Sustentabilidade da Amazônia requer alianças entre cientistas e comunidades tradicionais | Gláucia Pérez

O cientista Carlos Nobre defendeu esta semana que universidades e institutos de pesquisa criem espaços de soluções para a Amazônia junto com as comunidades, aliando tecnologias, conhecimentos tradicionais, bioeconomia e políticas públicas.

Por Gláucia Pérez

Editora Susana Oliveira Dias

 

 

O cientista Carlos Nobre, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007 por elaborar junto com a sua equipe o Quarto Relatório do Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas, no dia 25 de fevereiro proferiu uma aula magna para a Universidade Federal de Goiás – UFG, https://www.youtube.com/watch?v=-Jej0vFrF8o. O foco da aula foram suas preocupações com a Amazônia que, em sua avaliação, está próxima de um ponto de não retorno diante dos recorrentes desmatamentos e queimadas. A situação da Amazônia exige medidas urgentes que sejam capazes de criar um novo paradigma de desenvolvimento sustentável, que Carlos Nobre chama de “bioeconomia de floresta em pé e rios fluindo”.

Nesse sentido, ele apresentou o Projeto Amazônia 4.0, que busca um espaço comum de soluções que reúnam cientistas e comunidades, que gerem alianças eficazes entre tecnologias, conhecimentos tradicionais, bioeconomia e políticas públicas, com o objetivo de liderar o desenvolvimento de um novo modelo sustentável para a Amazônia.

Carlos destacou que a Amazônia tem uma extrema importância para toda a vida na Terra por vários motivos: desde a capacidade de armazenamento de carbono na biomassa; a imensa hidrologia; a maior biodiversidade do planeta; a relevância que tem para a estabilidade climática; e a diversidade cultural e étnica dos povos originários. A floresta amazônica é das florestas tropicais que mais recicla água fornecendo umidade para as chuvas de outras regiões do Brasil: centro-oeste, sudeste e sul, e países vizinhos, por meio de um processo que ficou conhecido como “rios voadores” através dos estudos de Antônio Nobre, José Marengo, Carlos Nobre e Enéas Salati. https://envolverde.com.br/antonio-nobre-o-planeta-esta-enfermo-e-preciso-reajardina-lo/

O desmatamento realizado para a construção de estradas e as queimadas para a pastagem do gado na Amazônia, iniciados nos anos 70, e os incêndios florestais provocaram e continuam interferindo nas mudanças climáticas e no processo de savanização da Floresta Amazônica. De acordo com o artigo Impact on short-lived climate forcers increases projected warming due to deforestation, de 2018, entre os anos de 2000 a 2012 a Amazônia teve uma perda anual de 19 milhões/km² de área florestal por desmatamento. O relatório de 2019 do INCT MC Fase 2 também aponta que, desde 2014, há aumentos na taxa de desmatamento que, consequentemente, aumentarão a degradação da floresta, principalmente durante as secas, aumentando as emissões de aerossóis e gases de efeito estufa.

Carlos Nobre defende que a urgência na criação de um novo modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, com as seguintes prioridades: zerar o desmatamento, restaurar a floresta e criar valor para a biodiversidade. Para isso, de acordo com ele, é preciso aliar o conhecimento científico com o conhecimento tradicional, para aproveitar o potencial da floresta (os valores da natureza) através das bioindústrias: de cosméticos, alimento, fragrâncias, bebidas, farmacêutica, óleos, recursos genéticos. Como exemplo, Carlos apresentou a comercialização mundial do açaí como alimento, bebida, cosmético e óleos e avaliou que o atual modelo de desenvolvimento da Amazônia não tem trazido crescimento econômico e social para as populações locais. As atividades econômicas atuais como a pecuária, exploração de madeiras e soja, têm um baixo potencial de lucratividade para a região, e ainda “o setor garimpeiro não tem levado nenhum benefício para a região”.

A fala de Carlos Nobre aponta para novas possibilidades de interações, de coexistências e cocriações, entre populações locais e pesquisadores de universidades e institutos de pesquisa que abram novos campos de sensibilidades para lidar com a Amazônia. (Link com a notícia completa em pdf)

 

Gláucia Pérez é bolsista TT Fapesp no projeto INCT-Mudanças Climáticas Fase 2 financiado pelo CNPq pro- jeto 465501/2014-1, FAPESP projeto 2014/50848-9 e CAPES projeto 16/2014, sob orientação de Susana Dias e Antonio Carlos Amorim.

Coletivo e grupo de Pesquisa | multiTÃO: prolifer-artes sub-vertendo ciências, educações e comunicações (CNPq)

Projetos | Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC) – (Chamada MCTI/CNPq/Capes/FAPs nº 16/2014/Processo Fapesp: 2014/50848-9); Revista ClimaCom: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/ e Revista ClimaCom.