ração | Aline Dias

Título | ração

O vídeo “ração” se detém em um jacaré de papo amarelo em uma manhã de março. Com o corpo submerso, é a sua cabeça, fora da água, que ocupa o quadro, cercada por pequenos grãos esféricos de ração que flutuam ao seu redor. No plano sonoro, fora de campo, passos nos caminhos não pavimentados, rumores e a intervenção de pássaros situam a paisagem do parque. A longa e silenciosa imobilidade do jacaré é pontuada por breves movimentos da cabeça, que se vira, que se movimenta na melancólica tarefa de nutrir-se. A desproporção dos gestos e do próprio corpo do jacaré, na ociosidade dos seus dentes, na grande mordida e no balançar da cabeça com os grãos ingeridos, nos colocam diante da violência do processo de domesticação. A ração que intitula o vídeo e com que é alimentado o jacaré, é a mesma comida fornecida para cágados e peixes que habitam este lago. No terceiro e último plano, com a expressiva redução dos grãos, pode-se acompanhar duas bolinhas, desgastadas e umedecidas, e as mordidas que o jacaré protagoniza. A ração é paradigmática da assombrosa redução da potência do jacaré e, por extensão, de tantas outras espécies, incluindo as nossas humanas práticas alimentares.

Sobre o processo: O encontro matutino com o jacaré que concentro-e-apresento neste trabalho videográfico, integra um conjunto de trabalhos em processo que se dedicam à observação, coleta e produção de imagens. Observando-filmando-escrevendo com animais, insetos e plantas, com a poeira, mofos e movimentos de criaturas larvares, meu processo artístico tem se estruturado através de séries fotográficas, instalações, vídeos e publicações de artista. Buscando aprendizados e relações multiespecíficas na suposta insularidade dos espaços domésticos que habito – casa, parque, quintal – compreendo que os habitantes-visitantes não humanos compõem comigo o espaço. A observação atenta e reiterada no cotidiano propulsiona a produção de imagens-encontros.

A relação entre observação e coleta e montagem de imagens, bem como a noção de que a simbiose não é exceção, mas dinâmica das relações multiespécies como vêm argumentando as pesquisadoras Anna Tsing e Donna Haraway, possibilita a compreensão de que a diversidade e as relações inter/intraespécies são vitais para a nossa sobrevivência no Antropoceno. Olhar com cuidado a patética tensão do agenciamento ração-jacaré, naturalizada na comida dos pets e na nossa própria comida, assim como no nosso próprio confinamento sinaliza e expande a crítica a modos de vida pautados na domesticação e na expropriação, tendo como emblemática a padronização, capitalização e interdição da complexidade da experiência alimentar vigente, tal como é explorada pelo agronegócio.

 


Ficha Técnica |

Aline Dias, ração, 2022, vídeo, 6min40s
Direção, câmera, montagem e trilha sonora | Aline Dias
Imagens captadas no Parque Ecológico Municipal Prof. João Davi Ferreira Lima (Parque do
Córrego Grande), Florianópolis, SC, Brasil

Artista | Aline Dias
Artista e Professora no Departamento de Artes Visuais, Universidade Federal do Espírito Santo UFES.
CV http://lattes.cnpq.br/0273232480307407
Contato | alinemdias@hotmail.com
55 27 98114-1597

 

 

 

 

 

 

 

 

FORTES, Hugo. Suíte Amazônica. ClimaCom. Esse lugar, que não e meu? [online],  Campinas,  ano 9, n. 22. maio, 2022. Available from: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/hugo-fortes/


SEÇÃO ARTE | ESSE LUGAR, QUE NÃO E MEU? | Ano 9, n. 22, 2022

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