os corpos e sua sensibilidade.

Diríamos, enfim, que a nova terra é pedaço de solo que dá matéria à fabricação de corpos potentes, outros corpos, ainda não muscularizados, solo que faz desacontecer a produção de corpos colocados sob a falta e sobre uma terra de fertilidade cansada, consumida.

“Porque aqui é que se acha o deserto propagado pelo nosso mundo, e também a nova terra e a máquina que ronca, em torno da qual os esquizos giram, planetas para um novo sol.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.177)

 

Bibliografia

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 2. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 3. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 5. São Paulo: Editora 34, 1997.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2010.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a Filosofia?. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

 

Recebido em: 15/02/2018

Aceito em: 15/03/2018


[1] Psicólogo, Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia institucional da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). E-mail: fefoyo@yahoo.com.br

[2] Psicóloga formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). E-mail: angelitacaju@yahoo.com.br

O corpo na produção de novas terras afetivas: por uma política e criação de novas ambiências

 

RESUMO: Este artigo tinha a intenção de apresentar nosso trabalho de produção de experimentações corporais, relacionando os campos da clínica e da educação com a criação de novas terras afetivas, trazendo os efeitos de uma sessão de experimentação que houvesse sido realizada na sessão “Imediações Aberrantes” do evento VII Seminário Conexões (2017). Porém, na medida em que não foi possível realizar esta experimentação devido à proposta colocada pela organização do evento para a apresentação dos trabalhos, alteramos também nosso texto escrito, de modo a focarmo-nos na noção de nova terra. Assim, baseando-nos nas obras de Deleuze e Guattari, temos a intenção de discutir aqui a sua noção de nova terra junto da possibilidade de pensarmos a produção de novas terras afetivas e de novas ambiências constitucionais para nosso viver. Cartografando o aparecimento da noção de nova terra ao longo das obras destes autores, buscamos mostrar que encontramos uma produção incessante de novas terras afetivas, as quais portam a potência de germinar novos campos de valor e de sensibilidade. Veremos os aspectos políticos ligados à nova terra, a qual faz frente à lógica de estado e ao axioma capitalista, possibilitando que os corpos se constituam a partir das novas terras afetivas.

PALAVRAS-CHAVE: Nova Terra. Afeto. Política.

 


El cuerpo en la producción de nuevas tierras afectivas: por una política de creación de nuevos ambientes

 

RESUMEN: Este artículo tenía la intención de presentar nuestro trabajo de producción de experimentaciones corporales, relacionando los campos de la clínica y de la educación con la creación de nuevas tierras afectivas, trayendo los efectos de una sesión de experimentación que hubiera sido realizada en la sesión “Inmediaciones Aberrantes” del evento VII Seminario Conexiones (2017). Sin embargo, en la medida en que no fue posible realizar esta experimentación debido a la propuesta planteada por la organización del evento para la presentación de los trabajos, alteramos también nuestro texto escrito, para enfocarnos en la noción de nueva tierra. Así, basándonos en las obras de Deleuze y Guattari, tenemos la intención de debatir aquí su noción de nueva tierra junto a la posibilidad de pensar la producción de nuevas tierras afectivas y de nuevos ambientes constitucionales para nuestro vivir. Cartografando la aparición de la noción de nueva tierra a lo largo de las obras de estos autores, buscamos enseñar que encontramos una producción incesante de nuevas tierras afectivas, las cuales llevam la potencia de germinar nuevos campos de valor y de sensibilidad. Veremos los aspectos políticos asociados a la nueva tierra, la cual hace frente a la lógica de estado y al axioma capitalista, posibilitando que los cuerpos se constituyan a partir de las nuevas tierras afectivas.

PALABRAS-CLAVE: Nueva Tierra. Afecto. Política.


YONEZAWA, Fernando; VIEIRA, Angela. O corpo na produção de novas terras afetivas: por uma política e criação de novas ambiências. ClimaCom – Ecologias Radicais [Online], Campinas, ano 5,  n. 11,  abr.  2018 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=8818