ANO 03 - N07 - "Incerteza" ISSN 2359-4705

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Flutuações persistentes

Título: Flutuações Persistentes (Arquivo Nuvens)


Nesta mesa de trabalho acolhemos o convite das nuvens para uma flutuação, para sobrevoar a segurança do chão e agregar-se à consistência rarefeita dos encontros frágeis e potentes. Deixando-se levar pelo movimento das nuvens, seguindo e recolhendo partículas diversas e formando aglomerações imprevistas. Influenciados por Ítalo Calvino, apostamos na leveza, em resistir à inércia, à rigidez e ao pesadume de perspectivas e lógicas que se aderem e se fixam facilmente ao solo do mundo. Para enfrentar a precariedade dessas óticas, nos aliamos também ao ensinamento que nos trazem os xamãs: aliviar-se do peso do corpo e voar de encontro com outras percepções, com outros reinos, que doem forças capazes de provocar mudanças em nossos modos de existência. Escolhemos trilhar com o vento e nos dispormos às composições imprevisíveis: uma folha, uma linha, um pedaço de algodão, arames, palavras, pedaços de cor. Experimentar viver na consistência rarefeita das nuvens, nesse “campo de impulsos magnéticos” como nomeia Calvino, onde as formas não se cristalizam, onde as coisas estão a todo tempo se movendo e adotando novos contornos, alcançando outros níveis, nos impondo novas condições, que nos convocam a um aprendizado contínuo de como estar junto diante das novas simetrias de cada encontro. O esforço de Calvino por retirar o peso das coisas para tentar alcançar uma sintonia com o mundo, recolher as belezas que nele se depositam aos poucos, sem, no entanto, recusar os pesos, apenas recusar dar-lhes demasiada atenção. Esse também é um aprendizado pela vivacidade e mobilidade, pelas mudanças de ponto de observação – livrar-se do pesadume que adere à vida é aprender a leveza de tocar nas coisas, um modo de mover-se no mundo em busca de amostragens leves para, então, criar com elas um modo de expressão que possa aliar-se à vida.

 


Arquivo Nuvens

Nesta nova série de mesas de trabalho da ClimaCom – pensadas na relação com o Dossiê “Incerteza” e iniciativa do grupo multiTÃO e Orssarara Ateliê – propomos encontros com as nuvens por senti-las e pensá-las como intercessores fundamentais diante das mudanças climáticas. O medo que se instaura frequentemente diante de sua aparição tempestuosa (inundações) ou de seu sumiço aterrador (secas), nos colocam diante da questão política urgente de estarmos preparados para o que vem. E se a resposta surge rapidamente – “É preciso juntar forças para resistir ao que vem” – talvez seja preciso enfrentar a desaceleração gerada por perguntas que retornam em ondulações insistentes: “como?”, “o que pode vir a ser juntar forças?”, “o que vem?”. Nesta proposta concebemos as nuvens como forças que, como o sol, uma montanha, os musgos, os caranguejos e os corais, não podem ser excluídas de nossas buscas por inventar novos modos de “juntar forças”, de “resistir” e de estar aberto ao “que vem”. Criar alianças do que vem de outros reinos, de um reino diverso, e investir em campos de atração entre ciências, artes e filosofias, que abrem um entre-reinos. Não sabemos o que pode uma nuvem e, nesse sentido, é que nos lançamos na criação de uma coleção de existências particulares delas. “Arquivo Nuvens” é  feito de taxonomias flutuantes e amostragens leves, recolhidas em nossos movimentos de segui-las, tanto nos céus, quanto nos livros, de acompanhar seus processos de des-aparição nas notícias, nos laboratórios, nos congressos científicos, nos filmes, exposições etc. Um arquivo generativo em morfogênese constante, cuja gravidez dá lugar a novas linhas de força gravitacional, e nos coloca a pergunta: O que é gravitar sem centro? Talvez seja isso o que as nuvens possam nos ensinar com sua gravidez pluri-vital e pluri-dimensional. Uma nuvem pode estar composta por sensações como nas instalações “Lágrimas de São Pedro” de Vinicius S.A. <https://www.flickr.com/photos/viniciussa/> e nos projetos “Cloud Cities” e “Cloud Cities/Flying Garden” de Tomás Saraceno <http://tomassaraceno.com/projects/cloud-cities-flying-garden/>. Uma nuvem pode ser a invenção de uma nova percepção, uma flutuante, gasosa e leve que desconhece coordenadas ou ancoragens, como no filme “La region centrale” de Michael Snow. Uma nuvem também pode estar composta por dados e modelos matemáticos e nos colocar a pergunta pela mineração, pelo cálculo e controle. Ou até mesmo estar composta por entidades infinitamente minúsculas e sutis e nos lançar ao desafio de fazer delas uma força de um futuro incalculável, que pode ganhar uma expressão precisa tanto estatisticamente, como num poema ou ensaio filosófico. Uma nuvem pode se formar e participar de ciclos e sistemas a partir de complexas teorias de povos indígenas e dos cientistas que se dedicam a sua microfísica. Queremos gerar intercessões entre essas nuvens e investir num arquivo vivo, que sai da caixa, da gaveta, e que se lança em performances nas ruas, se transmuta em ensaios fotográficos, se verte em animação, se prolifera e condensa em encontros com convidados das mais diversas áreas. Um arquivo como plano de errâncias e heterogêneses, que se abre furioso como a caixa de Pandora, desatando as forças que fazem do ser-nuvem, uma vibração impessoal, um acontecimento nutrido pelos mais diversos movimentos de concrescência e preensão ou de devir e transição, onde tudo se torna causa eficiente para atingir uma potencialidade real.

 


Concepção, organização e coordenação “Arquivo Nuvens”: Susana Dias e Sebastian Wiedemann

Resumo “Flutuações persistentes”: Tatiana Plens e Vivian Pontin

Participantes: Glauco Roberto, Tatiana Plens, Vivian Pontin e Susana Dias

Fotografias: Susana Dias

Locais: Orssarara Ateliê e Labjor-Unicamp

Datas: 22/09 e 06/10/2016

Grupo multiTÃO e Orssarara Ateliê