Sobre cuspes e perdigotos: Sete gestos contra a necropolítica zumbi no Brasil | Bibiana Serpa, Clara Meliande, Ilana Paterman Brasil, Julia Sá Earp, Paula de Oliveira Camargo, Sâmia Batista e Zoy Anastassakis


 

Bibiana Serpa[1]

Clara Meliande[2]

Ilana Paterman Brasil[3]

Julia Sá Earp[4]

Paula de Oliveira Camargo[5]

Sâmia Batista[6]

Zoy Anastassakis[7]

 

GESTO 1 | Barreiras[8]

Com o início da pandemia de Covid-19, mais especificamente a partir de março de 2020, como um grupo de sete mulheres pesquisadoras em design, buscamos investir, coletivamente, em leituras que nos apoiassem para o enfrentamento existencial da situação que estávamos vivendo – e que tomamos não como “mera” crise, mas como sintoma de uma “mutação ecológica duradoura e irreversível” (LATOUR, 2020)[9].

No Brasil, a crise sanitária e ambiental atinge grande intensidade, pois se enreda à tragédia política que acomete o país. Sobreviver, pesquisar e discutir a pandemia, então, não podem ser exercícios apartados da avaliação crítica do cenário político. Afinal, assim como os perdigotos em que o coronavírus se desloca em alta velocidade, a violência que se acelera com a conjugação entre as perspectivas sanitária, econômica, ecológica, política, e, também, afetiva, salta de casa em casa, de janela em janela, de tela em tela, atravessando os nossos corpos, trazendo, para dentro de nós e de nossas casas, a vertigem.

Entretanto, é exatamente em meio à imagem quimérica (SEVERI, 2013) dessa vertigem que encontramos forças para imaginar gestos-barreira – em francês, gestes barrières (LATOUR, 2020) contra tudo que já não serve mais nesta civilização viral (VILAÇA, 2020) inoculada pelos europeus desde o início de suas invasões coloniais mundo afora. Associações entre “o modo de nossa sociedade e aquele do vírus” (VILAÇA, 2020, p. 36) foram propostas por Claude Lévi-Strauss (1965, apud VILAÇA, 2020), e, mais recentemente, por Elizabeth Povinelli (2017) e Donna Haraway (2016), dentre outras e outros.

Haraway propõe uma leitura alternativa para o processo de infecção viral, menos relacionada à destruição, mas, sim, às alianças entre os seres e espécies em suas diferenças. Por meio da noção de “viral response-ability” (HARAWAY, 2016, p. 39), ela sugere que o vírus pode ser um meio para experimentações comprometidas com a mutação e a esperança – como faz também Paul B. Preciado (2020). Então, assim como o vírus, que se espalha e se transforma de modo invisível, por meio de uma micropolítica do gesto performativo (MASSUMI, 2017) talvez possamos construir as barreiras contra aquilo que não queremos seguir reproduzindo.

Apostando que a cura e o cuidado só podem emergir de um processo de transformação política (PRECIADO, 2020), politizamos o debate em busca de meios para reimaginar a vida no microbioceno (REES, 2020). Mas que aberturas, pontes, meios de sobrevivência e ressurgência podemos reanimar com esses gestos-barreira? Respirando, nos reunindo, contando estórias, como nos lembra Ailton Krenak (2019), adiamos o fim do mundo (leia o ensaio completo em pdf).

 

Recebido em 27/10/2020

Aceito em 01/12/2020

 

[1] Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Design, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPDESDI/UERJ); bibianaoserpa@gmail.com

[2] Doutoranda no PPDESDI/UERJ; clara@clarameliande.com

[3] Doutoranda no PPDESDI/UERJ; ilanapaterman@gmail.com

[4] Doutoranda no PPGSA/IFCS-UFRJ; juliasaearp@gmail.com

[5] Doutoranda no PPDESDI/UERJ; paula.poc@gmail.com

[6] Doutoranda no PPDESDI/UERJ; samia79@gmail.com

[7] Doutora em Antropologia; Professora Adjunta, Escola Superior de Desenho Industrial, Universidade do Estado do Rio de Janeiro; zoy@esdi.uerj.br

Sobre cuspes e perdigotos:

Sete gestos contra a necropolítica zumbi no Brasil

RESUMO: Sete mulheres, sete gestos. Em isolamento social durante a pandemia de Covid-19, um grupo de pesquisadoras afiliadas ao Laboratório de Design e Antropologia da ESDI/UERJ se empenharam em buscar compreender como a pandemia e a política vinham afetando suas vidas e suas pesquisas. Ao ler e escrever em conjunto, embora fisicamente distantes, em diversos lugares no Brasil e em Portugal, elas buscavam elaborar sobre corpos como agentes políticos, gestos como barreiras políticas, instintos como ações políticas, buscando compreender o mundo a partir das inusitadas condições estabelecidas por um vírus insidioso. Através das lentes virais, racismo, ação política, escolhas individuais e comportamentos coletivos vêm sendo magnificados, colocando a pesquisa em design, e a própria vida, em novas perspectivas. Qual deveria ser, então, o papel do design, e da pesquisa em design, no turbilhão sanitário e político de nível mundial? Este ensaio não apresenta respostas. Ao contrário, levanta questões e perspectivas sobre como reunir corpos em aliança através da escrita de sete gestos conflituosos.

PALAVRAS-CHAVE: Necropolítica zumbi; Gestos-barreira; Covid-19.

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About spits and perdigotes:

Seven gestures against zombie necropolitics in Brazil

ABSTRACT: Seven women, seven gestures. In social isolation during the Covid-19 pandemia, a group of researchers affiliated to the Design and Anthropology Lab at ESDI-UERJ committed to figure out how pandemics and politics affected their lives and their design research. Reading and writing together from different places in Brazil and Portugal, they try to understand how bodies can be political agents, how gestures can be political barriers, how instincts can be political actions, how the world can be understood under the new conditions brought by a surreptitious virus. Through the virus’s lenses, racism, political action, individual choices and collective behaviors are enhanced, bringing design research and life itself into new perspectives. What should be the role of design, and of design research, in political and sanitary turmoil worldwide? This paper doesn’t bring answers. Rather, it brings questions and perspectives on how to understand bodies in alliance through the writing of seven conflictual gestures.

KEYWORDS: Zombie Necropolitics; Barrier-gestures; Covid-19.

 

SERPA, Bibiana et al. Sobre cuspes e perdigotos: sete gestos contra a necropolítica zumbi no Brasil. ClimaCom – Epidemiologias [Online], Campinas, ano 7,  n. 19,  Dez.  2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/sobre-cuspes-e-perdigotos/