ANO 06 - N15 - "A linguagem da contingência" ISSN 2359-4705

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Sylvia Furegatti e texto Susana Dias | Pedra_Planta

TÍTULO: Pedra_Planta


“Sobre a linguagem poética

Entendo esta pergunta-provocação a partir do interesse em comum que partilhamos sobre o posicionamento de todo artista em relação à sua produção e aos statments que ele constrói, ao longo da vida, a fim de partilhar os significados da arte, nas mais variadas formas pelas quais a (re)conhecemos. Como artista, mantenho-me bastante atenta a cuidar dos meus statments, revisando-os, de tempos em tempos, sempre que possível em voz alta, par e passo com a própria fatura dos objetos, ações, intervenções, ocupações ou ambiências que constituem os meus trabalhos.

Em seu estágio mais recente, minha linguagem poética tem se alimentado das integrações possíveis entre arte e paisagem por meio das quais busco burilar alguns aspectos da latência da forma plástica destes campos e que, a partir da intervenção instituinte do gesto do artista, assume outro significado; como nas séries mais recentes dedicadas às plantas, as quais, ora são levadas a assemelharem-se a um dado da cultura na forma de coleções e representações reeditadas (como no caso dos desenhos botânicos); ora referendam a forma própria e os atributos das camadas de informação e de desenho que portam as folhas, pedras, montes de terra ou de areia apropriados para tornarem-se arte. Trata-se, também de problematizar as temporalidades do trabalho artístico em nosso convívio. Por um lado, relativizar o tempo dos trabalhos constituídos da natureza viva e efêmera, por outro lado, dilatar o encontro do interator (preferido ao espectador) com o trabalho de arte que, integrado à natureza, envolve-se numa ambiência que provoca certo tipo de amortização dos sentidos, tal como experimentamos usualmente no passeio por um jardim ou por um bosque. Este tempo amortecido que percebo nas plantas me interessa muito por ampliar nosso contato direto com estruturas de sentido que nos possibilitam epifanias mais intensas diante das estratégias poéticas praticadas pelos artistas em nossa atualidade. E, talvez aqui, o sentido da descoberta concilie a arte, a política ou a religião…

Está na aporia, própria do artístico, outro dos elementos da poética contemporânea que tanto nos convida a permanecer por perto e dela partilharmos quanto nos adverte sobre a distância a ser praticada. Se há forma, esta deve ser desviante, hesitante, deve manter-se em estado de revisão contínua. Por isso, o que pratico na construção de meus trabalhos almeja os tangenciamentos entre a forma e o informe: são formas adotadas sempre em deslocamento de seus modelos mais convencionais; a evitar a suposição das garantias de permanência e sobrevida (Mercado) na tentativa de fixarem-se em fundações atemporais; como se derivassem entre os mundos carpintejado e não-carpintejado da Topofilia de Yi-Fu Tuan (1980): entre caixas objetos e caixas de luz/back light, fabricadas em madeira, entre plantas no vaso e folhas-de-plantas que portam desenhos, entre uma coisa e outra.

Sylvia Furegatti, em resposta à pergunta feita pelo editor do dossiê “A linguagem da contingência”, professor Eduardo Pellejero.

 


 

Pedra_Planta: das linhas que reativam o mistério da vida

As folhas das plantas dão a sentir o mistério da vida na Terra. Não apenas a vida dos indivíduos a que pertencem, mas a vida de todo o reino vegetal e de toda a biosfera (Coccia, 2018). Cada folha traz em si todas as outras folhas, cada planta todas as outras plantas, cada reino todos os outros reinos, seja vegetal, animal ou mineral. Percepções fractais que emergem dos gestos da artista Sylvia Furegatti, que brotam dos modos como usa e pensa o desenho, a fotografia e a montagem. Os desenhos feitos nas folhas de aloe vera e espada de São Jorge expõem outras plantas colhidas de seus arquivos de imagens catalogadas pela Botânica. Desenhos que não seguem as linhas de parentesco, descendência e filiação que tradicionalmente movem tanto a biologia como a antropologia, antes abrem as plantas, o arquivo, a Botânica e os humanos para relações não previamente programadas, interrogando os roteiros Ocidentais modernos. São modos de dar expressão a parentescos aberrantes, podemos pensar com Donna Haraway (2016), a linhas mais próximas da linha da vida, a histórias inscritas nessas superfícies que não são lineares, sucessivas e evidentes. Nas composições entre pedras e folhas de várias plantas diferentes, jiboia, jaqueira, palmeira, orquídea etc., os desenhos entre pedras e plantas exibem como a vida procede ao longo de linhas, como viver é um constante transmutar-se e tornar-se ao longo de linhas (Ingold, 2015). As linhas das folhas e os contornos dos corpos vegetais já se encontram adormecidos nas pedras. É como se as plantas já existissem desenhadas e sonhadas pelas pedras. Talvez as pedras possam ser pensadas como os primeiros desenhistas do mundo. Como se as pedras guardassem uma memória elemental de futuro e as plantas aprendessem a fazer pedra por outras linhas, criando e recriando-se a si mesmas e ao mundo em mútuas relações. A potência da expressividade da linha é a da conexão, não se tem mais plantas ou pedras, mas plantas-pedras, um bloco de relações que ganha existência pelo desenho e passa a mover delicadamente nossas percepções para fora do habitual. Somos convidados a seguir por conexões abertas, móveis e provisórias, pois que as linhas não aprisionam, não determinam, apenas sugerem. As fotografias, tal como as folhas que abraçam e acolhem as pedras, abraçam e acolhem as plantas-pedras e permitem criar outras composições com novos elementos. Plantas-pedras repousam sobre o chão junto com linhas liberadas pelas plantas para a terra, seja em galhos ou folhas secas. Linhas que pela decomposição serão liberadas das formas já dadas e histórias já vividas e se tornarão disponíveis para outros encontros, para a invenção de outras vidas possíveis. A fotografia não apenas registra e conserva as composições planta-pedra, antes participa com o desenho do processo contínuo de liberação das linhas para que elas possam seguir variando. A inserção desse bloco desenho-fotografia nos back lights dão a perceber que o segredo de plantas, pedras, desenhos, fotografias, humanos… é a luz. Tudo é iluminado desde dentro e num detalhe da folha de aloe vera vemos como as linhas do desenho se transformam em fissuras que deixam vazar algo desse corpo-luz das plantas. As caixas de madeira que contém a iluminação, a fotografia, o desenho, as pedras e as plantas parecem redesenhar tudo novamente num novo bloco de relações do qual, agora, participam as árvores. Sentimos como toda a vida se faz na relação com a luz, na possibilidade dos corpos e superfícies se relacionarem com a luz. Se as pedras podem ser os primeiros desenhistas do mundo, talvez as plantas possam ser, ao mesmo tempo, as primeiras máquinas fotográficas, fotógrafas e fotografias do mundo. Elas nos ensinam que fotografar é sintetizar luz, tornar-se capaz de se relacionar com o Sol, produzir energia e torná-la disponível para inúmeros outros processos e seres. Fotografar é transformar matéria em material e fazer corpo com o mundo, é fazer do corpo casa, refúgio para inúmeras outras formas de vida, é aprender a desenhar com linhas de luz. Daí que a Casa de Eva seja como mais bloco que abriga e transforma as caixas de madeira, back lights, fotografias, desenhos, plantas e pedras. As espadas de São Jorge com desenhos, do lado de fora da casa, já anunciam que o mistério das plantas tem a ver com essa espécie de desenhos de luz sem fim que as plantas traçam com as pedras e com toda a biosfera. Desenhos que nos convidam a reativar continuuns entre dentro e fora, entre desenhos e fotografias, entre plantas e pedras, entre humanos e não-humanos, entre arte e vida. Daí que o artista, como sentimos com Sylvia, possa tornar-se esse ser que aprende a carregar um jardim anômalo dentro de si, e se dispõe a esses aprendizados ao trançar suas linhas pelo emaranhados dos mundos, contribuindo para que os movimentos dos mundos possam seguir protegidos por caminhos abertos e indeterminados, ou seja, misteriosos”.

Texto de Susana Dias, feito para a obra “Pedra_Planta” de Sylvia Furegatti, exposta na Casa de Eva, Campinas, 2019.

COCCIA, Emanuele. A vida das plantas: uma metafísica da mistura. Trad. Fernando Scheibe. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie, 2018.

INGOLD, Tim. Líneas: una breve historia. Trad. Carlos García Simón. Barcelona: Ed. Gedisa, 2015.

HARAWAY, Donna. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes. Trad. Susana Dias. ClimaCom, ano 3, n.5, 2016.

 


 

FICHA TÉCNICA

Artista: Sylvia Furegatti

País: Brasil

 


 

 

FUREGATTI, Sylvia. Pedra_Planta. ClimaCom – A Linguagem da Contingência [online],  Campinas,  ano. 6n. 15. Ago2019 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/sylvia-furegatti-pedra_planta/

DIAS, Susana de Oliveira. Pedra_planta: das linhas que reativam o mistério da vida. ClimaCom – A Linguagem da Contingência [online]Campinasano. 6n. 15. Ago2019 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/sylvia-furegatti-pedra_planta/


 

SEÇÃO ARTE | A LINGUAGEM DA CONTINGÊNCIA | Ano 6, n. 15, 2019

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