ANO 04 - N09 - "Percepção" ISSN 2359-4705

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Divulgação científica: que fazer?

Peter Broks é pesquisador da Rhine-Waal University e atua na área de divulgação científica, ciência e público, estudos de mídia e estudos culturais.

Peter Broks[1]

Trad. Gabriel Cid de Garcia

A divulgação científica fracassou.

Quem está reorganizando os móveis na Casa Branca é um Presidente que disse que as mudanças climáticas são uma farsa, e um Vice-Presidente que não aceita a teoria da evolução. O restante do gabinete de Trump é um bando igualmente deplorável no que diz respeito à ciência (ou, melhor, a qualquer outra coisa que diga respeito a ser decente e humano).

Não culpo a divulgação científica pela eleição de Trump. Mas a Presidência de Trump é evidência de que a divulgação científica falhou.

Vocês podem dizer que isso tem pouco a ver com a divulgação da ciência, que Trump ganhou as eleições devido a outras questões, mas isso só mostra que as questões de ciência não foram vistas como suficientemente importantes – também um fracasso.

E os britânicos também não deveriam ser tão presunçosos, com o voto deles para o Brexit e com seu “estamos fartos dos especialistas”.[2]

O que vimos claramente nos últimos meses é que os fatos não são suficientes, não importa o quão bem eles sejam comunicados. A campanha para permanecer na União Europeia (U.E.) tinha todos os fatos, todas as estatísticas, todas as informações. Em contraste, a campanha pela saída foi construída sobre mentiras, meias verdades e preconceitos. O Reino Unido votou em sair.

Fatos não são suficientes. A divulgação científica não é suficiente. O mais não é suficiente.

Quantos anos gastamos tentando “transmitir a mensagem”? Quantos anos de “ooooh”, “aaahhh”, “uau”… … aplauso? Fracasso.

Não estou sugerindo que paremos de tentar divulgar ciência com precisão. Longe disso. Na era da “pós-verdade” das “fake news” e “fatos alternativos”, a necessidade de uma boa comunicação científica nunca foi tão urgente.

O que estou sugerindo é que precisamos mudar nossa abordagem, não apenas para uma versão melhor, ou uma atualização – uma mudança radical, e não enfeitar a divulgação científica.

Que fazer?[3]

Se você acha que a divulgação científica é a solução, então você provavelmente não entendeu o problema.

Em um artigo recente para a American Scientist, Matthew Nisbett descreve uma “cultura da complacência” na comunidade científica e “uma reticência de longa data para enfrentar os profundos e graves problemas que enfrentamos”. Mais do que isso, diz ele, o próprio sucesso das ciências e das engenharias contribuíram para as tendências mais profundas que ajudaram a levar Trump à Presidência: em particular, o aumento da desigualdade e as rápidas mudanças tecnológicas.

“Os cientistas e suas organizações, portanto, têm um imperativo estratégico e ético de ajudar a sociedade a lidar com os efeitos negativos da globalização, com forças que alguns de seus próprios avanços e inovações ajudaram a por em ação”.

Melhorar a comunicação da ciência não ajudará a resolver os problemas que a ciência ajudou a criar. As ferramentas de comunicação e as ideias permanecerão apenas como “táticas”, diz Nisbett, “se não forem aplicadas e coordenadas a uma visão maior de mudança social”.

Em suma, ciência e tecnologia podem ser vistas como cúmplices na criação da angústia e da alienação que as pessoas estão experimentando.

E aqui enfrentamos uma questão fundamental: seria a divulgação científica um mecanismo de mudança social ou (embora inconscientemente) seria ela parte da maquinaria de controle social? Se você acha que isso é muito duro, que tal assim: a ciência assegura o status quo e a divulgação científica fornece os “idiotas úteis”?

Quanto mais nos congratularmos pela eficácia da nossa divulgação científica, maior o perigo de nos cegarmos às doenças profundas da sociedade. Quanto mais permitimos que a divulgação científica assegure o status quo, mais ela se torna parte do problema.

Precisamos ir além do modelo do cientista como Relações Públicas[4], do modelo da ampliação do alcance como ferramenta de recrutamento. Como escrevi em outro lugar do meu blog, a contextualização da ciência tem um papel a desempenhar aqui e devemos, talvez, pensar também na contextualização da divulgação científica. Para quem é? Quem se beneficia com ela?

Como Jack Stilgoe escreveu, precisamos encontrar novas maneiras para o público definir a agenda. O engajamento público em torno da inovação é muito bom em perguntar o quanto custa ou o quão rápido, mas não chega a ser sofisticado a ponto de falar sobre a direção na qual a inovação deveria levar. O objetivo, diz ele, “deve ser uma política renovada da ciência”.

“A política científica é sutil. Há perguntas sobre a necessidade da ciência e a ciência que queremos; Perguntas sobre incerteza, evidências e ônus da prova; Perguntas sobre propriedade, acesso e controle. Precisamos aprender a abrir e debater essas questões em público “.

Já estivemos aqui antes. Há uma história de radicalismo na ciência que Alice Bell nos pede para não esquecer, e no Reino Unido isso pode até ser encarado como um respeitável radicalismo. O vencedor do prêmio Nobel Maurice Wilkins, por exemplo, fez a abertura da reunião inaugural da Sociedade Britânica para Responsabilidade Social em Ciência (British Society for Social Responsibility in Science – BSSRS) em 1969.

A BSSRS não era como outras campanhas pela ciência, explica Bell:

“… o que distingue a BSSRS de outras campanhas pela ciência é que ela não se limitava simplesmente a uma questão de cientistas pedindo mais financiamento de pesquisa, ou exigindo que suas vozes fossem mais ouvidas pela mídia ou pela política pública. Em vez disso, eles visavam abrir a política da ciência tanto para o escrutínio científico quanto do público, para que ela pudesse se transformar e se aprimorar. Eles perceberam uma crise na sociedade em geral, e sentiram que a ciência poderia ajudar, mas também pensavam que a ciência – como estava construída na época – , era parte do problema, então ela precisaria se modificar para utilizar de forma benéfica as suas forças.”

A ideia de responsabilidade social está se tornando mainstream. Há na Europa um interesse crescente pela Pesquisa e Inovação Responsável (Responsible Research and Innovation – RRI)[5]. Este não é um movimento revolucionário (ele é bem apoiado pela U.E.), mas pode ter consequências radicais se levado a cabo ambiciosamente.

De acordo com a U.E.:

“Pesquisa e Inovação Responsável significa que os atores da sociedade trabalham juntos durante todo o processo de pesquisa e inovação, a fim de melhor alinhar o processo e seus resultados com os valores, necessidades e expectativas da sociedade europeia”.

O engajamento público é apenas uma das cinco “chaves” ou objetivos, sendo os outros:

Igualdade de Gênero, Educação Científica, Ética e Acesso Livre (Open Access). O mais importante é a sexta chave, a Governança, que reúne todos os outros. Nesse sentido, a RRI não diz respeito apenas a aprimorar a qualidade da ciência, mas a transformar a forma como a ciência é executada e praticada – talvez até mesmo transformando o que queremos dizer com “qualidade” e “excelência”.

Mas precisamos fazer mais que alinhar a ciência com os valores da sociedade (queremos nossa ciência alinhada com os valores de Trump, Farage ou Le Pen?).

Precisamos de uma visão de sociedade – livre, aberta, igualitária e inclusiva – que a ciência, afinal, pode ajudar a criar.[6]


[1] Peter Broks trabalha no campo da divulgação científica há mais de trinta anos e atualmente leciona no programa de divulgação científica na Rhine-Waal University. Coordenador do projeto NUCLEUS e autor do livro Understanding Popular Science (Open University Press, 2006). Este texto é uma tradução para o português de sua postagem Sci-comm: what is to be done?, publicada em 24 de janeiro de 2017 em seu blog: <https://literacyofthepresent.wordpress.com/2017/01/24/sci-comm-what-is-to-be-done/>.

[2]Nota do editor (I): em referência à polêmica gerada a partir da declaração proferida em entrevista pelo conservador Michael Gove, membro do Parlamento britânico e então Secretário de Justiça, em 2016.

[3]Peço desculpas aos estudiosos de Lênin por pinçar o título de um de seus panfletos. Há, no entanto, semelhanças quanto à necessidade de mudança do modelo baseado na busca de ganhos dentro de um sistema, para um modelo no qual se busca fazer mudanças no sistema. E Lênin, por sua vez, havia tirado o título do influente romance de Nikolai Chernyshevsky.

[4]Nota do editor (II): no texto original, há um uso criativo das siglas estrangeiras PE e PR (Professional engineer e Public relations).

[5] Von Schomberg é a referência habitual para RRI. Sua definição é: “‘Pesquisa e Inovação Responsável’ é um processo transparente e interativo pelo qual os atores e inovadores da sociedade se tornam mutuamente responsivos, com vista à aceitabilidade (ética), a sustentabilidade e a desejabilidade social do processo de inovação e seus produtos comercializáveis (a fim de permitir uma incorporação adequada dos avanços científicos e tecnológicos em nossa sociedade).” https://renevonschomberg.wordpress.com/definition-of-responsible-innovation/
Os projetos RRI incluem:

RRI Tools: https://www.rri-tools.eu/

NUCLEUS: http://www.nucleus-project.eu/

HEIRRI: http://heirri.eu/

FoTRRIS: http://fotrris-h2020.eu/

[6]Para um interessante complemento a este texto, ver o artigo “Comunicação, Alfabetização, Política: pensamentos sobre a Divulgação Científica na Democracia” (Communication, Literacy, Policy: thoughts on SciComm in Democracy), por Rich Borchelt. Ele analisa a ineficácia da divulgação em aumentar os níveis de alfabetização científica e as preocupações em torno da ciência (e por que não deveríamos nos preocupar com isso). Vale ressaltar que Borchelt escreveu seu artigo antes da eleição de Trump.

 


 

BROKS, Peter. Divulgação científica: que fazer? Trad. Gabriel Cid de Garcia. ClimaCom [online], Campinas, ano. 4, n. 9, Ago. 2017. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=7288

 

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