Trilogia da vida| Silvana Sarti

Título | Trilogia da vida

Um mergulho na alma de todas as coisas

A Trilogia da Vida, fotoperformance, nasce inspirada na premissa das religiões arcaicas, especialmente as de matriz africana e indígena, que creêm que tudo tem uma alma, seja um animal, vegetal ou mineral. Dividida em 3 capítulos:

Anima Latente. Alegoria da alma vegetal. A artista integra-se com a vegetação do bosque, mostrando que não há divisão entre homem e natureza. A escultura de Bernini, Apolo e Dafne, serve de referência estética para o trabalho. As fotos são de Fábio Florentino (artista visual, pós graduado USP Maria Antonia) feitas em Iperó São Paulo.

Anima Manifesta. Alegoria da alma selvagem.  A artista experimenta o devir do xamã, empresta seu corpo aos seres do reino animal, a evolução das espécies aí acontece. A questão de gênero, as minorias étnicas, os assim chamados “selvagens”, gravemente ameaçados da mira expansionista são simbolizados na pintura corporal e adornos . A referência escultória é o “Hermafrodita Adormecido”, estátua grega reformulada por Bernini, trás a sexualidade latente em cada ser. Feita em um pequeno abatedouro, trás o conflito entra vida e morte, intrínseco ao próprio fato de existir, a morte alimenta a vida e vice-versa. O corpo branco provoca estranhamento e empatia. Com a diária banalização da morte, é imprescindível alertar, sobre o genocídio que está em pleno vigor no Brasil. Fotógrafo Ivano Mercanzin, https://www.ivanomercanzin.it/  Vicenza, Itália.

Anima Transcendente. Alegoria da alma mineral. Com inspiração na escultura “O êxtase de Santa Teresa d’Avila” de Bernini. Penetra no mundo mineral, aparentemente o mais “apático”mas é aquele que está aí desde a aurora dos tempos, em pleno movimento, que seja imperceptível e criando vida o tempo todo. Registro material de tempos imemoráveis, constitue nosso corpo/ “casa”. O êxtase, Eros, o princípio de vida e o orgasmo, quando o mundo físico se funde ao mundo espiritual. Fotos de Ana Rosa Marques (prof. Dr. Geografia, depto Hist. Geo UEMA, analista ambiental Ibama, fotografia como pesquisa socioambiental) feitas em Cerqueira Cezar, São Paulo.

O texto de apresentação é de Marina Marcolini: Docente de literatura italiana moderna da Universidade de Undine, post doutora pela Universidade de Pádua, escritora, poeta e co-autora do programa televisivo “As razões da Esperança” da RAI 1:

Trilogia da vida

A vida é uma rede muito densa da qual não se pode isolar os fios. A vida é a energia misteriosa que flui em todos os seres vivos e nos faz irmãos das plantas, dos animais, da água e do sol, na maravilhosa cadeia que nos liga a todos uns aos outros. Tudo está interligado, tudo está conectado com tudo, no espaço e no tempo.

Nosso corpo é composto de bilhões de átomos, que antes de nós pertenceram a outras criaturas. Todos os dias somos atravessados pelo ar, pela água, pela comida, que fizeram longas migrações antes de chegar até nós. Somos uma única comunidade de seres vivos, uma só família. Conectados como as veias do corpo, como cursos d’água confluntes, não só com os seres do nosso planeta, mas com o universo.

Um punhado de terra é composto de água, sais minerais, matéria orgânica. A água faz longas viagens, ligando seres e coisas. Um dia estava numa fonte, logo após corria dentro de um cano, chegou à minha mesa, eu bebi, respirei, e com a minha respiração a água tornou-se vapor, uniu-se a respiração de outras criaturas e ao sopro do mar e subiu alto e tornou-se uma nuvem e depois chuva. E agora ela está de volta a este punhado de terra.

Os sais minerais, por outro lado, vêm dos confins mais distantes do tempo, das antiquíssimas rochas, que a água dissolveu e trouxe até este meu copo de água… Mas a parte mais surpreendente da terra é a matéria orgânica, o húmus: a parte vital da terra. Um dia foi uma criatura viva – milhões de organismos vivos – plantas, animais e seres humanos.

A terra contém a vida daqueles que nos precederam. A vida que é una. Pétalas e asas de borboletas e lâminas de grama e raízes e mãos e rostos… todos eles convergiram para lá, como os cursos de água – rios e torrentes – todos fluem, para o mar. Gerações e gerações de borboletas, árvores e homens voltaram ao seio da terra, onde ainda tremem de vida.

Deste fluxo contínuo, a fotoperformance de Silvana Sarti, oferece uma evocativa e extraordinária narrativa, a partir do corpo de uma mulher “enterrado viva” na terra fértil de uma selva brasileira. Nessas imagens de forte impacto, anula-se a distância entre o ser humano e a natureza, o corpo humano retorna à terra, no confiante abandono da semente que morre para renascer, e da terra brota como um rosto, raiz, folha, pé…. Os ciclos vitais da natureza, que o corpo feminino interpreta, e os espantosos vislumbres de luz e azul – água, céu – dizem o sagrado existente na vida natural, a “alma” da Terra.

O trabalho da artista se baseia nos antigos cultos animistas do Brasil e da África, segundo os quais há uma alma em tudo o que existe. É um hino de amor à terra e, ao mesmo tempo, de denúncia contra a sua exploração, que nos desperta para uma realidade muitas vezes esquecida: que nós mesmos somos terra. Aquele que sente os laços, aquele que compreende que estamos todos interligados na única história da vida e do universo, deixa espontaneamente de violar a terra e de querer ser seu senhor. Não basta adquirir um novo conhecimento, uma nova maneira de ver as coisas, é necessário que haja uma mudança de coração que leve à ação.

Agir pela paz, parar a agressão contra tudo o que é vulnerável: seres humanos, outras criaturas, a biosfera.

Trata-se de amar a terra. De amar a vida.

 


Ficha técnica

Silvana Sarti

 

 

SARTI, Silvana. Trilogia da vida. ClimaComFlorestas [online],  Campinas,  ano 7, n. 17. Maio. 2020. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/silvana-sarti-florestas/


 

SEÇÃO ARTE | FLORESTAS | Ano 7, n. 17, 2020

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