ANO 03 - N05 - "Vulnerabilidade" ISSN 2359-4705

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Na beira do Rio Doce* : antropoceno e mobilização no rastro da catástrofe**


Lorena Regattieri[1]

Marcelo Castañeda[2]

 

INTRODUÇÃO

Omama escondeu seu metal lá no meio dos morros das terras altas, onde também fez jorrarem os rios. É de lá que surgem os ventos e o frescor da floresta. É de lá que vem sua fertilidade. Quando fazemos dançar a imagem desse pai dos minérios, ela se apresenta a nós como uma montanha de ferro subterrânea, cheia de imensas hastes fincadas em todos os lados. Omama a colocou nas profundezas do solo para manter a terra no lugar e impedir que a ira dos trovões e dos raios a faça tremer e a desloque. Cravou-a lá como nós fazemos com os postes de nossas casas, para que elas não balancem durante as tempestades. Assim, esse ferro está enfiado na terra como as raízes das árvores. Ele a mantém firme como fazem as espinhas com a carne dos peixes e os esqueletos com a de nosso corpo. Torna-a estável e sólida, como nosso pescoço faz nossa cabeça ficar reta. Sem essas raízes de metal, ela começaria a balançar e acabaria desabando sob nossos pés. Isto não acontece em nossa floresta, pois ela está no centro da terra, onde esse metal de Omama está soterrado. No entanto, entre os brancos, em seus confins, onde o solo é mais friável, acontece às vezes de ela tremer e se romper, destruindo cidades (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 360-361)

No dia cinco de novembro de 2015, às 15h30m, a Agência Nacional de Águas (ANA) registra o rompimento da barragem de Fundão, localizada em Mariana (MG), pertencente à mineradora Samarco S.A. (que neste artigo chamaremos de Samarco – Vale/BHP, uma vez que a primeira pertence à Vale e à empresa anglo-australiana BHP Billiton). Segundo informações da ANA, a onda de rejeitos atingiu a barragem de Santarém e povoações nas margens no Rio Gualaxo do Norte, do Rio do Carmo até chegar ao Rio Doce. No acompanhamento da Frente da Lama, a água contaminada passou pela Estação Fluviométrica Cenibra, no município de Belo Oriente; pela Usina Hidrelétrica Baguari e a Estação Fluviométrica Governador Valadares, em Governador Valadares, passando por Resplendor; pela Usina Hidrelétrica Aimorés, Baixo Guandu, Colatina, até a foz do Rio Doce às 15h do dia 21 de novembro.

Um salto no tempo. No dia 2 de março de 2016, portanto quase quatro meses depois do rompimento das barragens em Bento Rodrigues (MG), o governo federal firmou acordo com a Samarco – Vale/BHP para começar a dar conta dos variados danos. Até esta data, nada foi efetivamente feito em termos de reparação para estabelecer novos modos de existência para quem os teve destruídos. Quando muito, as empresas que causaram o dano procuraram fornecer água mineral nem sempre em condições adequadas ou que dessem conta da demanda da população afetada.

O que mais chama atenção, fora o fato de não haver uma punição do Estado brasileiro sobre as empresas, é como os recursos vão ser geridos: uma fundação privada, formada pelas empresas, que serão assim responsáveis pela reparação do desastre que elas mesmo causaram, “com controle público” que se dará através de um comitê interfederativo formado por representantes do governo federal, dos governos estaduais, de municípios afetados e do Comitê da Bacia do Rio Doce. O acordo foi selado com a presença de Dilma Rousseff e Michel Temer, que sequer foram aos municípios atingidos. Vale destacar que o governo federal figura como um dos principais acionistas da Vale, por meio do BNDES. Neste artigo, vamos nos voltar para os atingidos, que provavelmente não serão ouvidos por esta fundação recém-criada.

Cabe-nos preencher essa lacuna de tempo entre o rompimento das barragens em Bento Rodrigues (MG) e o fechamento do acordo que vai reger a recuperação do Rio Doce e a mitigação dos danos causados pelas empresas. Então, faremos aqui uma breve recuperação dos principais pontos deste processo, para apresentar os caminhos que vamos seguir na construção do texto.

Podemos destacar alguns eixos referentes ao primeiro momento que corresponde aos dez primeiros dias que se sucederam ao rompimento das barragens e que precederam o ato de protesto em frente à sede global da Vale, no Rio de Janeiro, realizado em 16 de novembro de 2015.

O primeiro eixo é o papel da mídia na cobertura da tragédia quando a mídia corporativa tentou proteger a Vale, um de seus anunciantes. Daí a importância de analisar o protesto em frente à sede global da empresa, um movimento que implicou uma mudança da narrativa midiática em relação ao crime-catástrofe em Mariana (MG). Depois da ação em frente a sede da Vale, a mídia passa a vincular a empresa Samarco com as suas acionistas: Vale e BHP.

O segundo eixo remete à tentativa dos governos em minimizar ou negar a dimensão catastrófica dos danos que estariam por vir, em uma operação que envolveu o governador Fernando Pimentel (PT-MG) e a presidente Dilma Rousseff (PT). A Vale não aparecia como responsável por arcar com as reparações necessárias aos atingidos, considerando que, se para lucrar, não há medida em relação aos riscos, então quando estes se apresentam que sejam assumidos. De certa forma, a lama da Samarco – Vale/BHP reflete a lama da política que estourou em Bento Rodrigues (MG), e mostra nossa paralisia frente ao conluio do consenso forjado pelo Estado/corporações.

O terceiro eixo a ser ressaltado é a ausência de qualquer discussão acerca do modelo de desenvolvimento estimulado pelo governo federal. Afinal, estamos a falar de uma tragédia socioambiental devastadora que nos coloca a necessidade de questionar seriamente o desenvolvimentismo predatório e irresponsável com chancela governamental. Vale lembrar que a exploração de minérios compõe o circuito das commodities, junto com o agronegócio e o mercado da carne, sustentando a atualmente frágil balança comercial brasileira. São escolhas feitas em proveito de um modelo de desenvolvimento que considera a natureza como fonte de exploração. O questionamento dessa lógica deve, portanto, ser radical.

O quarto eixo remete à memória das tragédias. Pois o que se iniciou em Bento Rodrigues (MG) e se expandiu por Minas Gerais, Espírito Santo e alcançou a Bahia não foi a primeira e nem será a última tragédia socioambiental. Mais algum tempo e não se falará mais sobre esse tema, ao menos até que a próxima tragédia tome forma. Neste sentido, a memória é cada vez mais uma questão fundamental das lutas por reparação.

O quinto eixo mostra a força que a solidariedade e a fraternidade assumem para dar conta do crime-catástrofe[3] que se iniciou em Bento Rodrigues (MG). Uma solidariedade sociotécnica que se mostra em uma multiplicidade de páginas e eventos no Facebook – que modula os contatos de bilhões ao redor do mundo, mas permite aberturas. Desde a organização de protestos, passando pela contrainformação até chegar na organização de doações, muitas ações se tecem em proveito da reparação dos territórios atingidos, para além das ações ditas oficiais. Considera-se que cada ação é legítima e importante em diferentes escalas e tempos.

A ideia de crime-catástrofe socioambiental começou a ganhar força nas redes sociais e nos movimentos que atuam com justiça ambiental ou mesmo entre aqueles que defendem os atingidos por barragens, como o MAB, ou atingidos pela Vale. Entre os atingidos: pessoas, animais, vegetação, rios, mar e cidades variadas, sem falar nos mortos e nos territórios irrecuperáveis. As responsabilidades remetem à Samarco – Vale/BHP, mas também aos governos e estruturas estatais de licenciamento e fiscalização. Assim, o problema é socioambiental, mas também econômico e político, e envolve principalmente a regulação do setor de mineração no país e os interesses de fusão e aquisição por empresas estrangeiras. É uma caixa de pandora a ser aberta e questionada. A Vale é uma das donas da Samarco, junto com outra gigante da mineração, a anglo-australiana BHP, e ambas são responsáveis pelo desastre de Mariana. O rompimento das barragens de rejeitos é o resultado do desrespeito a questões de segurança, tanto dos trabalhadores quanto das comunidades próximas, ante a crescente intensidade da extração mineral e a busca desenfreada por lucro.

Desta forma, este artigo visa contribuir para a discussão acerca das vulnerabilidades que se evidenciam a partir de uma tragédia anunciada, do conceito de Antropoceno e da imposição violenta que o capital estabelece sobre a natureza. A partir daí, vamos nos voltar para um protesto que abriu possibilidades de mudar a narrativa midiática a respeito da responsabilidade da Samarco – Vale/BHP em relação à tragédia que começou em Bento Rodrigues (MG), destacando o papel das tecnologias de comunicação nas conexões que configuram uma rede de solidariedade. Por fim, nos dedicamos a fazer uma descrição densa da mudança nos modos de existência em Colatina (ES), a partir de uma inspiração etnográfica.

 

A TERRITORIALIDADE DO RIO DOCE NO ANTROPOCENO

Conceitualmente, o debate sobre território, territorialidade e seus aparentados nos conduzem para uma noção de multiterritorialidade. Esta, por sua vez, segundo Haesbaert (2004), desenvolve-se num complexo envolvimento dos processos de desterritorialização e (re)territorialização. E quando falamos em desterritorialização, nunca é como o outro lado da territorialização, não estamos falando de dois, mas, sim, de multiplicidade e variação, ou seja, de multiterritorialização. O movimento desterritorializante detém um mito incapaz de dar conta da imanente (multi) territorialização na vida dos sujeitos, agrupamentos e da natureza. Assim, “mais do que a desterritorialização desenraizadora, manifesta-se um processo de reterritorialização espacialmente descontínuo e extremamente complexo” (HAESBAERT, 1994, p. 214). O autor ainda argumenta que a defesa da desterritorialização em um âmbito neoliberal-desenvolvimentista faz apenas ascender um falso plano de velocidades e vivência do espaço.

Na contemporaneidade, o neoliberalismo emula uma transformação via acesso a bens de consumo para os mais pobres, enquanto os mais ricos vivem a fluidez entre as fronteiras (sejam reais ou virtuais). Esse rearranjo territorial resulta da compressão do espaço-tempo (HAESBART, 2004), envolve mudanças nas relações ligadas à presença-ausência e à flexibilidade do virtual. Nesse sentido, aumentam as desigualdades e intensificam a concentração de renda. Para se ter uma ideia dessa paisagem histórico-social, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Vitória, capital do Espírito Santo, segurava o posto de maior Produto Interno Bruto (PIB) por habitante anual do Brasil entre as capitais, chegando a R$ 61.790,59 em 2009[4]. Os dados ainda apontaram outras discrepâncias, como um abismo entre os bairros considerados ricos e aqueles da periferia, onde a renda domiciliar varia de R$ 766 a R$ 35 mil[5], e o chamado “muro invisível” na Avenida Leitão da Silva, dividindo a cidade entre brancos e negros e pardos[6].

Com uma lenta distribuição de renda e um investimento em políticas de infraestrutura como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o grande trunfo da gestão Lula (2003-2010) e Dilma (2010-2016) seguiu à risca o processo desterritorializante neoliberal. As grandes obras, como as do PAC, as da Copa do Mundo, as usinas hidrelétricas, realizam-se por meio da remoção de pessoas de seus territórios, desconsiderando seus modos de vida, num movimento acelerado e violento de reterritorialização. A remuneração do capital fica no centro da equação, ignorando a dimensão social. Os oligopólios empresariais aproveitam-se do mito da desterritorialização para avançar em medidas de desmantelamento do Estado, pressionando os governos à medida que impõem seus investimentos, implicando em políticas públicas de roupagem social, mas que não passam de um “espaço de saída para um capital financeiro excedente global”[7]. Em vez de políticas sociais, temos, assim, políticas econômico-financeiras.

Haesbaert (2004) aponta que esse processo de desterritorialização neoliberal é dado de uma maneira dicotômica, uma vez que ele segue o modelo clássico sociológico, que separa tempo e espaço, natureza e sociedade, material e simbólico, local e global, território e rede. O autor sugere abandonar essas visões dualistas, visto que estas noções ignoram o sentido relacional do mundo, privilegiando, nesse sentido, o humano e as vicissitudes do mercado financeiro, esquecendo o caráter imanente do território. Até porque, como temos visto, nos últimos anos, no Brasil e em outros países da América Latina, as consequências práticas dessa visão de mundo têm se dado no afrouxamento das licenças ambientais, na não fiscalização dos territórios vulnerabilizados pelo usufruto humano, na manipulação acelerada em larga escala da natureza.

Vivemos em uma nova época geológica: o Antropoceno, noção proposta por Crutzen e Stoerner (2000) na reunião histórica do International Geosphere-Biosphere Program (IGBP)[8], em fevereiro de 2000, na cidade de Cuernavaca, México. Esse encontro e a newsletter de maio do mesmo ano colocaram o debate sobre a Terra em um novo plano. Desde então, a comunidade científica apontou a necessidade de compreender que o Sistema Terra funciona de modo integrado. Em toda sua complexidade, da escala global à escala regional, os processos físicos, biológicos e químicos da Terra e suas interações com sistemas humanos precisavam ser estudados cientificamente por meio de projetos multidisciplinares. O IGBP introduz, assim, o desafio da construção colaborativa entre as ciências, na medida em que avanços em nossa compreensão científica são necessários para contribuir para que a humanidade possa desenvolver formas que sustentem o sistema de suporte da vida humana.

Esse é o tempo de pensar e agir, e de humildemente deixar o excepcionalismo humano de lado (HARAWAY, 2014). Trata-se de uma época em que os humanos existem como força geológica, e as marcas deixadas já são consideradas irreversíveis[9]. As atividades humanas podem produzir mudanças ambientais globais, impactando e alterando processos-chave no Sistema. Ainda assim, o termo Antropoceno deixa de fora da história complexas questões relativas aos metabolismos e agenciamentos (HARAWAY et al., 2015). A pergunta formulada por Haraway e endereçada a essa narrativa em curso é a seguinte: que nome seria grande o bastante para nomear o tamanho do problema diante de nós? Com essa indagação, compreendemos que nossa tarefa é continuar, portanto, enredando entre fabulações especulativas e feministas, ficção científica e fato científico. Esse é um projeto contínuo (não nos cabe aqui tomar toda essa discussão), e de modo desconfiado faz uso afirmativo da noção de Antropoceno, pois

Importa que histórias contam histórias, que conceitos pensam conceitos. Matematicamente, visualmente e narrativamente, é importante que figuras figuram figuras, que sistemas sistematizam sistemas. […] precisamos de histórias (e teorias) que sejam grandes o bastante para reunir as complexidades e manter as fronteiras abertas e ávidas por surpreendentes conexões novas e antigas. (HARAWAY, 2015, p.160).

Podemos debater sobre o nome adequado, ou sobre quando começou, mas acordemos com Haraway (2014) sobre viver com o problema. O Antropoceno, para além dos “mil nomes de Gaia”[10] e das divergências entre nomeações, é necessário e nos é caro pela urgência de pensar e, não menos importante, de senti-lo. Em diálogo com Stengers (2014), utilizemos esse conceito como instrumento, então. Da ruptura da barragem, vamos situar o Antropoceno no rompimento com o grande relato humano da história, passando a operar sem o dualismo clássico que separa Natureza e Cultura (LATOUR, 1994). Assim, entendemos que o rompimento da Barragem de rejeitos da Samarco S.A., em Mariana (MG), é um acontecimento de ordem social, ambiental, geológica e política[11]. O crime-catástrofe em Mariana é para o Brasil aquilo que Stengers (2015) aponta como um ponto de partida diferente – é do conhecimento de todos, agora, o que anos de flexibilidade com as licenças ambientais e a ignorância para com os impactos da mineração podem causar. E quando a contenção rompe? A barragem rompeu, ora, é força! Não sabendo como contornar mais a desordem, a Terra é terreno concentracionário de vazão de rejeitos tóxicos ou do lixo como produto do consumo. Pouco tempo depois, a presidenta Dilma Rousseff e a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, participaram da Conferência da Organização das nações Unidas (ONU) sobre Mudanças Climáticas, a COP21[12]. Em meio ao debate sobre a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o limite do aumento da temperatura do planeta, ambas tentavam explicar o que acontecia no Brasil enquanto imagens de uma lama tóxica que avançava pelo Atlântico circulavam pelo mundo.

A política de meio ambiente do Estado brasileiro envolvendo a construção de barragens e hidrelétricas, além dos conflitos territoriais entre indígenas, ruralistas e garimpeiros pelo Brasil, são fundantes do cenário de catástrofe do Antropoceno no país. Assim como o marcante furacão Katrina nos Estados Unidos e os efeitos das mudanças climáticas ao redor do mundo, viver no tempo das catástrofes, nesse caso, assinala a sintomática tragédia anunciada, a saber, o crime-catástrofe de Mariana é um acontecimento parte da catástrofe insustentável desse tipo de modelo de desenvolvimento ditado pelas necessidades do capitalismo (STENGERS, 2015). Os “responsáveis” pelo sistema burocrático e pelas leis, que supostamente deveriam proteger as florestas e os povos ameríndios, opera de modo estrategicamente corrompido ou flexibilizado para permitir o crescimento econômico[13]. A época mudou e não estamos preparados para produzir as respostas necessárias, porque os “responsáveis” – o Estado e os empresários – não são capazes de refletir além do domínio capitalista, nem mesmo para se manterem vivos. Os nossos governantes sempre nos pediram concessões em nome do progresso, afinal, era preciso crescer mais, ou produzir mais, ou extrair mais. Os questionadores e contrários ao progresso a qualquer custo que ensaiam um movimento, sejam eles pesquisadores e cientistas ou apenas cidadãos dispostos a reaprender a arte do cuidado, são taxados de inimigos da ciência. O recado de Stengers (2015) é muito claro, mas nada tranquilo: não confiar no Estado diante da intrusão de Gaia.

O capitalismo vai agir para homogeneizar as regras, com ou em nome de qualquer ponto de vista da regra. Exceto que, como vemos no caso da Samarco – Vale/BHP, as empresas não são qualquer um. O progresso mobiliza a todos e, com a máquina capitalística, nos tornou arrogantes em face da competitividade, de modo que passamos a não desconfiar. Nos demos o direito de não ter cuidado e adotamos o nosso modo de vida como fim de-, a evolução da vida na terra converge nisso que se simplicou como necessidade de crescer. Para os nossos responsáveis[14], os índios e “objetores de crescimento” (STENGERS, 2015, p.15) são obstáculos que devem reconhecer como funciona o desenvolvimento – com o Estado autoritário e as empresas livres não há composição. Essa é a nossa zona de experiência devastada que precisamos retomar (PIGNARRE; STENGERS, 2011, p. 137). A fábrica do capitalismo e seus atores no Antropoceno nos convocam para intervir, tomar de volta um território, munidos coletivamente da arte de ter cuidado; trocando em miúdos: meter o nariz onde nunca somos chamados. Complicar e perturbar o Estado e os empresários resistindo aos apelos da simplificação das lutas do aquecimento global. Pensar, imaginar e agir articulando teoria e práticas sociais ao abrir caminho para a retomada daquilo que nos é comum, rearranjando nossas próprias ideias sobre viver junto (se alimentar, viajar, habitar), ou seja, a vida em comum.

No Antropoceno não há lugar, nem tempo, para uma superação dialética dos conflitos envolvidos. Não há síntese, nem apogeu, ou um ponto máximo até onde se pode aguentar. Essa trama polifônica não se resolve simplificando, e o investimento na autoridade humana sobre os outros habitantes da Terra já se mostrou desastrosa. Portanto, não se trata de uma resposta, mas, sim, de operacionalizar um processo de criação (STENGERS, 2015), sem medo ou paralização. Provocar um movimento em cadeia de experiência radical e libertadora – aceitar aquilo que é perecível.

Com efeito, a ideia de sampler[15] parece ser justamente aquilo que nos evoca o sentir e agir que movimenta, não o pânico diante das tarefas do Antropoceno. Vimos, na ideia de sampler, uma oportunidade, ou possível caminho, de trazer à luz novas conexões diante do crime-catástrofe Rio Doce-Brasil. Esse sampleamento lida com uma multiplicidade de conceitos e práticas políticas, uma vez que o uno nos enclausura no velho slogan “outro mundo é possível”, bem como a dicotomia nos achata diante dos desafios impostos pelos nossos “responsáveis”.

Nesse plano comum, permite-se avergir – rearranjo contínuo e descontínuo “sobre as posições de ‘termo’ e de ‘função’” (VIVEIROS DE CASTRO, 2015, p. 69). Nesse campo, estamos lidando com um jogo de alianças, trata-se de conceber que “ali onde toda coisa é ‘humana’, o humano é toda uma outra coisa.” (VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 114). Assim, passando entre Viveiros de Castro (2015), Stolze Lima (1996) e Valentim (2013), convocamos o leitor a renunciar, por um breve instante, a sua posição autorreferencial, pois esse sampleamento é nosso ponto de partida. E feita essa renúncia, lançar-se numa experimentação de pensamento do perspectivismo ameríndio ou multinaturalismo. O Rio Doce para nós é em si mesmo ponto de vista – Outrem, simultaneamente relação. Aqui, recorremos às aspas, porque a relação é “uma relação entre sujeitos que ocupam posições cosmológicas intercambiáveis” (VALENTIM, 2013, p. 11). É preciso, então, fazer uma leitura da tragédia anunciada e ocupar esse lugar do meio, nada apressado, embora essa tomada de posição reclame o abandono da tolice, arrogância, ingenuidade e da cegueira (STENGERS, 2015). Ao tirar do centro o nosso ponto de vista (humano por natureza?), performatizamos um plano de composição relacional, ora, “é esta aliança com o não-humano que define ‘as condições intensivas do sistema’ na Amazônia.” (VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 124). De fato, temos que ter uma certa força (LATOUR apud VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 121) onde nos é exigido descolonizar.

Essa práxis cosmológica interventiva pode ser capaz de produzir um por vir de uma outra ordem. Como num pixo nas ruas de Nanterre, na França, onde se lê: “outro fim do mundo é possível”[16]. Para conceber um outro fim desse mundo, diferente desse fim imposto pelas necessidades econômicas, essa práxis consiste fundamentalmente em “levar a sério” (VIVEIROS DE CASTRO, 2003) o pensamento indígena e deixar “ser afetado” (FAVRET-SAAD, 2005) pelo nativo. Isso significa que é fundamental perceber, como aponta Matos (2013), que “a importância da linguagem da ontologia reside em uma razão tática”. Para nós, essa tática não se dá de modo algum por via do exótico entre pesquisador e nativo, mas pelo contrário, é dada como “palavras da imagem” (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 362). Trata-se de qualificar a relação com o nativo na experiência, pois “ela deu lugar à comunicação não verbal, não intencional e involuntária, ao surgimento e ao livre jogo de afetos desprovidos de representação.” (FAVRET-SAAD, 2005, p. 161).

Para Kopenawa e Albert (2015), estamos enfeitiçados pelo oru hipere a (o pó da cegueira do olho), essa poeira se processa e se alastra com a fumaça das indústrias pelas cidades. Ao longo do tempo, nossas vistas ficam cada vez mais embaçadas. Olhamos para a floresta pensando no que é possível consumir, por isso falamos em unidades de conservação ou proteção ambiental; nós, os brancos, tratamos de recortar e dividir, o restante que vire reserva –, pelo menos.

Quando falam da floresta, os brancos muitas vezes usam uma outra palavra: meio ambiente. Essa palavra também não é uma das nossas e nós a desconhecíamos até pouco tempo atrás. Para nós, o que os brancos chamam assim é o que resta da terra e da floresta feridas por suas máquinas. É o que resta de tudo o que eles destruíram até agora. Não gosto dessa palavra meio. A terra não deve ser recortada pelo meio. Somos habitantes da floresta, e se a dividirmos assim, sabemos que morremos com ela. Prefiro que os brancos falem de natureza ou de ecologia inteira. Se defendermos a floresta por inteiro, ela continuará viva. Se a retalharmos para proteger pedacinhos que não passam da sobra do que foi devastado, não vai dar em nada de bom. Com um resto das árvores e dos rios, um resto dos animais, peixes e humanos que nela vivem, seu sopro de vida ficará curto demais. Por isso estamos apreensivos. Os brancos se puseram hoje em dia a falar em proteger a natureza, mas que não venham mentir para nós mais uma vez, como fizeram seus pais e seus avós. (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 484).

Dez dias após o rompimento da barragem, os índios Krenak enfrentaram os governos e as três empresas – Samarco, Vale e BHP Billiton – e ocuparam a Estrada de Ferro Vitória-Minas[17]. Além disso, obviamente, muito antes da chegada da ferrovia que transporta minério, o povo Krenak já habitava a região do Vale do Rio Doce e alertava sobre os perigos da poluição do rio de mesmo nome. Diante do rompimento da barragem de Fundão e do avanço da lama tóxica, os Krenak já davam conta do adoecimento do rio, da morte dos peixes e do seu modo de vida. Ailton Krenak, liderança indígena, nascido na região, lembrou, em recente entrevista, o significado do Rio Doce para os Krenak:

Para os Krenaks, o rio Doce tem vida, é uma pessoa. Falar dele é como se referir a um antepassado. Ele tem o dom de curar as pessoas, de alimentar a imaginação e os sonhos. É onde batizamos as crianças. É lógico que não é só um corpo d’água. São paisagens, montanhas. É uma região inteira onde o povo Krenak construíram suas aldeias no começo do século 20, quando ali só tinha mata (KRENAK, 2016).

O crime-catástrofe do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, também nos despertou para a experiência filosófica e política de Guattari (1991), chamada por ele de ecosofia. Pois bem, a ecosofia, em primeiro lugar, “é uma ciência dos ecossistemas de todo tipo. Não tem contornos bem delimitados, posto que leva em consideração tanto os ecossistemas sociais, urbanos, familiares e o da biosfera.” (GUATTARI, 2015, p. 59) A ecosofia opera com a transversalidade. O sistema de modelagem de Guattari (2015) avança na noção de objeto ecosófico, para além de uma questão meramente ecossistêmica, e articula-se em quatro dimensões: de fluxo (heterogêneos, um em relação ao outro), máquina (retroalimentaçãoo cibernética e política, autoafirmação ontológica), valor (não permitindo que um valor determine outros), e, por fim, a dimensão dos territórios existenciais, essa que nos é cara por caracterizar sua finitude existencial. Ou seja, o objeto ecosófico está fundado em coordenadas extrínsecas e independentes, está em relação com uma alteridade maquínica.

Atento ao mundo contemporâneo, notoriamente próximo das lutas ecológicas, Guattari encontrou no devir-ecosófico uma conexão direta com o socius (NADAUD, 2015). Buscou, através de uma ação militante e política, produzir uma memória, inscrever sobre os corpos uma articulação ético-política entre as três ecologias: ambiental, das relações sociais e da subjetividade humana. Em um outro contexto sócio-político-econômico, o desafio de como viver na terra fundamentalmente levada por uma aceleração, fundamentalismos técnico-científicos, além do aumento em larga escala da população planetária já lhe eram visíveis. Para Guattari (1991), o Capitalismo Mundial Integrado (CMI) funciona a partir de regimes semióticos, envolvendo aspectos econômicos, jurídicos, técnico-científicos e de subjetivação. Essas estratégias do CMI formam um emaranhado sistêmico de produção de signos, de sintaxe e subjetividade. A subjetividade capitalística infantiliza a nossa sociedade, a ponto de nos causar pânico ao nos depararmos com uma catástrofe. Não conseguimos reagir, pensar ou imaginar outros modos de vida na terra que não sejam no capitalismo, envoltos em algum modo de dominação do outro (humano ou não). Para retomar esse território existencial possível de imaginação, a ecosofia depende da reconfiguração das relações humanas em todas as esferas da vida.

A ecologia social e a ecologia mental, necessariamente complementárias das ecologias científicas e política, não deveriam estar fundadas em um sentimento de fusão elementar  com a natureza, mas no reconhecimento e aceitação da finitude, tanto da vida individual como da vida coletiva, da vida das espécies, como da vida dos planetas e do sol. É tanto necessário para enfrentar os desafios gigantescos da nossa época, para reorientar radicalmente suas finalidades, passar de uma ecologia nostálgica contorcida na defesa do adquirido a uma ecologia futurista inteiramente mobilizada para a criação (GUATTARI, 2015, p. 407).

Trata-se de conceber práticas de intervenção social (GUATTARI, 2015, p.63), incluindo a política e os governos, que sejam coerentes com práticas sociais do território. Pensar uma democracia ecosófica com o desenvolvimento de práticas de dissenso no plano da cultura e da estética, da análise individual ou coletiva. Investir em uma metamodelagem dissensual, pois com ela “a responsabilidade sai de si mesmo para pensar no outro.” (GUATTARI, 2015, p. 389). A noção de ecosofia amplia a problemática dos valores, propõe uma redefinição radical do sistema de valoração vigente. E ainda, excede posições tradicionais e encontra uma outra forma que permite sobreposição, estabelece uma relação polifônica entre diferentes objetos pragmáticos. As manifestações, atos, eventos, performances se inserem como agenciamentos ecosóficos, uma intervenção prática (cosmológica, política, natural, corporal). Experiências e aventuras pessoais que inserem uma grilagem de modos de ser e criam modos outros de viver em conjunto; em vez de produzir dejetos, refazer as relações e hackear esse sistema de valores da máquina capitalística. Pelo devir-ecosófico, realizar uma apropriação através da posse – um tipo de compostagem (terra adubada de noções e permuta de pensamentos, afecções e corporalidades, o tal “embodiment”). Queremos a cidade de volta sem catracas, o rio sem mercúrio, o parque livre, queremos nos alimentar sem acumular e exterminar, o corpo alegre, a floresta viva: ou seja, no Antropoceno, queremos o que nossos responsáveis já não podem nos dar.

Como bem disse Fausto (2014, p. 10), “para a manutenção do que pretendemos salvar, aniquilamos diariamente muitos mundos e pontos de vista.” Produzimos um terreno negativo, num mundo em dívida de perspectivas outras. A humanidade, temerosa da extinção, sustenta um modelo de existência dado por certa ideia de evolução, onde só se pode acelerar. Nas toneladas de peixes mortos asfixiados, pesquisadores encontraram uma nova espécie. Terá sido extinta? No litoral de Regência (ES), as tartarugas tiveram seu período de desova alterado. Para salvar os peixes em Colatina (ES), antes da chegada da lama tóxica, a sociedade civil organizou uma operação chamada “Arca de Noé”, que capturou peixes de várias espécies para soltá-los em lagoas. A subsistência dos povoados na beira do Rio Doce e das comunidades ribeirinhas parece estar em vias de desaparecer. Além de sua “pobreza ontológica”, o Antropoceno como “regime de governo” extingue modos de vida e toda uma biodiversidade (FAUSTO, 2014, p. 4). A lama tóxica com mercúrio, arsênio, chumbo e outros minérios é a onda de rejeitos da Samarco-Vale/BHP, mas também é a lama carregada da extinção do Antropoceno. Afinal, quantos pontos de vista a lama tóxica levou? Perdemos mundos, alguns que talvez nunca mais venhamos a ouvir falar.

Assistimos aos vídeos da empresa Samarco S.A. para compreender o que pode a linguagem dos homens de poder (PASOLINI, 2012). Não é de forma totalitária que as empresas adentram os territórios. Na composição desse poder, as empresas inserem-se de modo totalizante na vida do ambiente. A manutenção do poder dos homens[18]de fúnebres casacos, passa pelo ajuizamento de uma noção de bem-estar e modernidade que são instaladas no contexto ético-político dos territórios em questão. A confiabilidade é parte do negócio; para isso, basta a encenação dos sorrisos e manobras autômatas. Esse modelo passa pela valoração de todo o processo de instalação da empresa, o antes, o durante, e o depois.

A parte central do modelo é esta aqui: construir confiança. Certo, e por que eu preciso construir confiança? Porque a sociedade vai participar de um processo decisório da minha companhia e preciso garantir a licença social para operar. A licença social não é igual um papel que a licença ambiental confere um direito de ir lá lavrar e tirar uma árvore e etc […] A licença social é garantida todo dia, a cada dia. Então, na cabeça do CEO da empresa, […] quem vai aferir essa licença social, condição para que eu continue vendendo pelotas é a sociedade (CRIVELLI, 2015).

Nesse trecho da fala do Gerente de Meio Ambiente da Samarco, Thales Crivelli, percebemos que esse processo de instalação da empresa é permanente. Ora, a licença social opera na “relação da subjetividade com sua exterioridade – seja ela social, animal, vegetal, cósmica)” (GUATTARI, 1989, p. 8), e é fundamental no processo de fragmentação da vida, redução gradual e total de qualquer alteridade. O modo de operação jurídica que envolve outros “homens de poder”, no instrumento da licença ambiental, acaba apenas formalizando a violência já instaurada. Sobre isso, basta ver as notícias[19] sobre os protestos a favor da Samarco, que pedem justiça, mas sem ônus para empresa, uma vez que está em jogo a manutenção dos empregos. Nossa perplexidade em nada provoca a permissividade dos manifestantes, que, em transe, caminham numa espécie de militantismo surdo-desenvolvimentista.

Em uma análise socioambiental integrada da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (MG/ES), Coelho (2009) mostra que a chegada da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), em 1901, seria o início também da morte lenta e gradual do Rio Doce. A consequente ocupação ao longo de todo o Rio Doce, como a urbanização desenfreada e sem planejamento, a industrialização e a exploração infinita, está diretamente relacionada à rede ferroviária. A implantação da ferrovia e a criação dos municípios não levaram em conta a paisagem, resultando, ao longo dos anos, na extinção da mata nativa. As principais atividades econômicas na Bacia do Rio Doce, em Minas Gerais e no Espírito Santo, vão desde a exploração mineral (ferro, pedras preciosas, bauxita, manganês, rochas calcárias, granito), passando pela indústria (siderurgia, metalurgia, equipamentos mecânicos, química, turismo, papel/celulose, bebidas e álcool), a pecuária (leite e corte, suinocultura), agricultura (café, cana de açúcar e mandioca), silvicultura (extensiva área com plantio de eucaliptos), e pelo setor terciário, até a produção de energia elétrica.

O quadro do desenvolvimentismo se realiza nessas esferas de investimento econômico supracitadas, com a contrapartida social para as populações que vivem na beira do Rio Doce. A contrapartida é uma metrificação (NODARI, 2014) de uma certa virtualidade, em que todo esse quadro de exploração é calculado segundo certos parâmetros gerenciais das empresas ali instaladas. Losekann (2015) vem estudando faz algum tempo os afetados da mineração na América Latina. Não sendo uma particularidade brasileira[20], os países latino-americanos seriam esses canteiros de obras, um mundo onde, como disse a promotora Thais Santi[21], “tudo é possível”. Para o Consórcio Construtor Belo Monte, a Vale, a Samarco S.A., a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Aracruz Celulose/Fibria – nomeie-se quantas forem as tantas corporações que parasitam em solo brasileiro com apoio dos governos federal e estadual –, a vida na terra se resume a doses de satisfação quantificadas via reparos materiais e/ou simbólicos com a ideia de civilidade[22].

A contaminação do Rio Doce é a catástrofe Brasil. Chora-se em suas beiradas o luto por algo que já foi. O Rio Doce é “intruso” nessa dinâmica do plano de aceleração de crescimento, como numa fala de um general da ditadura militar, no livro de Pozzobon (2013, p.19): “tudo aquilo que estiver entre o Brasil e seus objetivos será eliminado”. Isso porque, embora seja vital para a vida dos humanos, o Rio Doce foi utilizado pela humanidade com olhos para suas necessidades econômicas. Com o crime-catástrofe ambiental, há uma guinada: o Rio Doce é o sujeito dessa história natural ditada pela humanidade ocidental tal como a conhecemos, em seu âmago aceleracionista[23], marcada pela destruição e pelo consumo. Como em muitas notícias relacionadas ao meio ambiente, na guerra de imagens, o Rio Doce não tem voz, é passivo na maioria delas. Sem ponto de vista, não é escutado. Abusamos de suas imagens; chocados, compartilhamos desesperadamente a impactante foto do rio atravessado pela lama tóxica da Samarco – Vale/BHP.

A seguir, vamos abordar uma das muitas reações da sociedade civil desencadeadas pela catástrofe, que se torna especialmente importante por ter provocado uma mudança na narrativa da mídia corporativa que buscava esconder a marca da Vale.

 

O PROTESTO CONTRA A VALE, NO RIO DE JANEIRO, E O REPERTÓRIO DIGITAL

No dia 16 de novembro de 2015, um protesto por reparação para os atingidos pelo rompimento das duas barragens tomou forma na frente da sede global da Vale, no Centro do Rio de Janeiro. O ato, como qualquer ato de protesto, por si só é uma forma simbólica que só faz sentido se inserido em um processo de mobilização permanente, que se combina com articulações da sociedade civil em variadas frentes. O ato não resolve nada, mas abre um campo de possibilidades.

Assim, vamos nos voltar, nesta seção, à mobilização virtual que foi empreendida de forma bem-sucedida em função da solidariedade para com os atingidos pelo rompimento da barragem. Vale destacar, no contexto da análise, a noção de repertórios de ação, que não designam performances individuais, mas formas de interação entre partes ou conjuntos maiores de atores. Tilly (1995) assinala que são formas estabilizadas, nas quais os pares de atores fazem e recebem demandas considerando o interesse dos outros. Um conjunto de interação simples consiste em um ator coletivo que constrói demandas coletivas, acompanhado de outro ator que se torna objeto destas demandas. Este conjunto simples é composto de pares que constroem demandas de uns em relação a outros. Portanto, uma análise dos repertórios deve considerar, de um lado, o conjunto formado pelas relações sociais, significados e ações agrupadas em padrões recorrentes; e, de outro, certos requisitos para deflagrá-las, tais como o conhecimento, a memória e as conexões sociais.

McAdam et al. (2009) entendem que os repertórios existentes corporificam uma tensão criativa entre inovação e persistência, refletindo lógicas instrumentais e expressivas. A eficácia instrumental deriva da novidade e da habilidade de, temporariamente, pegar desprevenidos oponentes ou autoridades e criar exemplos de desordem pública, custosos aos interesses estabelecidos. O uso repetido do mesmo repertório diminui sua eficácia instrumental e encoraja a inovação tática. Esta é a maior razão para a escalada e a radicalização das táticas, e leva os movimentos a fazerem concessões às suas facções mais radicais, condenando-os a serem descritos, com sucesso, como “extremistas” por seus oponentes e pela mídia.

O repertório de ação digital, segundo mostra Machado (2007), traz mais possibilidades para a ação coletiva. A inovação, a difusão e a incorporação de certas formas de ação coletiva dependem da rotina da população, suas experiências, organização e dos modelos de sociedade a que são expostos. O autor chama atenção para a consolidação da tendência de que, com a internet, a maior parte dos movimentos sociais e organizações orientem suas ações com base em valores universais como direitos humanos, minorias, liberdade de expressão, preservação ambiental e outros, reivindicando as garantias das leis do moderno Estado democrático.

Para Chadwick (2007) os repertórios desempenham um papel de sustentação da identidade coletiva. As tecnologias, assim, não são apenas ferramentas neutras a serem adotadas conforme a vontade, mas também moldam o que significa ser um participante em uma organização política. Os valores também moldam os repertórios de ação coletiva, influenciando na adoção de formas organizacionais. A afinidade entre ideologia, tecnologia e organizações também está tornando as fronteiras entre formas de ação pública e privada menos definidas. Algumas organizações exibem diferentes formas de organizar e mobilizar, misturando esforços em ações estreitamente canalizadas com outras mais flexíveis, cruzando fronteiras nacionais enquanto organizam captação de recursos.

A fim de pensar a emergência de um repertório de ação digital, Earl et al. (2011) chamam atenção para duas características do ativismo na internet: os custos reduzidos para criar, organizar e participar de protestos, e a baixa necessidade de que as pessoas envolvidas nos protestos estejam presentes, fisicamente, no mesmo espaço, para que possam agir e se organizar de forma coletiva. Os custos reduzidos tornam mais fácil e cômoda a participação, podendo conduzir a um ativismo rápido ao empregar variadas táticas com uso de ferramentas tecnológicas que ajudam a baixar o custo da participação. Os baixos custos de organização e mobilização permitem aos organizadores atuar no jogo político com custos iniciais baixos e poucos recursos.

O repertório de ação pode ser visto, portanto, como um conjunto de táticas avaliadas para uso em um dado momento histórico, mas também como características que essas táticas compartilham fundamentalmente. Earl et al. (2011) apontam que muitos estudam as novas táticas, mas poucos estudam as características destas táticas. Assim, se Tilly (1995) acentuou as diferenças entre os repertórios de ação tradicional e moderno, as autoras ressaltam as similaridades destes dois repertórios: identificam a participação na ação coletiva pela copresença física num evento, e as táticas são vistas como um meio para alcançar um fim. Nos repertórios de ação tradicional e moderno, a coletividade da participação era definida e marcada por indivíduos no tempo e espaço. Agora, os ativistas podem participar de ações online na facilidade, comodidade e privacidade de suas casas ou em qualquer lugar onde exista uma conexão. A importância de estar junto fisicamente para a execução de uma tática varia entre táticas eletrônicas e mobilizações presenciais, ainda que algumas das primeiras possam requerer uma participação sincronizada no tempo. Além disso, a organização das ações não precisa ser coletiva, e, quando é coletiva, pode se beneficiar das ferramentas da internet, que permitem times de distribuição do trabalho para ser produtiva.

O modelo alternativo emergente de uma lógica de ação conectada (BENNETT et al., 2012) aplica-se cada vez mais na vida das sociedades modernas, em que as organizações estão perdendo o controle sobre os indivíduos e grupos, e laços estão sendo substituídos por redes de grande escala e fluídos sociais. Estas redes podem operar principalmente através dos processos organizacionais da internet, e sua lógica não exige um forte controle organizacional ou a construção simbólica de um “nós”. A lógica de ação conectada implica uma dinâmica própria.

As tecnologias de comunicação motivam o crescimento e estabilização de estruturas em rede com arquiteturas variadas. A lógica de ação conectada foca na ação recombinante das redes em uma situação na qual estas redes e a comunicação se tornam algo mais do que meras pré-condições e informação. Nestas redes, os autores observam que as tecnologias de comunicação contribuem com um princípio de organização diferente das noções de ação coletiva baseada em premissas fundamentais sobre o papel dos recursos, redes e identidade coletiva.

Em relação ao protesto, este foi convocado a partir de um evento criado na plataforma Facebook em 10 de novembro de 2015. A chamada remetia à possibilidade de aumentar a responsabilidade da Vale, como acionista da Samarco, na reparação dos danos resultantes da tragédia. Na época, o foco da mídia recaía apenas sobre a Samarco e a espetacularização a partir das imagens. Uma parte da chamada para o evento sinalizava:

Nossa maior solidariedade com as pessoas desabrigadas em Mariana (MG) e região é pressionar a Vale a assumir sua responsabilidade. Esses atingidos estão se organizando e protestando localmente mas se a gente não apoiar e pressionar de diferentes formas, a Vale vai passar batida desta irresponsabilidade em Minas Gerais que já chega ao Espírito Santo. E é bem provável que tudo isso passe até o próximo risco não assumido. Parte superior do formulário. Por isso, é importante manter essa questão acesa porque os danos não serão aprofundados pela mídia, mas a vida das pessoas atingidas já foi devastada, suas redes de sociabilidade se romperam junto com a barragem.

Em torno de 24 mil confirmações de presença e 32 mil interessados no evento criado na plataforma Facebook marcaram uma das maiores mobilizações virtuais do ano, e isso é cada vez mais importante no mundo hiperconectado no qual vivemos. Essa pressão do ambiente virtual tem grande valor, mantendo o tema quente quando tendia a cair no esquecimento da avalanche de notícias da mídia corporativa. Cada pessoa que clicou “comparecerei” ou “tenho interesse” no evento ajudou nesse sentido.

Em relação à presença no ato, compareceram 500 pessoas, número suficiente para que o mesmo fosse eficaz, tendo sido inclusive mencionado no Jornal Nacional, e, ao chamar atenção para a Vale como sócia da Samarco, fez com que esta empresa ficasse sob os holofotes da mídia e do judiciário.

A discrepância entre os confirmados no evento do Facebook e os que protestaram na frente da sede global da Vale mostra que a categoria “presença” vem sendo redefinida mediante os imbricamentos sociotécnicos que se configuram contemporaneamente mediante a importância das redes sociotécnicas na esfera pública. Essas redes alimentam ruas que alimentam redes num processo de retroalimentação que não separa mais redes e ruas. A mobilização é, por conseguinte, cada vez mais sociotécnica.

Neste sentido, vale destacar uma das diferentes mobilizações locais que tomaram corpo nos territórios atingidos, de forma a nos aproximarmos da catástrofe e de como esta afetou os modos de existências das populações atingidas.

 

(COM)POSIÇÃO DO CRIME-CATÁSTROFE: DE BENTO RODRIGUES A COLATINA OU O INÍCIO DO FIM

Mais do que nunca a natureza não pode ser separada da cultura e precisamos aprender a pensar “transversalmente” as interações entre ecossistemas, mecanosfera e Universos de referências sociais e individuais. Tanto quanto algas mutantes e monstruosas invadem as águas de Veneza, as telas de televisão estão saturadas de uma população de imagens e de enunciados “degenerados”. Uma outra espécie de alga, desta vez relativa à ecologia social, consiste nessa liberdade de proliferação que é consentida a homens como Donald Trump que se apodera de bairros inteiros de Nova Iorque, de Atlantic City etc, para “renová-los”, aumentar os aluguéis e, ao mesmo tempo, rechaçar dezenas de milhares de famílias pobres, cuja maior parte é condenada a se tornar “homeless”, o equivalente dos peixes morto da ecologia ambiental. Seria preciso também falar da desterritorialização selvagem do Terceiro Mundo, que afeta concomitantemente a textura cultural das populações, o habitat, as defesas imunológicas, o clima etc. […] Como retomar o controle de tal situação que nos faz constantemente resvalar em catástrofes de autodestruição? (GUATTARI, 1991, p. 25-26).

O rompimento da Barragem em Mariana (MG) foi um crime-catástrofe ambiental sem precedentes no Brasil. O distrito de Bento Rodrigues foi completamente destruído pela lama tóxica. Em Paracatu e Paracatu de Baixo, os moradores foram avisados em tempo e puderam sair de suas casas, mas em Paracatu de Baixo o rio invadiu o povoado, o barro de rejeitos tomou conta das casas e das terras. De acordo com a última atualização do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, são 16 mortos e 4 desaparecidos, entretanto, o número de desaparecidos varia, muitas informações permanecem ainda desencontradas. O trajeto da lama tóxica é devastador por onde passa. As mortes dos moradores e trabalhadores de Bento Rodrigues foi início da onda de destruição. Famílias perderam suas casas, animais foram levados com a lama ou ficaram presos em locais de difícil acesso. Plantações se perderam, locais de encontros dessas comunidades estão debaixo do barro, para alguns, a memória é o que resta, pois as fotografias dos álbuns de família ficaram para trás.

Tendo como referência a Resolução nº 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e a Agência Nacional de Águas (ANA) conduzem, diariamente, um monitoramento especial para analisar as condições da água bruta no Rio Doce após o rompimento da barragem de Fundão. As análises buscam identificar parâmetros físicos, como turbidez (detritos e lama), e parâmetros químicos, como a concentração de metais (alumínio, arsênio, cádmio, chumbo, cobre, cromo, ferro, manganês, mercúrio, zinco, entre outros). O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Baixo Guandu divulgou o resultado da análise da água coletada em três pontos diferentes ao longo do Rio Doce. Na terceira amostra coletada, no centro de Valadares, apareceram níveis acima do tolerável de vários metais, como arsênio, bário, chumbo, cobre, mercúrio, níquel e outros. A lama tóxica entrou na vida das pessoas como um novo componente. A cada município por onde passa, a vida marinha é asfixiada pelos rejeitos da barragem. Nas redes sociais, os moradores de Ponte Nova, Nova Era, Antônio Dias, Coronel Fabriciano, Timóteo, Ipatinga, Governador Valadares, Tumiritinga, Resplendor, Galiléia, Conselheiro Pena e Aimorés, no Estado de Minas Gerais; e Baixo Guandu, Colatina e Linhares, no Estado do Espírito Santo, compartilham fotos, vídeos e textos relatando os acontecimentos da tragédia anunciada.

As pequenas vilas afetadas padecem com a morte do Rio Doce. Em Regência, soluções são criadas e gestionadas pelos próprios moradores. Antes mesmo do rompimento da barragem, a associação de moradores usava uma draga para abrir um canal para passagem de barcos pesqueiros. Isso porque o baixo nível do rio já não permitia que os pescadores chegassem ao mar. Quem vive na vila se apega à esperança de que isso tudo é algo passageiro, que a natureza é mais forte. Caminhões pipa abastecem diariamente o povoado, mas não se sabe a procedência da água. Ricardo Guimarães, dono de uma pousada em Regência, contou que tudo estava parado, no aguardo dos resultados das análises da água. A empresa Samarco, antes da chegada da lama tóxica em Linhares, realizou reuniões com a associação de moradores. Segundo Ricardo, funcionários fizeram uma apresentação sobre a Samarco e abriram para dúvidas da comunidade. Após cinco pessoas falarem, encerraram a reunião, que durou duas horas. No documentário Os últimos dias do Regência[24], produzido pela professora do Departamento de Comunicação da Universidade federal do Espírito Santo (UFES), Daniela Zanetti, os pescadores de Regência, de modo emocionado, demonstravam preocupação, pois a subsistência e os modos de vida ali contam com o Rio Doce. Com a chegada da lama tóxica, o município de Linhares (ES) interditou as praias de Regência e Povoação.

De acordo com Stengers (2013), as três ecologias estão lado a lado com os movimentos sociais contemporâneos. A partir das ecologias tentamos pela via afetiva agenciar coletivamente uma experiência em grupo na cidade de Colatina (ES). Estamos nos aproximando do problema, ao chegar junto e compor com o território devastado, no envolvimento com os horrores que existem no mundo, sem permitir que destruam a nós mesmos. A questão é, ainda, descobrir como podemos nos envolver em práticas de proteção capazes de resistir à vulnerabilidade que nos deixa capturar. Ao propor pensar e sentir com uma devastação tripla, ou seja, em suas dimensões psíquica, social e ambiental, tomamos como centralidade as variáveis desconhecidas dessa situação como o meio de formular perguntas derivadas das vozes que já foram destruídas e silenciadas.

Ficar com o problema, como Donna Haraway formula, parece-me muito necessário, assim como prestar atenção a que histórias contam histórias, que ela traz de Marilyn Strathern. A história que serve de matriz para o nosso antigo estoque de histórias pode muito bem ser o que equivale a devastação tripla de Guattari com um certo tipo de progresso, quaisquer que sejam suas versões célebres, colocando “nós”, os contadores de histórias, em uma posição de “guardiões da verdade”, independentemente do que essa “verdade” possa ser. A proteção é, neste contexto, fundamental para nos ajudar a chegar junto. Então, estou um pouco duvidosa sobre essa nova história do Antropoceno a partir dessa perspectiva. Afinal, quem é antropos? (STENGERS, 2013, p. 176).

Fizemos uma vista ao município de Colatina (ES) no sábado, 21 de novembro, saindo bem cedo da capital do estado, com a intenção de evitar o sol forte logo pela manhã. É verdade também que Colatina já é conhecida por um ambiente quente, poucas sombras, toma-se muita água para evitar a desidratação. Nossa primeira parada foi num terreno com uma placa onde se lia “Pôr-do-sol”, e onde os carros-pipa estavam concentrados. Um pequeno grupo já se aglomerava próximo a um píer que dá acesso ao Rio Doce, para uma entrevista. Entre o labirinto de carros-pipa, duas placas chamam atenção: água bruta e água potável. Começamos a chamar de “praça dos carros-pipa”, aquele lugar onde tudo girava em torno da água. O assunto entre os motoristas eram as rotas de captação d’água e de abastecimento dos bairros. Um motorista nos confidenciou que a água potável para tomar banho, lavar utensílios domésticos e realizar atividades do cotidiano era captada na Lagoa do Batista e Boa Morte, a cerca de 20 km da cidade.

À beira do Rio Doce, à medida que a lama tóxica avança no rio, os municípios parecem ganhar atenção, principalmente de coberturas independentes e dos próprios moradores. Tivemos contato com a água do Rio Doce naquele dia, no quintal de Elza França. Sua casa, que fica na Avenida Rio Doce, já sobreviveu a enchentes históricas, com a água entrando dentro da sua casa. Num momento como esse, as cortesias comuns ao se visitar a casa de alguém são entendidas como lição de generosidade. Ao oferecer um copo d’água e dispor de seu banheiro, percebemos que qualquer reflexão sobre a centralidade do rio (de acordo com Stengers, vozes destruídas e silenciadas) na vida humana iria apontar para novos modos de vida e subsistência – vamos enfrentar novas perguntas também. Na área de serviço, ficam as garrafas vazias, baldes e qualquer recipiente que possa servir como reservatório de água. Elza nos guiou e mostrou o confronto entre o Rio Santa Maria (afetado pelo esgoto) e o Rio Doce (turvo pela lama tóxica). Num estado de perplexidade e indignação, Elza França se dava conta da agonização humana e não humana, pois não conseguia entender como chegamos a esse ponto, ela diz: “já passei por dificuldades pela abundância da água, mas não por isso“. A partir de Elza, percebermos a necessidade de encontro com outro sistema de valoração (Guattari, 2015). O atual modelo econômico não dá conta da heterogeneidade de atividades humanas que atravessam o Rio Doce, desde pequenas hortas no quintal das pessoas aos pescadores da região, a imposição da mineração sobre os modos de subsistência deixou marcas.

Por volta das três da tarde, seguimos para o bairro Luiz Iglesias, para acompanhar o abastecimento da caixa d’água. A demora faz os moradores se aglomerarem em torno do reservatório azul que ocupa a praça do bairro. Dois moradores se revezam para vigiar a caixa d’água, um deles estava à espera do carro-pipa. Ele contou que eles mesmos se entenderam para organizar a hora de abrir as torneiras; disse que se incomoda que pessoas de outros bairros venham pegar água por ali, denunciando que alguns vêm de carro e pegam mais água do que precisam. Havia uma preocupação com os protestos dos moradores. As notícias não paravam de aparecer no Facebook. A página ‘Saudades Colatina’ atualizava constantemente os novos protestos. Os bairros Santos Dumont, Aeroporto, Maria das Graças e Vila Lenira já haviam fechado as ruas em protesto, o motivo era o atraso da água. No Centro de Comandos, já havíamos entendido que o Exército e a Polícia Militar estavam a postos para acalmar os moradores sedentos, com sede de água. Aos poucos, percebemos que a esperança foi saindo de cena, para dar lugar ao desespero. Se antes Deus e os céus apareciam frequentemente na fala dos moradores, por horas na fila e numa situação de espera, aos poucos, ódio, raiva e tensão passam a marcar o fim do dia.

As três ecologias são concebidas a partir do princípio comum de que os territórios existenciais nos colocam em confronto. Não um enfrentamento fechado sobre o mesmo. Algo além das certezas estabelecidas e totalitárias, o território passa a ser o campo das divergências do finito, do precário, do singular. Passamos a disputar um território “capaz de bifurcar em reiterações estratificadas e mortíferas ou em abertura processual a partir de práxis que permitam torná-lo “habitável” por um projeto humano” (GUATTARI, 1991, p. 38). Por ora, a imbricação entre conceitos e relatos é um modo de liberar as contradições elaboradas por Guattari em seus princípios ecosóficos. Retornamos para o ponto de início da nossa jornada, a praça dos carros-pipa. Avista-se a fila de longe, de frente para o Bar e Restaurante da Ilza. A fila já dava voltas num quarteirão inteiro quando encontramos o primeiro da fila. Às 18h15m, começamos a conversar com Édipo de Souza, 28 anos, sempre à beira do Rio Doce. Édipo entrou na fila às duas da tarde, pois havia escutado, e depois lido no whatsapp, que a distribuição de água mineral começaria às cinco. Quando perguntado sobre como era a sua vida antes da chegada da lama, disse que era outra, porque havia água encanada dentro das casas. Em suas palavras, “um erro da Samarco nos coloca aqui nessa bagunça, porque depois que essa lama chegou, essa é a nossa vida, a fila da água.” Como já circulara nas redes sociais, nos vídeos da distribuição da água, ele lembra que pessoas foram pisoteadas, não há respeito por idosos ou gestantes, na fila é cada um por si. Reclama da desorganização, da falta de logística e de orientação, concentrando muitos moradores em um local só. Na sua fala, indignado lembra-se do espetáculo político dos votos, e não se conforma, “por que a água não é entregue na minha casa?“, indaga em desespero. Édipo já estava na fila havia mais de quatro horas, qualquer depoimento seria inflamado, seu desejo era apenas que alguém lhe devolvesse a normalidade ou apontasse uma data para esse pesadelo acabar.

Até o momento de finalização desse artigo, ocorreu a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) pela Samarco, suas acionistas Vale e BHP, e a União e os governos de Minas Gerais e do Espírito Santo. O acordo feito em gabinetes fechados cria uma fundação para gerir os recursos pagos pela Samarco. A fundação teria, no conselho administrativo, sete membros, sendo as três companhias – Samarco, Vale e BHP Billiton – responsáveis pela nomeação de dois membros, e a União de um. Portanto, nesse acordo, não só esse conselho não tem participação da sociedade civil, mas é gerido pelos causadores da catástrofe.

Ninguém responsabilizado pelo crime-catástrofe e pelos danos incalculáveis causados pelo rompimento da barragem do Fundão, e um Termo de Ajustamento já rechaçado pelo Ministério Público Federal[25] e pela Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens[26]. Esse é o panorama da promíscua relação do capital com a natureza, num plano de subestimação à Vale e à BHP Billiton. Os atingidos, a fauna e a flora, toda a rede que entrelaça o Rio Doce, seguindo o acordo das autoridades brasileiras com as empresas, deveriam acreditar numa suposta boa vontade. Há um descompasso nas informações circulando sobre as ações que atravessam o Rio Doce. Isso tem vazão nas manifestações contra a Samarco, Vale e BHP, nos protestos nas cidades atingidas, essas em especial ganham voz no ódio de Édipo e na revolta de Ailton Krenak. As notícias sobre a qualidade da água, sobre a punição dos culpados, a gestão do caos e a normatização do estado de exceção, e a visível confusão entre as competências do Estado e do setor privado produzem uma derradeira alteração da vida daqueles que estão na beira do Rio Doce.

Neste artigo, a vulnerabilidade é componente dessa “zona de experiência devastada”. Tentamos montar com reflexões teóricas e relatos etnográficos uma escrita a dois que permitisse vislumbrar a dimensão desse acontecimento – o qual chamamos de crime-catástrofe. Sabemos que, em alguns momentos desse artigo, exigimos do leitor um itinerário ontológico, epistêmico e cosmopolítico ainda inconstante. Um percurso de leitura talvez brusco, mas não impetuoso como a lama turva que percorreu o Rio Doce. Danowski e Viveiros de Castro (2014, p. 90) nos recordam que para os ameríndios e outras humanidades não modernas a escala de tempo é outra, bem como seu conceito de humano. Ora, num estado de fragilidade ou de intempestiva revolta, o nosso tempo – que vai do início ao fim compondo um “presente histórico”; e as fronteiras e nossas extensões territoriais de nosso Estado-nação – é o outro lado do “presente etnográfico” das cosmologias ameríndias. Nesses termos, é no caráter disjuntivo desse ehtnos, justamente, capaz de produzir uma vida radical, uma equalização do tempo – nem estagnado, nem acelerado, apenas agires e fazeres – em cooperação com os elementos e o sistema Terra.

[…] a ênfase da práxis indígena é na produção regrada de transformações capazes de reproduzir o presente etnográfico (rituais de ciclo de vida, gestão metafísica da morte, xamanismo como diplomacia cósmica) e assim de impedir a proliferação regressiva e caótica de transformações (DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2014, p. 92).

Afinal, não é disso que se trata? O bem viver indígena se encontra com a retomada de controle evocada por Guattari (1991). Des(o)cupar, (co)habitar e (com)pôr nessa nova era relações simétricas em sua gênese existencial. Para apreender os desafios desse tempo-ethnos, nosso artigo contempla a possibilidade da vida na integração das filosofias de Ailton Krenak e Davi Kopenawa com a filosofia ético-política de Guattari (1991), no que ele chama de ecosofia. Diante do colapso ambiental e da natureza das divergências radicais impostas pelo capitalismo (e, em algum momento da história, pelo socialismo também) como marca da existência humana na Terra, o meio ambiente (as florestas), as relações sociais e a subjetividade humana, reclamam uma reconfiguração das práticas que a caracterizam.

Na dimensão micropolítica dessas relações, que escapam ao controle do Estado-nação brasileiro, em que a criatividade e a solidariedade se fazem presentes, o grito dos protestos é um eco do cansaço da vida endividada (LAZZARATO, 2014), de um vampirismo sobre a vida, as relações e a natureza, apontando para novos registros. Ecos que dão conta de uma heterogênese, de “processo contínuo de re-singularização” (GUATTARI, 1991, p. 55). Esse repertório em rede configura um outro modo de fazer dos indignados, dos movimentos de atingidos por barragens, dos atingidos pelas remoções da Copa do Mundo e das Olímpiadas, dos imigrantes, dos black blocs, dos índios, dos quilombolas, dos camponeses, dos ocupantes e viventes da rua. Essa resistência está muito mais na compreensão da vida como movimento ininterrupto do que na entrega ao “militantismo”.

Nossos relatos, resultado da experiência de feitura de um documentário e da vivência das manifestações contra a Samarco – Vale/BHP, permitiu que esse artigo se apresentasse do modo como é – escrito e narrado como uma convivência com o iminente fim do mundo tal como o conhecemos, em convergência com o que imaginamos fosse possível fazer: documentar, protestar, escrever sobre parte do que aconteceu desde o rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG).

Essa outra paisagem social que vibra diante do crime-catástrofe da Samarco – Vale/BHP) e da permissividade dos governos, pode liberar e ou liderar essa retomada indicada por Stengers (2011), resultando na cobrança por um rigoroso cuidado e fiscalização das licenças ambientais, reformulação da Fundação Nacional do Índio (Funai), iniciativas de permacultura, ocupações autônomas nas cidades e no campo, pesquisas interdisciplinares nas ciências humanas, naturais e exatas, direcionamentos outros nos cuidados com os animais e tantos outros registros possíveis, embora, mais do que nunca, urgentes.

No caso dos povos ameríndios, são eles que “têm a chance única de dissociar a equação europeia maldita entre a forma do ~ethnos~ e o tema da “identidade nacional” (VIVEIROS DE CASTRO, 10/01, 12h41, 2016) Ainda, “coletivos étnicos como linha de fuga do Estado-nação. Passando ao largo do identitarismo etnonacionalista europeu.” (VIVEIROS DE CASTRO, 10/01, 12h43, 2016). Reparamos possíveis entre a convergência do nosso sampleamento e os agenciamentos coletivos capazes de produzir uma vontade de “autonomia criativa” (GUATTARI, 1991, p. 56). Pode estar na emergência de modos de vida ecosóficos, pautados por uma necessária “remanência” característica dos índios (e o que possamos aprender com eles), do controle e regramento do homem como agente geológico, a reabilitação da existência humana na Terra.

 


 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 1/03/2016

Aceito em: 10/03/2016

 


 

* Documentário de mesmo nome foi produzido a partir de visitas nas cidades afetadas de Linhhares, na vila de Regência, e Colatina, ambas no Espírito Santo (ES). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=qMYERMvishI>

** Agradecemos aos professores Marco Antônio Valentim (UFPR) e Laura Paste (Multivix) pelas primeiras leituras cuidadosas desse artigo.

[1] Lorena Regattieri é mestranda em Comunicação e Territorialidades, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGCom/UFES). Pesquisadora no Laboratório de Estudos em Imagem e Cibercultura (LABIC). E-mail: lorenaufes@gmail.com

[2] Marcelo Castañeda é doutor em Ciências Sociais, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGCom/UERJ). E-mail: celocastaneda@gmail.com

[3] Considerando os danos causados pelos responsáveis (Estado e empresas) ao ecossistema da bacia do Rio Doce, à comunidade ribeirinha e aos indígenas da região e a todos os afetados pelas barragens, chamaremos de crime-catástrofe socioambiental o advento do rompimento da barragem de Fundão. O termo é inspirado no livro No tempo das catástrofes, de Isabelle Stengers. Ao longo do texto, sustentamos que o termo desastre, nem apenas crime, dá conta do panorama e das consequências em longo prazo do maior vazamento de rejeitos tóxicos na história do Brasil.

[4] De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2005-2009. Matéria do jornal Gazeta Online “Vitória tem o maior PIB per capita entre as capitais, aponta IBGE”. Disponível em: <http://glo.bo/1p2ZL7Z>.

[5] Matéria do jornal Gazeta Online “Uma cidade partida: Renda domiciliar em Vitória varia de R$ 766 a R$ 35 mil”. Dsiponível em: <http://glo.bo/1LaC9sm>.

[6] Matéria do jornal Gazeta Online, “Leitão da Silva: a avenida que divide a raça dos moradores de Vitória”. Disponível em: <http://bit.ly/1QyuDXp>.

{7] Entrevista com Raquel Rolnik concedida ao jornal Zero Hora, quando do lançamento de seu novo livro, Guerra dos Lugares (Boitempo). Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2015/12/raquel-rolnik-e-preciso-entender-a-moradia-como-direito-4929291.html>.

[8] Mais informações sobre o International Geosphere-Biosphere Program (IGBP) encontram-se disponíveis em: <http://www.igbp.net/download/18.316f18321323470177580001401/NL41.pdf>.

[9] Artigo do jornal britânico The Guardian indica que vivemos a geração Antropoceno, a arte, a literatura e o cinema refletem o pensamento sobre essa crise. Disponível em: <http://www.theguardian.com/books/2016/apr/01/generation-anthropocene-altered-planet-for-ever>.

[10] Referência ao colóquio “Os Mil Nomes de Gaia: do Antropoceno à Idade da Terra”, realizado entre os dias 15 e 19 de setembro de 2014, na Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro. Esse colóquio operou como uma intervenção (como diria Stengers), provocou uma pausa não só na fala de seus interlocutores, mas na sua própria existência. Ele interviu na medida em que tudo continuou, mas em toda sua brevidade nos fez pensar, sentir e imaginar. Em suma, nos afetou, fomos tocados, algo mudou. Os textos e mesas estão disponíveis no site do evento disponível em: <http://osmilnomesdegaia.eco.br/sobre/>.

[11] Considerando nossa proposição no texto referenciada pelas autoras, não vamos entrar nos termos específicos de formalização da época geológica levantadas por elas em artigos e comunicações orais. Entretanto, para conhecimento, essa época transitória de saída do Holoceno inciada com as transformações causadas pelo homem no ambiente será nominada por Haraway (2015) de Cthulhuceno; enquanto Stengers (2015) nomina essa transição de intrusão de Gaia.

[12] Ver reportagem da UOL “Dilma leva tragédia da lama à COP-21 e defende acordo com ‘peso de lei’” com discurso da presidenta Dilma Rousseff na COP21. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2015/11/30/dilma-leva-tragedia-da-lama-a-cop-21-e-defende-acordo-com-peso-de-lei.htm>.

[13] As informações sobre o Departamento Nacional de Produção Mineral, ligado ao Ministério de Minas e Energia, mostra como o sistema não está preparado para as respostas necessárias que o Antropoceno exige. Segundo a revista Época, só em Minas Gerais são 184 barragens para cada fiscal, apenas 34% das 735 barragens no estado foram fiscalizadas e os gastos com fiscalização chegaram apenas a 13,2% do valor previsto. Informações disponíveis em: <http://epoca.globo.com/tempo/filtro/noticia/2015/11/tragedia-em-mariana-minas-gerais-tem-184-barragens-para-cada-fiscal.html>.

[14] Depoimento do ministro Aldo Rebelo na CPI que investiga a atuação da Funai e do Incra disponível em: <http://bit.ly/1qvfUnL>.

[15] Essa sugestão aparece em uma entrevista de Eduardo Viveiros de Castro para o blog Azougueiro. Disponível em: <http://bit.ly/1R3HUKH>.

[16] Imagem disponível em: <http://bit.ly/1MTz2FO>.

[17] Matéria da BBC Brasil sobre o protesto dos índios Krenak ocorrido 10 dias após o rompimento da barragem de Fundão. “Índios fecham ferrovia da Vale em MG em protesto contra ‘morte de rio sagrado.” 15/11/2015. Disponível em: <http://bbc.in/1S08oc8>.

[18] Podem ser mulheres também, basta ler ou assistir vídeos com os discursos da diretora de Recursos Humanos, Saúde e Segurança, Sustentabilidade e Energia da Vale, Vania Somavilla, e o da Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu, ambas exemplos da nossa cegueira ocidental.

[19] A notícia do site G1 do dia 27/11/2015 mostra os moradores de Anchieta (ES) com faixas que indicam a inexistência de limites para a permissividade. Disponível em: <http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2015/11/protesto-favor-da-samarco-pede-manutencao-de-empregos-no-es.html>.

[20] No Espírito Santo, desde os anos 1960 e 70, as comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas sofrem com as consequências da exploração desenfreada de seus territórios para a monocultura do eucalipto pelas atividades da Aracruz Celulose S.A (atual Fibria).

[21] Eliane Brum entrevistou a procuradora da republica Thais Santi, na coluna “Belo Monte: a anatomia de um etnocídio” do dia 01/12/2014. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/01/opinion/1417437633_930086.html>.

[22] Ver também a entrevista de Eliane Brum com Antônia Melo, maior liderança do Xingu, nela explica-se como as empresas pensam ser possível rearranjar os sujeitos, uma desterritorialização violenta, os deslocando para novas moradias com roupagem civilizatória, retirando-os de um espaço comum de convivência que lhes era familiar. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/14/opinion/1442235958_647873.html>.

[23] O Manifesto Aceleracionista (2013), escrito por Alex Williams e Nick Srnicek, é duramente criticado, principalmente por continuar ignorando o sistema Terra como componente, em sua teoria sobre o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. O manifesto pode ser lido no blog disponível em: <http://criticallegalthinking.com/2013/05/14/accelerate-manifesto-for-an-accelerationist-politics/>.

[24] Disponível no YouTube: <https://www.youtube.com/watch?v=Yd564T2M9V8>.

[25] Entrevista do representante do Ministério Público Federal (MPF), o procurador Jorge Munhós de Souza. Disponível em: <http://www.brasilpost.com.br/2016/03/03/acordo-samarco-mariana_n_9373936.html>.

[26] Nota da Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens “Governo se rende à Samarco (VALE/BHP Billiton)”.Disponível em: <http://www.mabnacional.org.br/noticia/governo-se-rende-samarco-valebhp-billiton>.

 

 

 

Na beira do Rio Doce: antropoceno e mobilização no rastro da catástrofe

 

RESUMO: Esse artigo tem como objetivo apresentar, com reflexões teóricas e relatos etnográficos, a catástrofe do rompimento da barragem de Fundão, localizada em Mariana (MG), pertencente à mineradora Samarco S.A., Vale e à anglo-australiana BHP Billiton. Tendo no rompimento da barragem a marca de uma tragédia anunciada, que liberou bilhões de rejeitos tóxicos no Rio Doce, mapeamos, no rastro sócio-histórico da catástrofe, os elementos constituintes desse acontecimento transversal ao estatuto cosmológico moderno (no dualismo Natureza e Cultura). A experiência de realização de um documentário na cidade de Colatina, no Espírito Santo (ES) e a vivência das manifestações contra a Samarco – Vale/BHP, são o fundo de movimentação para uma investigação do modo de existência humano em relação com a natureza. Preenchemos a lacuna de tempo entre o rompimento das barragens em Bento Rodrigues (MG), o fechamento do acordo que vai reger a recuperação do Rio Doce e a mitigação dos danos causados pela empresa, à luz do perspectivismo ameríndio ou multinaturalismo. Por fim, compomos, com a proposta ecosófica de Guattari e o pensamento indígena, uma intervenção no crime-catástrofe que atingiu o Rio Doce e aqueles que vivem na sua beira.

PALAVRAS-CHAVE: Rio Doce. Vulnerabilidade. Antropoceno.

 


On the border of the Rio Doce: anthropocene and the mobilization in the wake of a catastrophe

 

ABSTRACT: This article aims to present with theoretical reflections and ethnographic reports of the catastrophe Fundão dam burst, located in Mariana (MG) belonging to the mining company Samarco SA (which belongs to Vale and Anglo-Australian BHP Billiton). Since the dam burst, known as an “announced tragedy”, has released 60m cubic meters of mud into the water systems of hundreds of town and cities downstream in the Rio Doce, we map the socio-historical trail of this catastrophe that has elements in the wake of the constitutution as a cross event direct linked to the modern cosmological status (seen in the dualism Nature and Culture). The experience of making a documentary in the city of Colatina, Espírito Santo (ES) and the vivid experience of the demonstrations against Samarco (VALE-BHP), act as the background to an investigation of the human mode of existence in relation to nature. We aim to fill the gaps in time between damn burst in Bento Rodrigues (MG), the signed agreement that will rule the recovery of Rio Doce and the mitigation of the damage caused by the company – in the light of amerindian perspectivism or multinaturalism. While, in the end of the article, we compose with Guattari ecosophy’s proposal and the indigenous thought an intervention considering the crime disaster that befell the Rio Doce and those living on their border.

KEYWORDS: Rio Doce. Vulnerability. Anthropocene.