Rafael Ghiraldelli | Carbono

Título: Rafael Ghiraldelli |Carbono


Minha proposta de ação artística consiste na transferência de fotografias tiradas no decorrer dos encontros da disciplina JC012 – Arte, Ciência e Tecnologia – sobre tecidos de espessuras e texturas variadas. Para tanto, foi empregado principalmente papel-carbono azul – material que, pelo nome, refere-se ao elemento químico que compõe todas as formas de vida do planeta, e que, pela cor, refere-se aos ambientes que esses mesmos seres vivos partilham: o azul do céu, do mar, e da Terra vista do espaço. Ao mesmo tempo, há uma tensão implícita no fato de existir tanto o carbono que compõe as moléculas de muitos gases estufa que perduram na atmosfera terrestre em decorrência de séculos de intervenção antrópica desmedida como o carbono volátil, do papel-carbono, que pode desvanecer se exposto à luz do Sol por um dado intervalo de tempo. O desfazimento de desenhos feitos por intermédio do papel-carbono representa, nesse sentido, a efemeridade da existência humana no planeta. Trata-se de algo que se sente cada vez mais na pele, na medida em que os efeitos do aquecimento global culminam em dias cada vez mais quentes, e conforme se vê nossas florestas pegando fogo devido à inação daqueles supostamente responsáveis por protegê-las diante dos interesses do agronegócio.

A estratégia-chave para a concretização desta proposta foi a de combinar imagens diferentes no intuito de ressignificar seus respectivos conteúdos, acionando potências poéticas no ato da transferência sobre o suporte indicado – o que pode envolver sobreposições, justaposições, frotagens, incompletudes e efeitos variados de traçado sobre as imagens usando diferentes instrumentos de desenho (lápis, caneta esferográfica, gizes de cera, pontas-secas, etc.). A complexidade das composições/combinações variou de acordo com os diferentes devires que se configuraram e surgiram a partir da mescla de imagens. Acasos e acidentes foram muito bem-vindos em tal processo, uma vez que, menos que um porvir – ou seja, menos que obter um resultado predizível e previsível – o devir implica atravessar e derrubar fronteiras estabelecidas pelos assim chamados “detentores do saber” entre repertórios culturais, modos de expressão artística, tecnologias e epistemologias diversas. Implica enflorestar-se, articular-se com a diversidade em prol de novas maneiras de se abordar a questão das mudanças climática sem ser por demais figurativo.

Por isso, pensou-se também na transdisciplinaridade, na troca de conhecimentos com outros colegas da disciplina, propondo que tal técnica de transferência pudesse ser compartilhada e realizada colaborativamente, na forma de oficina. Esta não deixa de ser uma tecnologia de fazer artístico que, ao servir como trama estruturante de uma crítica aos usos das “altas tecnologias” de exploração do mundo na contemporaneidade, promovem um estar juntos em (cri)ação.

É nessa artesania que reconfigura imagens técnicas por excelência (fotografias) em imagens cujo traço de quem as interpreta se evidencia por meio de pequenos estilemas, hesitações, tremulações, intensidades e qualidades de linha na qual reside uma grande força de instauração coletiva. Do fazer arte coletivamente. É o devir-floresta operando em um bem-viver voltado a pensar, realizar, debater, conhecer e veicular arte para todos.

É o sentipensar ARTEficial.

 


LEGENDAS

DESENHO 01 – Alessandra Ribeiro, líder da Comunidade Jongo Dito Ribeiro, e visitantes da Casa de Cultura Fazenda Roseira, e árvores e visitantes da Mata Santa Genebra. Desenho em papel canson.

DESENHO 02 – Alice Copetti manipulando a obra de Glauco Roberto – “Àfricas (im)possíveis na escola” – na Fazenda Roseira, árvores da Mata Santa Genebra e a cientista Marie Curie, ganhadora do Prêmio Nobel de Química em 1911. Desenho em papel canson.

DESENHO 03 – Marília Costa na Mata Santa Genebra. Desenho em papel canson.

DESENHOS 04 e 05 – Desenhos em processo

DESENHO 06 – Alessandra Ribeiro e Flávia Tamires, e Bianca Lúcia Ribeiro e Flávia Tamires, na Casa de Cultura Fazenda Roseira. Desenho em sacola.

DESENHOS 07, 08 e 09 – Susana Dias na sala de aula do Labjor-Unicamp. Desenho em sacola. FOTOS – Mariana Vilela por Susana Dias.

DESENHO 08 – Mariana Vilela. Desenho em sacola.

FICHA TÉCNICA

Concepção e texto | Rafael Ghiraldelli

Disciplina e orientação | JC 012 Arte, ciência e tecnologia, MDCC-Labjor-IEL-Unicamp, Profa. Dra. Susana Dias.

Pessoas que tornaram possível esta criação | Alessandra Penha, Alessandra Ribeiro, Alice Copetti, Alda Romaguera, Adriano Amarante, Bianca Lúcia Ribeiro, Carolina Avilez, Carolina Bernardes, Carolina Cantarino Rodrigues, Carolina Scartezini, Cris Monteiro, Eduardo Assad, Flávia Tamires, Gláucia Perez, José Ezcurdia, Luciana Martins, Maria Cortez, Mariana Vilela, Mariela Almeida, Marília Costa, Marli Wunder, Mauro Tanaka, Paula Carolina Batista, Rodrigo Reis Rodrigues, Renato Salgado de Melo Oliveira, Sara Melo, Sylvia Furegatti, Tatiana Plens de Oliveira.

Comunidades e instituições que nos acolheram | Comunidade Jongo Dito Ribeiro e Fazenda Roseira, Fundação José Pedro de Oliveira e Mata Santa Genebra, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e Praça da Paz da Unicamp.

 


 

Este trabalho foi desenvolvido no âmbito da disciplina “JC012 – Arte, ciência e tecnologia”,  ministrada pela professora Susana Dias, no Mestrado em Divulgação Científica e Cultural (MDCC), do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no segundo semestre de 2019. O problema que nos interessou pensar na disciplina neste semestre foi o de entrar em comunicação com um mundo todo vivo, com uma matéria viva, ativa e criativa (DELEUZE & GUATTARI, 1997; STENGERS, 2017; EZCURDIA, 2016; DADA & FREITAS, 2018). Para experimentar essa possibilidade buscamos pensar o que pode ser comunicar em parceria com a floresta, propondo encontros com diversos lugares, materiais e práticas em busca de aprender com diferentes ofícios a como ganhar intimidade com as florestas. Uma das questões que a floresta suscita de interessante para pensar é o fato de reunir uma diversidade de seres-coisas-forças-mundos e propiciar condições para encontros, com a possibilidade de gerar coevoluções, cocriações. Nessas coevoluções-criações estão sempre envolvidas ecologias de devires (negro, índio, animal, vegetal, criança, fungo, máquina, pedra, animal, linha, luz, elemental, cósmico…), a chance de que sejamos afetados e afetemos, de que nos engajemos em movimentos de alegre imbricação recíproca com as minorias, com os não-humanos, com tudo o que pode potencializar o pensamento e a relação com a Terra. Os encontros, e os exercícios de composição sensível entre heterogêneos feitos pelo grupo, e que estão publicados neste dossiê, buscam dar vigor ao chamado de pensar a comunicação como um perceber-fazer-floresta. Uma fé na “instauração” (SOURIAU, 2017; LAPOUJADE, 2017) de toda uma sensibilidade de outra natureza, que permita criar um campo problemático potente para lidar com as dualidades sujeito-objeto, realidade-ficção, humanos-não-humano, matéria-espírito. Uma atenção ao gestos que mobilizam uma “lucidez alegre” (STENGERS, 2017) e que não nos relegam à impotência, afirmando uma vitalidade e confiança no presente e futuro diante destes tempos desafiadores (DANOWSKI & VIVEIROS DE CASTRO, 2014; STENGERS, 2015; LATOUR, 2019).

Bibliografia

DADA, Faseyi Awogbemi; FREITAS, Glória. Dialogando com a semente de obi ou a floresta: um convite para conhecer um pouco da nossa tradição religiosa e cultura Yoruba. ClimaCom – Diálogos do Antropoceno [online], Campinas, ano. 5, n. 12. Ago. 2018 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=9478

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 4. Trad. de Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 1997, pp. 11-113. (Coleção TRANS).

EZCURDIA, José. Cuerpo, intuición y diferencia em el pensamento de Gilles Deleuze. Ciudad de México: Editorial Ítaca, 2016.

DANOWSKI, Débora; CASTRO, Eduardo Viveiros de. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental, 2014.

LAPOUJADE, David. As existências mínimas. São Paulo: n-1, pp. 43-59, 2017.

LATOUR, Bruno. Bruno Latour: “O sentimento de perder o mundo, agora, é coletivo”. [Entrevista concedida a] Marcs Basset. El País, 31 de março de 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/…/internac…/1553888812_652680.html Acesso em: mar. 2019.

SOURIAU, Étienne. Los diferentes modos de existencia/ Étienne Souriau: prefácio de Bruno Latour; Isabelle Stengers. Trad. Sebastian Puente. 1a. ed.. volumen combinado. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Cactus, 2017.

STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naif, 2015, pp. 91-99.

STENGERS, Isabelle. Reativar o animismo. Trad. Jamile Pinheiro Dias. Belo Horizonte: Chão de Feira. (Caderno de Leituras No. 62). 2017. Disponível em: https://chaodafeira.com/…/2017/05/caderno-62-reativar-ok.pdf Acesso em ago. de 2019.

Projetos:

– Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC) – (Chamada MCTI/CNPq/Capes/FAPs nº 16/2014/Processo Fapesp: 2014/50848-9)

– “Por uma nova ecologia das emissões e disseminações: como a comunicação pode modular a mais intensa potência de existir do humano diante das mudanças climáticas?” (CNPq).

– Revista ClimaCom: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/

 

 

GHIRALDELLI. Rafael. Carbono. ClimaCom – Povos ouvir – a coragem da vergonha [online],  Campinas,  ano 6, n. 16. Dez. 2019 . Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/rafael-ghiraldelli-carbono


SEÇÃO ARTE | POVOS OUVIR – A CORAGEM DA VERGONHA | Ano 6, n. 16, 2019

ARQUIVO ARTE |TODAS EDIÇÕES ANTERIORES