Sonhar com florestas, para fazer florestas | Marina Souza Lobo Guzzo


Marina Souza Lobo Guzzo[1]

 

Yadwigha num belo sonho

Estando adormecida docemente

Escutava os sons de uma cornamusa

Que tocava um encantador benévolo.

Enquanto que a lua reflete

Sobre as flores, as árvores verdejantes,

As fulvas serpentes prestam ouvidos

Às melodias alegres do instrumento[2]

 

Na sala de uma casa na cidade, com o privilégio de poder fazer distanciamento social e evitar espaços de possível contaminação pelo vírus SARS-Cov-2, percebo que sonho com a natureza. Imagino matas, ouço o som dos pássaros, procuro tons de verde. Atenho-me aos vasos do pequeno jardim, espaços confinados de plantas que resistem ao ar poluído, produzindo vida em pedaços de plástico. As cidades cansadas, velhos espaços, imaginados para uma vida que já não é mais a nossa, virou um cenário de desencanto e de muitas perdas. Fomos lançados em 2020 de volta ao lugar de espectadores de um filme trágico: milhares de mortos pela falta de políticas públicas eficazes na prevenção à pandemia, ao mesmo tempo em que assistimos o fogo queimando as florestas e o cerrado, reforçando tantas outras desgraças do cenário político e social. Cidades que não existem mais, ou que nunca existiram, e que se transformaram em um conjunto contrastante de casas particulares, apartamentos desiguais, casebres, favelas (COCCIA, 2020). Sonho com florestas. Lembro do Sonho de Henri Rousseau, um dos meus preferidos.

figura 1 sonhar com florestas

Figura 1 – Henri Rousseau, O Sonho, 1910. Óleo sobre tela, 204, 5 x 298, 5 cm. The Museum of Modern Art, Nova York.

O sonho, grande pintura a óleo sobre tela criada em 1910, é uma das mais de 25 pinturas que o artista fez com o tema da selva. “A mulher adormecida no sofá sonha que foi transportada para a floresta, ouvindo os sons do instrumento do feiticeiro”, essa é a inscrição do artista para o quadro, em carta de 1910 para André Dupont, quando explicava a presença do sofá no quadro (LIMA, p.163, 2019). Rousseau explicava, assim, a inserção de um músico e uma mulher nua reclinada em uma selva iluminada pela lua, cheia de folhagens e vida selvagem – era um sonho. O sonho de uma floresta (leia o ensaio completo em pdf).

 

Recebido em 30/10/2020

Aceito em 19/11/2020

 

[1] Professora Adjunta na UNIFESP – Campus Baixada Santista, no Departamento de Saúde, Clínica e Instituições e credenciada ao Programa de Pós-graduação Interdisciplinar de Ciências da Saúde. Pesquisadora e artista do Laboratório Corpo e Arte. E-mail: marina.guzzo@unifesp.br

[2] “Yadwigha dans un beau rêve/S’étant endormie doucement/Entendait les sons d’une musette/Dont jouait un charmeur bien pensant./Pendant que la lune reflète/Sur les fleurs, les arbres verdoyants,/Les fauves serpents prêtent l’oreille/Aux airs gais de l’instrument.” (ALEXANDRE, A. 1910 apud LIMA, 2020)

 

 

Sonhar com florestas, para fazer florestas

RESUMO: A partir do quadro “O Sonho” de Henri Rousseau (1910), o presente ensaio pretende imaginar práticas mundanas para operadores sociais em um mundo devastado pela monocultura. Sob a lógica da plantation, hoje, em plena pandemia da Covid-19, somos tentados a sonhar novas “florestas” para a vida insustentável nas cidades brasileiras. Como fazer floresta frente à monocultura do fazer e do sentir? A resposta para esta pergunta tenta ser tensionada a partir de alguns princípios que têm desenvolvido modos de regeneração de solos destruídos por anos de monocultura em plantações de soja, cana ou mesmo pastos. São exercícios de imaginar práticas que podem servir como ponto de partida para um campo de experimentações estético-político-sociais.

PALAVRAS-CHAVE: Arte. Floresta. Agrofloresta.

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Dreaming of forests, to make forests

ABSTRACT: Based on the painting “O Sonho” by Henri Rousseau (1910), the aim of this essay is to imagine worldly practices for social operators in a world devastated by monoculture. Under the current logic of plantation in the midst of the Covid-19 pandemic, we are tempted to dream new “forests” for unsustainable life in Brazilian cities. How to create a forest facing the monoculture of making and feeling? The answer to this question tries to be tensioned based on some principles that have developed ways of regenerating soils destroyed by years of monoculture in soybean, sugarcane or even livestock grazing. These are exercises in imagining practices that can serve as a starting point for a field of aesthetic-political-social experiments.

KEYWORDS: Art. Forest. Agroforestry.


GUZZO, Mariana Souza Lobo. Sonhar com florestas, para fazer florestas. ClimaCom – Epidemiologias [Online], Campinas, ano 7,  n. 19,  Dez.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/sonhar-fazer-florestas/ ‎