Reflorestar a Bíblia: uma prática vegetal e ecofeminista | Emanuely Miranda


Emanuely Miranda[1]

Memórias de gênesis

Cresci à beira do Rio Paraíba do Sul. Reguei a planta de meus pés em suas margens enquanto ouvia a voz das ancestrais no canto de suas águas. Elas falavam do tempo que passou, quando fincaram raízes na terra de Campos dos Goytacazes, e sussurravam encantos de força para o tempo que virá, quando suas sementes germinarão outras árvores em corpos de mulheres que delas brotaram. Vez ou outra, especialmente nos fins de tarde, todas se mostravam para mim, dançando no fundo dos olhos da minha avó, Zenita Maria.

Todas as mulheres que um dia foram para que eu pudesse ser estavam dentro de sua caixa torácica, debaixo de sua pele preta, na sua corrente sanguínea. Eu as reverenciava enquanto vovó fazia chuvisco, costurava, capinava o chão e falava com as plantas.

Em seu quintal, havia um cosmos em conexão com o feminino. Vovó revirava a terra para engravidá-las com sementes de árvores que cresciam juntas, conviviam com suas diferenças e partilhavam a vida uma com a outra. Quando eu entrava em sua pequena e grandiosa floresta, tirava a sandália dos pés e sentia forças espirituais me cercarem com amor. Ali acontecia o sagrado e eu sempre saía de lá mais viva.

Para fora dali, havia morte. A terra que veio a ser Campos dos Goytacazes esteve em disputa durante muito tempo e, durante cem anos, o povo Goytacá conseguiu manter o pertencimento do território onde eram nativos. Fincaram as raízes ali, no entanto, lentamente os colonizadores devastaram suas árvores, uma por uma.

Aos poucos e a partir da presença dos sete capitães é que foram perdendo seu espaço, pois armas de fogo e roupas contaminadas com doenças do homem branco, desconhecidas entre a tribo, foram usadas contra os Goytacazes, que foram sendo combatidos aos poucos (PARDO, 2012, p. 7)

Com a Bíblia em punho, a colonização europeia invadiu a terra dos Goytacá e fundou monoculturas de cana de açúcar. Extensos canaviais se alastraram por lá, escravizaram corpos e lugares, ceifaram florestas e conexões com o divino. O quintal da minha avó foi um espaço espiritual que resistiu à monocultura e abrigou minha infância inteira entre suas árvores.

Este ensaio traz em si o carinho por esse quintal e a reverência por sua força de floresta para desviar das monoculturas impostas sobre gentes, terras e textos, especialmente a literatura bíblica. Ele se propõe a investigar os funcionamentos necropolíticos e monoculturais da teologia, além de imaginar possibilidades de vida e conexão cósmica para nossas espiritualidades. Conectar-se ao sagrado pela natureza, reconhecendo-se parte dela e parte com ela, consiste num modo de se manter viva em meio à barbárie das colonizações, e apesar dela.

[1] Mestranda em Divulgação Científica e Cultural do Labjor-IEL-Unicamp. Email: emanuelymiranda.em@gmail.com

 

(Leia o ensaio completo em PDF).

 

Recebido em: 15/09/2022

Aceito em: 15/10/2022

 

 

Reflorestar a Bíblia: uma prática vegetal e ecofeminista

 

RESUMO:  O texto bíblico foi tomado pela monocultura hermenêutica para fixar um padrão, contar uma história única sobre o feminino e a natureza, além de colocar a necroteologia em funcionamento. Surge assim uma religiosidade que ataca o cosmos e coloniza as espiritualidades. Inspirado em D. H. Lawrence, este artigo diz sobre a importância de reflorestar a Bíblia, imagina experiências de vida com o texto bíblico e ensaia uma reconexão cósmica e espiritual. Assim o faz, porque compreende o movimento de reflorestamento como uma prática vegetal, ecofeminista e necessária.

PALAVRAS-CHAVE: Bíblia. Ecofeminismo. Monocultura. Reflorestamento.


 

Reforesting the Bible: a plant and ecofeminist pratice

 

ABSTRACT: The biblical text seized by the hermeneutic monoculture aim to stablish a standard, tell a unique story about the feminine and nature, as well as put an operational necrotheology. Therefore arises a religiosity, which rails at the cosmos and settle spiritualties. Inspired by D. H. Lawrence, this article mention the importance of reforesting the bible, envision a life experience with the biblical text and briefs a cosmic and spiritual reconnection. Shall do so, in understanding of an indispensable ecofeminist afforestation motion as a plant cover practice.

KEYWORDS: Bible. Ecofeminism. Monoculture. Reforestation.


MIRANDA, Emanuely. Reflorestar a Bíblia: uma prática vegetal e ecofeminista ClimaCom – Políticas vegetais [online], Campinas, ano 9, n. 23., dez. 2022. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/reflorestar-a-biblia/